Robert Markowitz/JSC/NASA
Robert Markowitz/JSC/NASA

Testes realizados em gêmeos revelam efeitos causados por um ano no espaço

Alguns cientistas consideraram riscos administráveis, enquanto outros indagaram se seria seguro realizar longas viagens até Marte ou mesmo além

Carl Zimmer, The New York Times

27 de abril de 2019 | 06h00

Por 340 dias, Scott Kelly orbitou ao redor da Terra a bordo da Estação Espacial Internacional, reunindo dados sobre si mesmo. Tirou sangue dos braços, guardou a urina. Jogou com o computador a fim de testar a sua memória e a velocidade de suas reações. Ao mesmo tempo, a cerca de 400 quilômetros em baixo dele, o irmão gêmeo de Kelly, Mark, que também era astronauta e se aposentou em 2011, realizava testes idênticos. Agora, a comparação dos dois irmãos forneceu uma oportunidade única de saber o que acontece com o corpo humano no espaço - a nível molecular.

No dia 11 de abril, mais de três anos depois de Kelly, com então 55 anos, regressar à Terra, pesquisadores da NASA informaram que seu corpo experimentou um grande número de mudanças. O DNA sofreu mutações em algumas de suas células. O sistema imunológico produziu  uma quantidade de novos sinais. O seu microbioma ganhou novas espécies de bactérias. Muitas destas mudanças biológicas, aparentemente inócuas, desapareceram após o seu regresso. Mas outras - como mutações genéticas e o declínio das notas em testes cognitivos - não se corrigiram, suscitando preocupação entre os cientistas.

Alguns consideraram os riscos administráveis, enquanto outros indagaram se seria seguro para os astronautas realizar longas viagens até Marte ou mesmo além. Os cientistas ainda não entendem grande parte da vida no espaço. Com pesquisas como o Estudo de Gêmeos da NASA, publicado na revista Science, a agência espera obter uma resposta a algumas de suas indagações.

Em 2012, a NASA  escolheu Kelly para acompanhar o cosmonauta russo Mikhail Kornienko a bordo da estação espacial a fim de examinar, ao longo de um ano, desafios de uma viagem ao espaço com o dobro da duração das anteriores. Kelly disse que foi sua a ideia de comparar o seu desempenho ao do irmão gêmeo. “Temos dois homens geneticamente idênticos”, disse. “Eles permitiriam realizar um experimento interessante”.

Comparando os irmãos, a NASA esperava obter uma compreensão mais apurada das mudanças que Scott Kelly sofria durante a sua missão. “O fato  de serem gêmeos realmente reduz as alternativas”, afirmou Susan Bailey, oncologista bióloga da Colorado State University e coautora de novo estudo. “Na melhor das hipóteses, estas mudanças são decorrentes dos voos espaciais”.

O corpo de Kelly sofreu algumas alterações, de certo modo, surpreendentes. Bailey estudou seções especiais do seu DNA, chamadas telômeros, que protegem os cromossomos da deterioração. À medida que as pessoas envelhecem, os sues telômeros ficam mais curtos. O stress - como a radiação - pode acelerar o envelhecimento esgarçando os telômeros ainda mais rapidamente.

O comprimento médio dos telômeros de Kelly aumentou em lugar de diminuir durante a sua permanência no espaço, como se as suas células tivessem rejuvenescido. O espaço pode ter despertado uma população de células tronco paradas no corpo de Kelly. O que se cogita é que talvez seu organismo tenha produzido um novo suprimento de células jovens com telômeros mais compridos.

A ida ao espaço aparentemente desencadeou uma mudança genética em Kelly. Milhares de genes que estavam inativos aumentaram a sua atividade - os mesmos genes permaneceram inativos no organismo de Kelly, na Terra. Quanto mais tempo Scott Kelly permanecia no espaço, mais crescia o número de genes ativos.

Sabe-se que alguns dos genes que despertaram são os que codificam proteínas que ajudam a curar o DNA danificado. Os cientistas avaliaram que, no decorrer de um ano, Kelly esteve exposto a uma radiação 48 vezes superior a da média na Terra. Talvez suas células estivessem trabalhando na reparação dos danos provocados pela radiação.

Entretanto, outros genes ativados desempenham funções no sistema imunológico, mas a razão disso não está clara. Talvez seja o fato de que o stress da vida no espaço provoca uma ração imunológica. Mas estudos recentes mostraram também que vírus latentes podem despertar nos astronautas. Ou, talvez, o espaço simplesmente confunda o sistema imunológico.

O organismo de Kelly voltou em grande parte à condição anterior à sua ida ao espaço, após o regresso, no dia 1º de março de 2016. Algumas espécies de bactérias que cresceram no seu intestino enquanto ele estava no espaço, tornaram-se novamente raras. O estranho alongamento dos telômeros do astronauta desapareceu depois de menos de 48 horas. Na realidade, os cientistas começaram a descobrir muitas células com telômeros menores do que antes de Kelly ir ao espaço. Seis meses depois do seu regresso, 8,7% dos seus genes ainda se comportavam de maneira alterada. 

Um geneticista descreveu a mudança como modesta. Kelly não mostrou desempenho tão bom em seus testes cognitivos, na volta à Terra.“Ele ficou mais lento e menos preciso, praticamente, em todos os testes”, explicou Mathias Basner, cientista cognitivo da Universidade de Pensilvânia.

É possível que isto seja atribuível a uma mudança biológica. Mas Basner notou que Kelly teve de atender a um grande número de exigências ao voltar, como entrevistas e discursos. E no plano do inconsciente, talvez ele não exigisse mais tanto de si mesmo.

Eric Topol, do Scripps Research Translational Institute da Califórnia, considerou as implicações sombrias. “Por que alguém haveria de querer ir a Marte ou permanecer no espaço?”, questionou. “De fato, isto é realmente assustador”. Mas Jerry Shay, biólogo celular do Southwestern Medical Center, da Universidade do Texas, se mostrou otimista, e afirmou: “Acho que todos estes problemas têm solução”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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