Patti Perret / Universal Pictures
Patti Perret / Universal Pictures

'A Caçada' é trama adequada para qualquer época: o ser humano como presa

Filme de Craig Zobel é adaptação do conto 'The Most Dangerous Game', de Richard Connell

Jason Bailey, The New York Times

25 de março de 2020 | 06h00

Nas cenas iniciais de A Caçada, dirigido por Craig Zobel, demora um pouco para se descobrir quem é caçador, quem é caça e por quê. Os roteiristas Nick Cuse e Damon Lindelof são capazes de deixar o público em suspense, pois estão adaptando uma história que se tornou moeda cultural comum.

O conto The Most Dangerous Game, de Richard Connell, foi publicado pela primeira vez em 1924. Trata-se da sombria fábula de um caçador que se vê em uma ilha isolada habitada pelo personagem general Zaroff, um rico excêntrico que se cansou de perseguir criaturas selvagens e, em lugar deles, “teve que inventar um novo animal para caçar”: o homem. “A vida é para os fortes, deve ser vivida pelos fortes e, se necessário, tomada pelos fortes", explica o general Zaroff. “Os fracos do mundo foram colocados ali para dar prazer aos fortes. Sou forte. Por que deveria abster-me de usar meu dom?”

A história e os tabus subjacentes nessa ideia revelaram uma durabilidade surpreendente na cultura popular — e se mostraram maleáveis às ideias políticas e artísticas da mudança dos tempos. Se a história original era parte da tradição das aventuras de ficção científica daquela era, a filosofia do general Zaroff lembra o conceito da “sobrevivência do mais forte” de Darwin, ou ao menos uma interpretação equivocada dessa ideia.

Quando a primeira adaptação dessa história para o cinema chegou às telas oito anos mais tarde, o general Zaroff era retratado de outra maneira. O roteirista James Ashmore Creelman transformou o grande vilão da versão de 1932 de general cossaco para conde russo. Seu isolamento, sotaque e insanidade fazem dele um Outro, acima de qualquer outra coisa.

Essa ideia ficou ainda mais explícita na adaptação seguinte, A Game of Death (1945), que transformou Zaroff em Erich Krieger, um nazista escondido em sua própria ilha após a 2ª Guerra Mundial. Adaptações posteriores como Run for the Sun (1956) e Bloodlust! (1961) mantiveram essa estrutura.

Mas os tempos mudaram, o público se tornou mais cínico, e a abordagem dos cineastas para essa narrativa maleável foi ajustada de acordo — refinando as pinceladas amplas e ideias básicas de The Most Dangerous Game para transformá-las em um comentário social cortante e na imaginação de uma distopia hipotética, na qual o caçador de homens é o próprio estado.

Em Turkey Shoot (1982), do diretor australiano Brian Trenchard-Smith, os caçados são os rebeldes da sociedade, tirados de um campo de concentração de um estado totalitário de um futuro próximo e libertados com a missão de matar ou morrer. Esses elementos também dão a dinâmica do filme japonês Battle Royale (2000) e da franquia Jogos Vorazes.

Mas, quando os predadores e suas presas têm à sua disposição apenas os elementos, a disputa fica mais justa. É a situação enfrentada por Crystal (Betty Gilpin), heroína de A Caçada, em uma história que parece mais relevante para o clima político atual. Mas a mais nova reviravolta de The Most Dangerous Game mostra que estamos diante de uma história atemporal, na qual forças poderosas acreditam poder violar o tabu definitivo, apenas para descobrir que a moralidade e a civilidade precisam prevalecer. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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