Stephen Tayo/The New York Times
Stephen Tayo/The New York Times

Tiwa Savage, a Rainha do Afrobeat, tem um novo começo

Uma superestrela nigeriana está encantando fãs nos Estados Unidos e em todo o mundo com seu último álbum

Jon Pareles, The New York Times - Life/Style

06 de novembro de 2020 | 05h00

Para uma cantora e compositora que está fazendo seu álbum de estreia nos Estados Unidos, Tiwa Savage é extremamente qualificada. Celia, lançado em agosto, é na verdade seu quarto álbum completo na Nigéria, onde nasceu e foi aclamada nos últimos anos como a Rainha do Afrobeat, o pop da África Ocidental que está encontrando seu caminho para um público mundial cada vez maior.

É o nivelamento global de uma carreira solo que também inclui muitos singles que não foram incorporados a álbuns e colaborações com os principais artistas do Afrobeat, como Wizkid, Davido e Patoranking. Savage foi apresentada na música "Keys to the Kingdom" ao lado de Mr Eazi no álbum The Lion King: The Gift, de Beyoncé (reaproveitado este ano para o álbum visual Black Is King, também da cantora estadunidense).

Tiwa Savage, de 40 anos, também foi apresentadora de televisão ("Nigerian Idol"), atriz de teatro e de televisão, sua própria diretora de vídeos e ativista dedicada à prevenção do vírus HIV e ao combate à cultura do estupro na Nigéria. Seu alcance internacional, em serviços de streaming e outras mídias, reflete sua experiência internacional.

"Morei na Nigéria, em Londres, nos Estados Unidos. São três culturas e continentes completamente diferentes. Assim, acabei crescendo e me tornando uma esponja para diferentes tipos de música", disse ela via Zoom de sua casa em Lagos, vestida casualmente com uma camiseta e, conforme ressaltou, sem usar maquiagem ou cílios. Antes de iniciar sua carreira solo na Nigéria, há uma década, Savage trabalhou nos bastidores do mercado musical americano e do britânico.

Tem créditos como compositora nos álbuns de Fantasia, Kat DeLuna e Monica, e foi cantora de apoio na turnê com Mary J. Blige, no último álbum de estúdio de Whitney Houston e no palco do estádio de Wembley com George Michael. Celia é um álbum com batidas Afrobeat elegantemente insinuantes, canções de amor e mensagens sutis, mas propositais, de empoderamento. As letras se alternam entre o inglês e o iorubá enquanto Savage desliza pelas melodias, raramente levantando sua voz imperturbável.

Seu último single, "Temptation", é um dueto com o cantor pop inglês Sam Smith, que ficou "lisonjeado" por se juntar a ela, comentou ele via Zoom, de Londres, porque "acho que ela é sensacional". 

"Tiwa tem um tom natural em sua voz que faz você se sentir como se estivesse ouvindo um amigo. Traz conforto e te deixa completo, com a sensação de estar em casa. E ela soa gentil quando canta. Meus cantores favoritos têm uma suavidade na voz que não te acerta na cara. Ela apenas se senta e fala com o ouvinte de uma maneira gentil e suave. É assim que ouço a voz dela".

Savage está tratando Celia tanto como um ponto alto quanto como um novo começo. "Quando comecei como artista, fui vista de uma certa forma e cresci desde então. Passei por um divórcio, fui mãe solteira e vi reações negativas por ser às vezes muito sexy em uma indústria dominada por homens", disse a artista. Savage nasceu em Lagos e cresceu ouvindo a música nigeriana que seus pais adoravam – o Afrobeat politicamente carregado de Fela Kuti e o juju de Sir Shina Peters –, ao lado do pop ocidental importado.

Ela tinha 11 anos quando se mudou com a família para Londres, e, embora fosse atraída pela música e cantasse no coro da escola, obedientemente seguiu o conselho de seu pai e se formou em Administração de Empresas, chegando a trabalhar como contadora em um banco. A música a atraiu, no entanto, e ela decidiu estudar na Berklee College of Music, em Boston, adicionando o jazz ao seu vocabulário. Sua próxima mudança foi para Nova York, onde se concentrou em escrever canções.

Uma noite, ela terminou uma sessão e deixou seu engenheiro trabalhando em uma música. Fantasia, que estava trabalhando em um estúdio próximo, ouviu a música "Collard Greens and Cornbread" e imediatamente quis gravá-la. Isso resultou em um contrato de publicação com a Sony/ATV e uma mudança para Los Angeles, onde Savage trabalhou como compositora e cantora de apoio.

"Aprendi 70% de como lidar com o estresse da indústria quando fui cantora de apoio. O foco não está em você, mas você observa como ela lida com a imprensa, como lida com os fãs quando está cansada, como lida com a pressão. Por isso, eu estava mentalmente preparada. Eu sabia que dá muito trabalho", ela afirmou se referindo ao período em que esteve na estrada com Blige. Em 2010, ela iniciou sua carreira solo, voltando para Lagos, que já era o centro do Afrobeat.

Em 2013, casou-se com seu empresário, Tunji (Teebillz) Balogun, e tiveram um filho, Jamil, em 2015. "Ele disse: 'Olhe para Rihanna, olhe para Beyoncé, olhe para todas essas garotas – você tem de ser sexy.' Devo isso a ele, porque essa estratégia funcionou para que eu me inserisse no mercado. Quando apareci em cena, não havia nada parecido comigo. As pessoas diziam: 'Ei, quem é ela? É nigeriana? E está usando um casaco de gato multicolorido em um vídeo?' Então, aquilo chamou a atenção deles", contou Savage.

Seu primeiro single, "Kele Kele Love", foi um sucesso; Savage cantou a respeito de querer todo o amor de seu homem, e não só a metade. Mas seu vídeo – modesto para o padrão americano – atraiu uma reação negativa na Nigéria, ao lado de algumas indicações a prêmios.

Seu próximo vídeo, "Love Me Love Me Love Me", mostrava-a na cama com um homem sem camisa e foi censurado pela Comissão Nacional de Radiodifusão na Nigéria. Algumas de suas apresentações foram canceladas. "Algumas pessoas me disseram: 'Isso é muito sexy. Você não pode ser isso.' E, quanto mais me diziam não, mais eu continuava forçando a barra. As saias ficaram mais curtas, os cílios ficaram mais longos", observou a artista.

Seu primeiro álbum, Once Upon a Time, foi lançado em 2013, e continha tanto o R&B americano quanto o Afrobeat. O segundo, R.E.D, de 2015, foi exuberantemente pan-africano, pegando ritmos de todo o continente e mergulhando no reggae jamaicano. Ela fez inúmeros shows, mesmo quando estava visivelmente grávida.

Mas, à medida que sua popularidade aumentava, seu casamento se deteriorava. Em 2016, ela e seu marido estavam separados e publicamente em desacordo, até que, por fim, se divorciaram. Na metade de "Celia", Savage canta "Us (Interlude)", que aborda diretamente a separação: "I wasn't enough / You weren't enough / Love wasn't enough" (Não fui o suficiente / Você não foi o suficiente / O amor não foi o suficiente), lamenta ela.

"É certamente a primeira vez que estou sendo vulnerável. Quando começamos, era assim: 'Eu e você vamos conquistar o mundo.' E depois chegou a um ponto em que a marca estava ficando grande, e, quando tive de tomar uma decisão, não era só eu e você", comentou Savage, acrescentando que demorou anos para aceitar a separação. Apesar da programação, do planejamento, do gerenciamento de marca e das mensagens cuidadosas que envolvem sua música, Savage está determinada a se soltar.

Está trocando a coreografia precisa por movimentos mais espontâneos; está revelando seu lado moleca, bem como seu lado glamoroso; está deixando ruídos e imperfeições em suas canções. Seu próximo álbum, que pode ser lançado no ano que vem, talvez mergulhe na música brasileira ou em outros estilos que já chamaram sua atenção. "Nunca vou parar de experimentar. É exatamente assim que sou. Acostume-se."

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