Katie Hayes Luke / The New York Times
Katie Hayes Luke / The New York Times

Gratuitos, conselhos médicos 'invadem' o aplicativo TikTok

Cresce debate sobre endividamento por causa de despesas médicas, uma da principais causas de falência nos Estados Unidos

Amanda E. Newman, The New York Times

22 de fevereiro de 2020 | 06h00

O último lugar em que Eva Zavala esperava encontrar algum alívio para as despesas médicas era a plataforma TikTok, rede social pertencente à China usada para compartilhar vídeos breves.

Então ela encontrou por acaso um vídeo publicado por Shaunna Burns, da Carolina do Norte, aconselhando os espectadores a entrar em contato com os hospitais e pedir uma descrição detalhada das despesas médicas, item por item. Isso pode levar à remoção de cobranças escandalosas, como US$ 37 por um Band-Aid.

Eva disse ao Times que seguiu esse conselho e suas despesas médicas foram reduzidas de US$ 1.000 para zero. Em respostas ao vídeo, milhares se queixaram do sistema de saúde americano, no qual o seguro é proporcionado geralmente pelos empregadores, e agradeceram a Shaunna pela dica.

Irene Flippo, defensora dos pacientes, não ficou surpresa com a resposta. O endividamento por causa de despesas médicas é uma da principais causas de falência nos Estados Unidos, mesmo para quem tem seguro saúde privado, e o sistema de cobrança é confuso e difícil de interpretar. Ela falou na necessidade de ensinar às pessoas como lidar com as despesas médicas.

Talvez o TikTok, que já foi baixado 1,65 bilhão de vezes, não seja o primeiro lugar onde as pessoas procuram orientações desse tipo. Mas isso não impediu os médicos de usar o aplicativo. “A plataforma tem um vasto potencial de público que vai além dos seguidores de uma pessoa", afirmou a médica da família Rose Marie Leslie, de Minnesota.

Leslie usou o TikTok para compartilhar conselhos médicos. Os vídeos dela a respeito da doença pulmonar ligada aos cigarros eletrônicos tiveram mais de três milhões de visualizações, e ela insistiu para que o público queimasse calorias imitando coreografias que viralizaram no aplicativo.

Mas, para causar impacto na plataforma, é necessário aderir ao seu formato casual e, muitas vezes, bobo. Os vídeos são engraçados ou leves; coreografias originais ao som de músicas pegajosas são um gênero especialmente popular.

A ginecologista Danielle Jones, do Texas, também percebeu que a chave para o sucesso no TikTok está na abordagem. “Minha presença no TikTok é como se eu fosse aquela amiga que, por acaso, estudou ginecologia e obstetrícia", brincou. “É uma ótima maneira de levar informação às pessoas que precisam dela, chegando exatamente onde elas estão”.

Outro de seus vídeos de educação sexual, no qual ela diz ao público o que fazer quando o método anticoncepcional falha, teve mais de 11 milhões de visualizações.

Combate à desinformação

O TikTok também é usado para ajudar no combate à desinformação que é difundida nas redes sociais. Nas semanas que se seguiram ao início da epidemia de coronavírus em Wuhan, na China, proliferaram na internet informações falsas dizendo que o vírus tinha sido desenvolvido como arma biológica ou como tentativa de aumentar a venda de vacinas.

Ainda que desinformações sejam proibidas no TikTok e a plataforma se esforce para remover vídeos que promovem teorias da conspiração, a difusão do conteúdo desse tipo é tão potente que a Organização Mundial da Saúde recrutou a ajuda de empresas como Facebook, Twitter e Google para combater uma dita “infodemia". As plataformas estão trabalhando com a OMS para remover informações falsas a respeito do coronavírus.

É uma luta que Leslie e Jones conhecem muito bem. Em se tratando do combate à desinformação, um elo humano pode ajudar muito. “Quando lidamos com um público jovem, é muito importante garantir que o conteúdo produzido seja profissional, com informações corretas", afirmou a professora de redes sociais Sarah Mojarad, da Universidade do Sul da Califórnia. “Algumas pessoas podem achar que se trata apenas de uma brincadeira dos médicos, mas é algo que afeta o atendimento". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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