Lauren Fleishman/The New York Times
Lauren Fleishman/The New York Times

'The Duchess' celebra 'formatos de família engraçados'

Personagem é extensão da minha persona, mas não é a minha vida real, diz a comediante, e criadora da série, Katherine Ryan

Eleanor Stanford, The New York Times - Life/Style

24 de setembro de 2020 | 05h00

LONDRES - No ano passado, quando Katherine Ryan estava se preparando para filmar sua primeira cena de sexo, ela quis fugir. Todo o seu corpo, ela se lembrou recentemente, estava lhe dizendo: “Não. A gente não quer fazer isso”. A comediante canadense estava filmando The Duchess, sitcom da Netflix que ela também escreveu e produziu. Depois de pensar no custo de adiar a filmagem para outro dia, sua mente convenceu seu corpo. Aí ela fez a cena.

“Foi nesse dia que aprendi a diferença entre fazer stand-up e atuar”. Ela percebeu que conseguia contar piadas sobre sexo, mas “não interpretar essas piadas”. Ryan, de 37 anos, mudou-se para Londres em 2008 e agora é um rosto familiar na televisão britânica, conhecido por seu estilo de comédia confessional e impiedoso. Ela é convidada constante de vários programas populares nos quais comediantes competem em gincanas baseadas em notícias – geralmente, é a única mulher.

Ela também é a única comediante que vive na Grã-Bretanha que recebeu a oferta de fazer um especial para a Netflix. (Já gravou dois). Recentemente, uma revista britânica a chamou de “rainha da comédia” e o Times of London perguntou: “Katherine Ryan é a mulher mais engraçada das telas?”.

A cena de sexo em The Duchess não foi a única “primeira vez”. Ela também nunca tinha feito papel de protagonista, nem escrito roteiro de sitcom, nem recebido comentários diretos de produtores. “Eu ficava meio ‘putz’ quando recebia os feedbacks”, ela disse, mas completou: “Os comentários me empurraram na direção certa”. Sentada à mesa de sua cozinha num subúrbio ao norte de Londres, Ryan reconheceu que alguns espectadores podem confundir a Katherine de The Duchess com ela própria.

“É uma extensão da minha persona, mas não é a minha vida de verdade”, disse ela. “Adornei tudo com ficção”. Ryan foi mãe solteira por uma década, experiência de que ela se valeu para escrever seu material de stand-up, sobretudo seu especial de 2019 para a Netflix, Glitter Room, que foi a gênese de The Duchess. Esse material trazia algumas reflexões sobre a compaixão paternalista que, às vezes, recebia.

“Eu simplesmente adorava ser mãe solo”. Sua personagem em The Duchess também está criando uma filha, Olive. O pai da criança fictícia é ex-cantor de boy band que mora num barco no canal – o que, Ryan fez questão de frisar, não é o caso do seu ex. Olive é muito peculiar, tem um sotaque britânico de classes abastadas (pense em Maggie Smith) que contrasta com o staccato canadense e o amor pelas obscenidades de Katherine.

É muito diferente da fala de Violet, filha de Ryan na vida real. Ryan disse que a comédia é mais engraçada quando fala de experiências específicas, não gerais. E uma experiência que moldou The Duchess foi quando ela, pensando em voz alta, perguntou para seu terapeuta se era hora de ter uma “família normal”, antes de perceber que, estatisticamente, ser mãe solteira não era uma coisa incomum. “Somos muitas, mas ainda existe essa nuvem de vergonha”, disse Ryan.

Ela queria fazer uma série que celebrasse esses “formatos de família engraçados”, como a dela. Katherine e Olive são tão próximas que costumam dormir na mesma cama, e Evan (Steen Raskopoulos), o ansioso namorado de Katherine, quer entrar na família. Quando Katherine decide que quer mais um bebê, em vez de ter um com Evan, ela visita uma clínica de fertilidade com Olive, que pergunta ao médico: “O senhor poderia, por gentileza, fazê-la ter meu bebê?”

Os papéis convencionais da comédia romântica são invertidos: não importa quão cruel e relacionamento-fóbica Katherine seja, Evan simplesmente não consegue deixá-la. “É sempre mais divertido ser meio vilã”, disse Ryan. Talvez porque Ryan conte histórias sobre sua vida para ganhar a vida, ela mantém alguns limites rígidos entre as esferas pública e privada. Quando ela posta uma foto de Violet, 11 anos, no Instagram, ela sempre cobre o rosto da filha – “Desculpe, garota, eu #bebo sozinha”, diz a legenda de uma foto na qual Ryan aparece de biquíni.

Ela nasceu e cresceu em Sarnia, uma pequena cidade de Ontário: um “lugar terrível, horroroso”, como ela descreve em seu especial de 2017 na Netflix, In Trouble. “Eu sempre soube quem eu queria ser, desde o dia em que nasci”, disse ela, acrescentando que também percebeu desde muito cedo que essa vida não incluiria viver com homens “alcoólatras e emocionalmente abusivos”, como viviam muitas mulheres de sua família.

Seus pais se separaram quando ela tinha 15 anos. “Era muito cansativo para mim, eles simplesmente não conseguiam se dar bem”, disse Ryan, que virou a mediadora do casamento. De certa forma, ela escreveu The Duchess para si mesma, disse ela, dando vida à sua própria fantasia de como sua mãe e seu pai poderiam ter agido. Os pais de Olive podem ser pessoas terríveis, mas tentam colocar os filhos em primeiro lugar.

Passar uma tarde na casa de Ryan foi como entrar num mundo confortável e elegante em tons pastel. Três cachorros minúsculos – o menor chamado Cardi Wee – seguiram Ryan de cômodo em cômodo, e sua filha aparecia de vez em quando, numa das vezes carregando um hamster na bolsa. Ryan se casou no ano passado e, durante a visita, seu marido, Bobby Kootstra, voltou de um jogo de golfe e ficou passando pela casa, que é decorada com lustres de cristal, móveis de veludo rosa e muitas velas perfumadas. The Duchess compartilha dessa estética.

Os looks de Katherine, montados pela estilista Jennifer Michalski-Bray, são opulentos e coloridos, algo entre a fantasia de moda de uma menina e um look de passarela. “Adoro usar roupas que confundem e irritam os homens”, disse Ryan. “Eu realmente adoro isso”.

A Netflix ainda não assinou contrato para uma segunda temporada de The Duchess, disse Ryan, mas ela já começou a escrevê-la. E tem certeza de uma coisa: ela não incluirá nenhuma cena de sexo para si mesma. “Nunca mais vou fazer uma coisa dessas”, disse ela. “Ponto final. De jeito nenhum”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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