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Noriko Hayashi/The New York Times
Noriko Hayashi/The New York Times

Este carrossel tem uma história e tanto. Alguém no Japão o salvará?

Com 113 anos, destino do carrossel é incerto em um país que tende a preservar apenas o que é muito antigo

Motoko Rich e Hikari Hida, The New York Times - Life/Style

03 de outubro de 2020 | 22h00

TÓQUIO - Dos santuários de Nikko e os templos de Kyoto aos castelos de Matsumoto e Himeji, os japoneses têm muito orgulho dos monumentos centenários de herança cultural do país. Não é assim para um carrossel de 113 anos na capital do país. Apesar de uma história célebre que inclui raízes na Alemanha, uma visita de Theodore Roosevelt, uma passagem por Coney Island, no Brooklyn, e quase meio século entretendo os visitantes do Parque de Diversões Toshimaen em Tóquio, o El Dorado agora está guardado em um armazém e seu destino é desconhecido.

O carrossel e a cápsula do tempo desbotada de um parque que o abrigava estão abrindo caminho para um parque temático de Harry Potter - uma história familiar em um país muito antigo que tende a descartar o apenas "um pouco velho" pelo novo. Com os últimos giros do carrossel, veio um lampejo final de nostalgia, quando centenas correram para montar seus cavalos entalhados à mão e carruagens de madeira ornamentadas antes que o parque fechasse no final de agosto.

Quatro dias antes do fechamento, Keiko Aizawa, 42 anos, entrou na fila com seu filho de dois anos. “É uma das memórias mais queridas de quando eu era jovem”, disse Keiko. “Sempre vínhamos aqui no verão”. No entanto, essas visitas terminaram há cerca de 30 anos. A notícia de que o carrossel de estilo art nouveau seria levado embora a deixou sentimental. “Eu realmente quero que eles encontrem um lugar para ele”, disse ela.

A nostalgia, porém, é passageira. Os preservacionistas históricos temem que o público japonês não se reúna para salvar o carrossel, como grupos nos Estados Unidos e na Europa fizeram por outros carrosséis e parques de diversões.

Após a Segunda Guerra Mundial, o governo japonês aprovou uma lei segundo a qual as estruturas construídas após o século XVII podem ser designadas como patrimônio cultural. “Antes disso, as pessoas pensavam: 'Oh, é muito novo, não é uma propriedade cultural importante'”, disse Michiru Kanade, historiadora da arquitetura e conservacionista que leciona na Universidade de Artes de Tóquio. Mas mesmo agora, disse ela, a compreensão do público de como organizar campanhas de preservação histórica “é algo que não é tão amplamente conhecido.”

A visão do Japão quanto ao que constitui um tesouro cultural pode, em parte, ser uma função da necessidade. Após os ataques aéreos que arrasaram muitas cidades durante a Segunda Guerra Mundial, a renovação urbana contínua se tornou uma característica do país. E com a ameaça sempre presente de terremotos, as estruturas são frequentemente destruídas e reconstruídas para atualizar os padrões de segurança.

Mais fundamentalmente, o país montanhoso e insular tem espaço limitado para seus 126 milhões de habitantes. “As pessoas dizem que a terra é tão preciosa que não podemos manter os prédios antigos do jeito que estão”, disse Natsuko Akagawa, professora sênior de humanidades na Universidade de Queensland, na Austrália, especializada em patrimônio cultural e estudos de museus.

Mas se o carrossel "vai se deteriorar em um depósito", disse ela, "esse é o final mais triste". Patrick Wentzel, presidente da National Carousel Association, um grupo conservacionista dos Estados Unidos, disse que o El Dorado era provavelmente uma entre apenas uma dúzia de peças desse tipo no mundo.

Deixar uma joia como ele trancada e fora de uso apresenta riscos próprios, disse ele. “Em vários casos, as coisas eram armazenadas e pareciam desaparecer”, disse Wentzel. Mesmo que o El Dorado ainda não seja considerado velho o suficiente para justificar uma designação histórica no Japão, ele acrescentou, “isso terá 500 anos em 400 anos”.

Por enquanto, a Seibu Railway Co., dona do terreno onde ficava o carrossel, não informou onde ele está armazenado ou se voltará a funcionar em um novo local. Em uma cerimônia de encerramento do parque, o chefe do Toshimaen, Tatsuya Yoda, proclamou que o El Dorado “continuaria brilhando para sempre”, mas não ficou claro se ele se referia apenas à memória ou a outro local.

O El Dorado fez uma rota tortuosa para Tóquio. Projetado em 1907 por Hugo Haase, um engenheiro mecânico alemão, podia acomodar 154 pessoas e apresentava 4,2 mil peças espelhadas e pinturas de deusas e cupidos na parte inferior do dossel. Depois que o imperador Guilherme II convidou Roosevelt à Alemanha para ver o carrossel em 1910, Haase propôs que ele fosse transferido para os Estados Unidos.

Um ano depois, os proprietários do Steeplechase Amusement Park em Coney Island importaram o carrossel para o Brooklyn. Reza a lenda que Al Capone e Marilyn Monroe andaram no El Dorado antes do Steeplechase Park fechar em 1964 e o carrossel ser levado para armazenamento pela primeira vez.

Um dos três leões de pedra que puxavam uma carruagem para cima de um pavilhão que abrigava o carrossel está em exibição no Museu do Brooklyn. Os proprietários do Toshimaen, o parque de diversões que trouxe a primeira piscina de correnteza para o Japão e várias outras atrações de origem alemã, ouviram falar do El Dorado e fizeram lances por ele, sem tê-lo visto. O carrossel desmontado viajou de navio para Tóquio em 1969, onde as peças chegaram em sério estado de degradação, camadas de tinta berrante descascando dos cavalos e porcos de madeira.

A reforma levou dois anos. Mais de 20 anos depois, quando a bolha imobiliária do Japão estourou, as pessoas desempregadas não podiam mais pagar visitas a um parque de diversões e o número de visitantes do Toshimaen despencou. Então, conforme a economia se recuperava lentamente, outros parques de diversões como Disneyland Tokyo, Hello Kitty World e Universal Studios Japan foram abertos, sugando os clientes do Toshimaen. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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