Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Torres de Stalin estão caindo aos pedaços

Proprietários de edifícios que simbolizavam a glória de Moscou afirmam que o Kremlin deve se responsabilizar pelas reformas

Neil MacFarquhar, The New York Times

06 Janeiro 2019 | 06h00

MOSCOU - Mikhail Posokhin ainda se lembra do Armazém Número 5 da sua infância, quando, em 1955, a família se mudou para um dos sete arranha-céus em estilo gótico, em Moscou. Mais parecido com uma catedral do que com um mercado, tinha pisos e colunas de mármore, tetos altos com lustres e vitrais nas janelas. Peixes nadavam em um enorme aquário, enquanto em vitrines iluminadas por luzes brilhantes estavam à mostra raridades como caviar em tigelas de cristal.

Ao contrário das outras lojas de Moscou, ali havia sempre abundância de leite, linguiças e barras de chocolate. Os moscovitas vinham admirá-lo atônitos, pois, na maior parte, somente a elite privilegiada - que vivia em apartamentos gratuitos - podia se dar ao luxo de comprar os produtos.

"Esses complexos revelavam uma nova vida que o povo jamais havia visto antes", disse Posokhin, um famoso arquiteto de Moscou cujo pai projetara o edifício. "Eles deveriam expressar o espírito vitorioso e a grandeza da nova era".

O Armazém Número 5, no edifício da Praça Kudrinskaya, agora está abandonado. Tapumes na entrada protegem as pessoas do reboco que está caindo. A maioria das chamadas "torres de Stalin" precisa de reforma.

Desde que os apartamentos residenciais foram privatizados, nos anos 1990, os proprietários devem se responsabilizar, segundo o governo, pela conservação dos imóveis. Mas os moradores acham que a Prefeitura ou o Kremlin deveria se encarregar da restauração destas construções, consideradas monumentos históricos. 

"Na Rússia, ainda não existe a cultura da propriedade de imóveis", afirmou Elizabeth Lihacheva, diretora do Museu Estatal de Arquitetura Schusev, observando que até pessoas que gastam US$ 1 milhão para comprar um apartamento muitas vezes não querem pagar um copeque sequer para limpar o pátio.

No fim da Segunda Guerra Mundial, bairros inteiros de Moscou estavam reduzidos a montes de escombros. Stalin achou que a cidade não tinha a grandeza que a capital exigia depois de seu triunfo. 

"Stalin estava basicamente construindo um Império Soviético, e o seu projeto teria de se expressar em termos arquitetônicos", explicou Elizabeth.

A ideia foi concebida como oito arranha-céus, que coroariam pontos estratégicos da capital de maneira a refletir a imponência dos muros do Kremlin. Stalin julgou que o povo consideraria o Comitê medíocre se Moscou não tivesse seus arranha-céus. O decreto do governo emitido em 1947 para o início da construção ordenava que os edifícios transmitissem o espírito russo. Por isso, o estilo escolhido foi o barroco russo, embora os arquitetos tenham sido influenciados por vários marcos da história americana. Os edifícios tornaram-se os símbolos de Moscou e definiram a própria imagem da União Soviética.

Depois da morte de Stalin, em 1953, o novo líder, Nikita Kruschev, achou o projeto espalhafatoso, e a construção do último prédio foi cancelada. Os outros, que na época custaram US$ 500 milhões, foram concluídos em 1957.

O edifício da Universidade Estatal de Moscou, o maior, com cerca de 240 metros, foi o mais alto da Europa até 1990. Além dos departamentos acadêmicos, seus 6 mil quartos abrigaram todos os alunos até os anos 1970. Os estudantes referem-se a um efeito colateral de décadas de abandono - o agudo odor químico que emana dos dormitórios e até dos próprios residentes.

O edifício do Ministério do Exterior originalmente tinha um teto plano, que segundo a lenda, Stalin achou um estilo demasiado americano, por isso ordenou a instalação no topo de uma espiral semelhante ao Kremlin. O governo está financiando a reforma, e sua conclusão está prevista para 2026. A majestosa foice com o martelo da fachada será preservada. O Terrapleno Kotelnicheskaya é o único edifício residencial que foi restaurado.

Posokhin projetou recentemente um gigantesco arranha-céu Art Déco com o topo plano como tributo à concepção original dos arranha-céus de Stalin. Mas o banco que funcionará ali exigiu um enorme pináculo - agora iluminado com as cores da bandeira russa. 

"Nosso erro foi corrigido", disse Posokhin, com uma risada sarcástica. / Ivan Nechepurenko e Sophia Kishkovsky contribuíram para a reportagem.

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