Andrew Testa/The New York Times
Andrew Testa/The New York Times
Allison McCann, The New York Times - Life/Style

02 de outubro de 2020 | 05h00

LONDRES - A primeira peça que Theresa Ikoko escreveu não era necessariamente planejada para ser levada aos palcos – não ainda, de qualquer maneira. Naquele ponto, era simplesmente uma história que ela havia escrito para si mesma depois de anos colecionando personagens e cenas em sua cabeça, todos eles enraizados nas comunidades que ela conhecia como uma mulher nigeriana-britânica.

Quando ela leu trechos do texto ao telefone para um amigo há vários anos, ele ficou surpreso com a maneira como ela havia captado a experiência de ser negra e britânica. “Depois que terminei, ele me disse:‘ Theresa, não há diferença entre isso e Shakespeare, no que me diz respeito’”, disse Theresa com uma risada enquanto estava sentada em um banco de parque no leste londrino.

Desde então tem sido uma ascensão notável para a dramaturga que virou roteirista. Até o ano passado, ela trabalhava como conselheira em uma organização contra violência juvenil, fingindo escrever longos e-mails enquanto, na verdade, escrevia cenas. Theresa acabou submetendo seu texto à Talawa Theatre Company, renomado grupo de teatro liderado por negros da Grã-Bretanha, que aproveitou a chance de produzi-lo como uma peça.

A obra, Normal, funcionou como uma leitura de palco em 2014 e, um ano depois, ela escreveu Girls, uma peça sobre três meninas sequestradas por um grupo terrorista. Isso lhe rendeu o prêmio Alfred Fagon de melhor peça inédita de 2015 e o prêmio George Devine de dramaturgo mais promissor em 2016.

Seu primeiro filme, Rocks, que ela escreveu com Claire Wilson, estreou na Grã-Bretanha em setembro. Centra-se na alegria e resiliência de jovens mulheres negras - um grupo que raramente recebe atenção no cinema britânico - e posiciona Theresa como uma nova voz importante. Este ano, ela se junta a uma onda de jovens escritores, produtores e diretores negros conquistando espaço em uma indústria que costuma excluí-los ou esmagar suas expectativas, exigindo que seus trabalhos cubram apenas questões de raça.

“É como se meu filme tivesse que destruir o racismo”, disse Theresa. “E tem que oferecer reparações. Ele também tem que destronar a monarquia e restaurar os artefatos roubados de volta ao Benin. Mas são 90 minutos com um orçamento pequeno!” No entanto, para Theresa, "há muito mais coisas relacionadas ao fato de ser negro, além de lidar com o racismo".

E isso significou criar uma obra que também foca na alegria negra. Enquanto crescia, ela nunca conheceu nenhum escritor ou soube que escrever era algo que as pessoas eram pagas para fazer. A mais nova de nove filhos foi criada por uma mãe solteira que veio da Nigéria para a Grã-Bretanha alguns anos antes do nascimento de Theresa. Sua família morou em vários conjuntos habitacionais municipais, uma forma de habitação pública britânica, todas no bairro de Hackney, no leste de Londres.

Sua mãe trabalhava em vários empregos e Theresa disse que havia momentos em que elas se viam apenas de passagem; Theresa saindo para a escola e sua mãe voltando do turno da noite. “Ela sempre verificava se eu escovava os dentes e a língua”, disse Theresa. Apesar de ter pouco dinheiro enquanto crescia, Theresa disse que nunca se sentiu pobre.

Economizar dinheiro na conta da água era disfarçado como uma oportunidade de tomar um banho de balde - uma esfoliação seguida de enxágue com uma tigela de água, algo comum na Nigéria de sua mãe. Ela compartilhava uma cama de solteiro com a irmã mais velha, mas o jeitinho dado para que todos tivessem um lugar para dormir significava fofocar muito depois que se deitavam. “Não parecia algo como 'Ai de nós', embora vivêssemos em uma propriedade do estado”, disse ela.

“Sempre havia barulho. Sempre foi divertido”. Ela desenvolveu um amor precoce pela leitura e por contar histórias, em parte graças ao trabalho de autores negros como Malorie Blackman, Sister Souljah e Eric Jerome Dickey. Mas ela buscou um caminho mais prático, estudando psicologia na Universidade Royal Holloway e, mais tarde, obtendo um mestrado em criminologia e justiça criminal em Oxford.

Foi por meio do trabalho da justiça criminal que ela começou a ver em primeira mão as expectativas depositadas em pessoas de comunidades como a dela. “Houve uma pesquisa que incluiu a demografia dos prisioneiros junto com alguns fatores preditivos”, disse ela. “Eu vi que todos os seus fatores preditivos eram meus - família com apenas um responsável, baixa renda, [ser proveniente] de uma área de alta criminalidade - e eu não concordo com isso.”

Quando trabalhou em um programa que organizava oficinas de teatro nas prisões de Londres, ela começou a ver o poder da narrativa - e as histórias que tinham de ser contadas. “Eu estava me apaixonando por dar às pessoas o poder de serem o que queriam”, disse ela.

Mas fazer decolar sua carreira de escritora não aconteceu sem desafios. Ela disse que certa vez apresentou uma proposta de seriado para um executivo da televisão britânica sobre um grupo de irmãs somalis, apenas para que ele perguntasse onde na Grã-Bretanha havia telespectadores somalis.

“Não é bom o suficiente apenas ser uma boa história?”, ela questionou. E embora seu trabalho geralmente se concentre na experiência negra britânica, Theresa tenta evitar focar exclusivamente no racismo ou posicionar a negritude como um contraponto à branquitude. “Essa ideia de que a negritude só existe no racismo e na opressão não me cai bem”, disse ela.

A experiência negra também envolve alegria, observou ela, apontando para recentes fotos virais no Twitter da descoberta de um jovem negro sobre brincar, com fotos serenas dele batendo os calcanhares em um campo vazio. “É claro que precisamos destruir o racismo sistêmico e a opressão estrutural, mas quero que meu trabalho lembre os negros de rir, de brincar”, disse ela. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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