Renaud Philippe para The New York Times
Renaud Philippe para The New York Times

Tolerante, Canadá continua em choque após assassinatos em mesquita islâmica

Seis pessoas foram mortas ano passado em um ataque ao Centro Cultural Islâmico de Quebec

Dan Bilefsky, The New York Times

11 Maio 2018 | 10h00

QUEBEC - Quando Alexandre Bissonnette soube do tweet de Justin Trudeau dando aos refugiados boas-vindas ao Canadá, o desmazelado estudante de ciência política de 28 anos ficou furioso, segundo ele próprio disse à polícia.

Apenas algumas horas depois de assistir a uma reportagem na TV sugerindo que o Canadá aceitaria imigrantes rejeitados pelo presidente Donald J. Trump, Bissonnette carregou um fuzil e uma pistola Glock, pegou uma garrafa de Smirnoff Ice e caminhou pelas ruas cheias de neve de Quebec até o Centro Cultural Islâmico que ficava perto de sua casa.

Enquanto 53 homens encerravam as orações da noite, ele disparou 48 vezes. Seis pessoas foram mortas - várias por tiros na cabeça - e 19 ficaram feridas, uma paralisada pelo resto da vida.

Bissonnette pode pegar até 150 anos de prisão após se declarar culpado de seis acusações de homicídio em primeiro grau; a sentença sairá nos próximos meses. Sua audiência de condenação, que terminou no mês passado, foi um lembrete sombrio: mais de um ano depois do massacre de 29 de janeiro de 2017, o Canadá continua lutando contra o crime. O fato adverte sobre os perigos dos avanços da islamofobia e da extrema-direita em um país que se orgulha de seu multiculturalismo e tolerância.

Herman Deparice-Okomba, diretor do Centro para a Prevenção da Radicalização que Leva à Violência, com sede em Montreal, disse que a absoluta obscenidade de alguém atirando contra pessoas em um local de culto destruiu a imagem do Canadá como uma nação aberta e humanista.

“O Canadá se vê como um país de imigrantes, e as pessoas pensavam que uma coisa dessas fosse impossível por aqui”, disse Deparice-Okomba. “O crime de Bissonnette não foi apenas contra uma comunidade. Foi contra a visão coletiva que o Canadá tinha sobre si mesmo. Estamos todos feridos”.

Durante as audiências, especialistas, sobreviventes e pessoas que conheciam Bissonnette pintaram o retrato de um homem tímido e socialmente isolado, mas inteligente, que desenvolveu uma obsessão pela extrema-direita, pelos assassinos em massa, por Donald Trump e contra os muçulmanos.

Certas vezes, parecia que era a própria islamofobia que estava sob julgamento. Bissonnette não foi acusado de terrorismo, o que gerou queixas de grupos muçulmanos que disseram que, se seu nome fosse Muhammad, as acusações teriam sido bem diferentes. Sob o Código Penal canadense, é difícil provar a intenção terrorista, e especialistas dizem que os promotores provavelmente concluíram que garantir uma condenação por assassinato seria menos arriscado.

Alguns sobreviventes testemunharam que estavam com muito medo de voltar à mesquita. Em uma província secular, que recentemente aprovou uma lei que proíbe que pessoas usando véus prestem ou recebam serviços públicos, a corte permitiu que as testemunhas muçulmanas fizessem sobre o Alcorão o juramento de dizer a verdade em juízo.

Agindo sozinho, Bissonnette também levantou uma questão difícil: como um estudante de família de classe média, tímido e obcecado por xadrez, se tornou um assassino?

No mês anterior ao massacre, ele vasculhou a internet 819 vezes em busca de mensagens relacionadas a Trump, lendo seu feed de notícias diárias no Twitter e pesquisando o decreto do presidente americano que proibia a entrada nos Estados Unidos de viajantes oriundos de países de maioria muçulmana. Ele guardava suas armas debaixo da cama, na casa de seus pais. Entre seus únicos amigos estava seu irmão gêmeo, Mathieu.

Bissonnette disse aos investigadores que gostaria de ter matado mais pessoas e que queria proteger sua família dos terroristas islâmicos.

“Eu tinha, tipo, certeza de que eles iriam chegar e matar meus pais também e minha família”, disse ele no vídeo de um interrogatório feito na prisão e exibido no tribunal.

Durante a audiência, Bissonnette ficou impassível quando Megda Belkacemi, filha de 29 anos de uma das vítimas, o professor universitário Khaled Belkacemi, deu testemunho sobre como foi ver seu pai com um buraco no lugar onde deveria estar um de seus olhos.

Os pais de Bissonnette, Manon Marchand e Raymond Bissonnette, funcionária do setor público e advogado, ficaram sentados estoicamente na frente do tribunal repleto de familiares das vítimas. Em certo momento, o casal consolou uma mulher que usava um lenço na cabeça.

Especialistas disseram que, em Quebec, província de língua francesa cercada por uma maioria de língua inglesa, a extrema-direita anti-imigração oferece um terreno fértil para jovens instáveis que, como Bissonnette, estão em busca de um senso de identidade e de bodes expiatórios.

Deparice-Okomba disse que Bissonnette foi um dos jovens bem instruídos da classe média de Quebec atraídos por ideias de extrema-direita, potencializadas pela eleição de Trump e pelo medo de que os imigrantes ameaçassem a identidade de Quebec.

Quando ele começou o centro, em 2015, lidou com 17 casos de jovens da província radicalizados pela extrema-direita. No ano passado, o centro detectou 154 casos desse tipo e 126 casos de jovens radicalizados pelo extremismo muçulmano.

“Quebec não criou o monstro”, disse Amir Belkacemi, filho de Khaled Belkacemi. “Mas aqui a islamofobia lhe deu uma motivação”.

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