Eric Gaillard/REUTERS
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Toque de recolher reduz a propagação do coronavírus?

Uma restrição usada com mais frequência em desastres naturais, ou para reprimir a inquietação, nunca foi testada contra um patógeno como o vírus.

Gina Kolata, The New York Times - Life/Style

02 de fevereiro de 2021 | 05h00

Com o aumento dos casos de coronavírus e com uma nova cepa contagiosa ameaçando acelerar a pandemia, a França adotou um rigoroso toque de recolher das 6 da tarde às 6 da manhã. Os franceses são mantidos dentro de casa e o comércio deve ficar fechado.

Em Quebec, as autoridades canadenses impuseram uma restrição semelhante no início de janeiro, das 8 da tarde às 5 da manhã. Os nervos estão em frangalhos. Uma mulher que caminhava com o namorado às 9 da noite afirmou que isto era permitido durante o toque de recolher, seguramente um dos momentos mais inesperados da pandemia.

A pergunta para os cientistas é: acaso o toque de recolher funciona para conter a transmissão do vírus? Se sim, em que circunstâncias? E em quanto?

O toque de recolher exige que as pessoas permaneçam em casa ou em ambientes fechados, durante um determinado número de horas. Frequentemente é usado para reprimir os distúrbios sociais - muitas cidades o impuseram  durante os protestos contra o assassinato de George Floyd, em meados do ano passado - e depois de desastres naturais ou em emergências de saúde pública.

Mas a medida também  foi usada como instrumentos de repressão política e racismo sistêmico. Há dezenas de anos, nas chamadas cidades do pôr do sol dos Estados Unidos, à população negra não era permitido circular pelas ruas após o escurecer.

Como o avanço da pandemia, a Austrália e muitos países europeus impuseram o toque de recolher baseados na teoria de que manter as pessoas em casa após uma determinada hora reduziria a transmissão viral. Em geral, a medida era implementada juntamente com outras, como o fechamento das lojas e das escolas, o que dificultava a avaliação da sua eficácia.

A evidência científica do toque de recolher está longe de ser ideal. Há um século, não ocorria uma pandemia desta magnitude. Embora a medida tenha sentido em termos intuitivos, é muito difícil perceber os seus efeitos precisos sobre a transmissão viral. E muito menos sobre a transmissão deste coronavírus.

Ira Longini, bioestatístico da Universidade da Flórida, acredita que o toque de recolher é, em geral, um método eficiente para diminuir a velocidade da infecção. Mas ele admitiu que a sua visão se baseia na intuição. “A intuição científica nos diz alguma coisa.”, afirmou. “É que não conseguimos quantificá-la muito bem”.

Maria Polyakova, economista  da Universidade Stanford, estudou os efeitos da pandemia para a economia americana.

“Em geral”, afirmou, “esperamos que permanecer em casa reduza mecanicamente a pandemia, por reduzir o número de interações entre as pessoas”. 

“Ocorre, por outro lado,  que a redução da atividade econômica principalmente afeta muitos trabalhadores e suas famílias no amplo setor de serviços da economia”, acrescentou.

Então, o toque de recolher valerá a pena?

Ela não consegue compreender a lógica.

“Pressupondo que as boates e estabelecimentos semelhantes já estejam fechados de qualquer maneira, por exemplo, proibindo as pessoas de sair para dar uma volta no quarteirão com a família à noite, é improvável que isto reduza as interações,” disse Polyakova.

Além disso, o vírus prolifera em ambientes fechados e as contaminações em grupo são comuns nas famílias e nas casas. Portanto, uma indagação preocupante é se a presença de pessoas estranhas nestes ambientes por períodos prolongados desaceleraria a transmissão - ou a aceleraria.

“Podemos pensar a coisa do seguinte modo”, disse William Hanage, pesquisador de saúde pública da Harvard T.H. Chan School of Public Health, “que proporção de eventos de transmissão ocorre durante o período em questão? E como o toque de recolher poderia detê-los?”

Um estudo, publicado recentemente na revista Science, analisou dados da província chinesa de Hunan no início da pandemia. O toque de recolher e os fechamentos, concluíram os pesquisadores, tiveram um efeito paradoxal: Estas restrições reduziram a disseminação na comunidade, mas aumentaram o risco de infecção  nas casas, concluiu Kaiyuan Sun, um pesquisador em pós-doutorado dos Institutos Nacionais de Saúde e colegas.

Longini e seus colaboradores incorporaram os fechamentos e o toque de recolher em modelos da pandemia nos Estados Unidos, e concluíram que podem constituir uma maneira eficiente de reduzir a transmissão.

Mas, advertiu, os modelos levam em conta uma quantidade de pressupostos a respeito da população e de como o vírus de propaga.

“O fato de você acreditar que esta é uma justificativa científica, depende de você acreditar no modelo”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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