Jialun Deng
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TikTok: a empresa chinesa por trás do domínio do mercado

Ascensão do aplicativo aparentemente inócuo está forçando americanos a considerar um mundo influenciado por uma rede social apoiada pela China

Li Yuan, The New York Times

16 de novembro de 2019 | 06h00

Os líderes americanos despejaram efetivamente a Huawei e um punhado de empresas de tecnologia chinesas da área de vigilância, alertando a população a respeito da ameaça à segurança nacional e à privacidade que a instalação de produtos Made in China em áreas sensíveis da infraestrutura eletrônica representaria para o país. Agora eles têm um novo alvo: os adolescentes que dançam e cantam e os pré-adolescentes do TikTok.

Um painel sigiloso formado por membros do governo federal preocupados com a segurança nacional está revendo a compra da TikTok, realizada há dois anos, por uma companhia chinesa chamada Bytedance. Três senadores pediram ao governo Trump a revisão das possíveis ameaças representadas pelo aplicativo, alertando que a Bytedance pode retirar o conteúdo que desagrada ao Partido Comunista, como os vídeos dos protestos em favor da democracia, em Hong Kong.

O TikTok nega que esteja censurando o conteúdo político. No aplicativo, podem ser encontrados vídeos que apoiam os manifestantes e declaram “Reivindiquem Hong Kong!” O inesperado sucesso do Tik Tok está obrigando os americanos a considerar pela primeira vez na vida um mundo influenciado por uma rede social que tem o respaldo chinês. O Bytedance não é um braço do Partido Comunista. No entanto, deve grande parte do seu sucesso à capacidade de navegar pelas correntes políticas de Pequim, e a publicação de textos inócuos que poderiam passar sem censura.

Seu fundador, Zhang Yiming, reiterou os comentários de Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook afirmando que ele é dono de uma companhia de tecnologia, e não de uma companhia de mídia. Nenhuma outra companhia de tecnologia chinesa teve tanto sucesso na internet global quanto a Bytedance. O TikTok tem quase 1,5 milhão de downloads globalmente e 122 milhões nos Estados Unidos, segundo a empresa de dados Sensor Tower.

O Tik Tok afirma que armazena os dados dos seus usuários americanos localmente e “não retira conteúdo baseado em temas sensíveis que dizem respeito à China”. Mas as autoridades chinesas costumam estabelecer diretrizes para as empresas de mídia e depois deixar que elas façam uma autocensura.

Em certos momentos, o TikTok evitou tópicos desconfortáveis. As diretrizes do aplicativo quando baixado em Hong Kong mostraram que ele proibia conteúdo político. O TikTok atualizou as diretrizes depois de ser solicitado a fazê-lo, explicando que deveriam ter sido retiradas em maio e reapareceram por engano.

No entanto, os críticos do TikTok ainda não apresentaram nenhuma prova de que Pequim o esteja usando para disseminar a propaganda entre os jovens ou que esteja usando de maneira enganosa os dados dos usuários. Por outro lado, o governo americano nunca apresentou provas de que o equipamento da Huawei fosse uma ameaça à segurança, no entanto, ela foi essencialmente banida das redes de telecomunicações.

Zuckerberg, que tenta emular o TikTok, afirma que o que há é uma competição de valores. “Até pouco tempo atrás, em quase todos os países fora da China, a internet foi definida pelas plataformas americanas por seus fortes valores de liberdade de expressão”, afirmou recentemente em um discurso. “Não há nenhuma garantia de que estes valores irão se impor”.

A sua companhia já tentou criar software que permitisse aos parceiros chineses bloquear conteúdo que desaprovassem. Mas os comentários tocam em uma verdade mais ampla: para fazer negócios na internet chinesa, uma companhia precisa atender aos desejos do governo. A Bytedance foi fundada em 2012 por Zhang, na época com 29 anos de idade. Algumas pessoas o comparam a Zuckerberg. Ambos afirmaram que o trabalho das máquinas é melhor do que o das pessoas na distribuição de conteúdo.

Quando a Bytedanc lançou o Toutiao, um aplicativo de agregação de notícias que se tornou extremamente popular na China, ele era gerido por um software e não por um editor. Na opinião de muitos usuários, este sistema apresentava um fluxo constante de bobagens, dependendo do que eles haviam clicado antes: fotos de biquínis, vídeos bobos, memes de pets.

“Zhang Yiming e os seus engenheiros treinam a máquina para compreender o coração das pessoas”, escreveu um blogger. “Ao mesmo tempo, treinam o usuário para que ele se vicie”. No final de 2016, Toutiao se tornou o segundo aplicativo mais popular da China com base no tempo que os usuários dedicavam a ele, segundo a empresa de dados QuestMobile. No ano passado, a Bytedance captou mais recursos dos investidores que o avaliaram em US$ 75 bilhões.

Em abril de 2018, a Bytedance foi punida por veicular conteúdo “pouco saudável”. E foi obrigada a fechar um aplicativo chamado Neihan Duanzi por hospedar piadas e vídeos vulgares. Zhang pediu desculpas, afirmando em uma carta que assumia a responsabilidade pelo conteúdo incompatível com “os valores socialistas fundamentais”. Prometeu fortalecer o partido no Bytedance e anunciou que ampliaria a equipe de moderação de conteúdo.

Como outras plataformas, a Toutiao começou apresentando artigos sobre Xi Jinping, o líder da China, no começo dos seus feeds. Suas desculpas aparentemente foram bem-recebidas. Em duas semanas, ele fez um discurso programático em uma conferência sobre tecnologia organizada pelas autoridades reguladoras de internet. O tópico foi “Estratégia de expansão global da Bytedance”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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