J Wee for The New York Times
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Taylor Lorenz, The New York Times - Life/Style

26 de abril de 2021 | 05h00

Há anos especialistas do sono se atêm a um conceito muito difundido e fundamental: aparelhos eletrônicos não deveriam ter lugar no quarto de dormir.

No entanto, desde o início da pandemia de coronavírus, em março do ano passado, milhões de americanos desafiam esta orientação e começaram a trabalhar exatamente no mesmo lugar em que dormem. Eles redigem documentos legais, produzem eventos, fazem reuniões com os clientes, se correspondem com as pessoas, estudam e escrevem, tudo isto debaixo das cobertas.

O plano nem sempre foi este. Desde o início, muitos investiram em escrivaninhas e outros equipamentos, com o propósito de tornar as suas casas tão ergonomicamente saudáveis e semelhantes ao escritório quanto possível. 

Quando a cidade de Nova York fechou completamente, em março, Vanessa Anderson, 24, colocou uma escrivaninha em sua sala de estar. Ela trabalhava para uma empresa que agencia chefs de cozinha particulares e queria preservar alguma ideia de separação entre o trabalho e o sono. "Por algum tempo, realmente me comprometi comigo mesma a não trabalhar no quarto", contou.

Em maio, Vanessa mudou a escrivaninha para o quarto em busca de mais luz. “Minha cama estava bem ali, me provocando”, falou. Ela estabeleceu regras básicas para si mesma. Só iria para a cama depois das 2 da tarde, mas este horário sofreu alterações e adiantamentos cada vez maiores. Chegou julho, e sua cama havia se tornado um escritório em tempo integral.

Desde então, Vanessa mudou de emprego - agora ela trabalha no comércio eletrônico para uma loja de especiarias - e só trabalha remotamente parte da semana, mas ainda na cama. Falando com conhecidos, ela descobriu que esta prática se tornou comum. “Falei com pessoas que também estavam na cama como eu”, ela disse. No final de cada telefonema a pergunta é: “E como está indo na pandemia? Ah, você está na cama neste momento? Eu também!”

Trabalhar na cama é uma tradição consagrada ao longo do tempo, e foi mantida por algumas das personalidades mais famosas da história. Frida Kahlo pintou obras primas na sua. Winston Churchill ditava às datilógrafas enquanto tomava café da manhã na cama. Edith Wharton, William Wordsworth e Marcel Proust escreveram algumas das suas obras em prosa e poesia nas próprias camas. “Sou um autor completamente horizontal”, afirmou Truman Capote à Paris Review em 1957. “Não consigo pensar, a não ser deitado”.

Além de alimentar o pensamento criativo, a cama pode ser o refúgio do caos da vida doméstica. Pais se retiram aí para esconder-se dos filhos presos em casa. Outros fogem de companheiros de quarto.

“Acho que uma das coisas que estamos aprendendo é que todos nós vivemos em lugares apertados, em termos figurados e literais, principalmente se temos um companheiro de quarto ou um cônjuge; não há lugar suficiente na sua casa onde possa ter a privacidade de fazer o seu trabalho”, disse Sam Stephens, 35, cantor e compositor de Nashville, Tennessee.

Trabalhar na cama também pode ser sintomático de uma doença coletiva. “Passo mais tempo trabalhando na cama, embora tenha computador, uma cadeira de escritório e uma mesa”, disse Abelina Rios, 26, uma YouTuber de Los Angeles. “Acho que todo mundo está se sentindo deprimido por causa da pandemia, e quando estamos deprimidos uma das coisas mais difíceis de fazer é levantar da cama.”

Liz Fosslien, 33, autora de No Hard Feelings [Sem Ressentimentos, em tradução livre], um livro que fala de como as emoções afetam o trabalho, leva o computador para a cama com ela todas as manhãs, inclusive com o mouse sem fio. “Uso meu colchão como mouse pad”, afirmou. O seu conselho para as pessoas que fazem o mesmo tipo de coisa hoje em dia é: “Não se puna por causa disso. É fácil pensar: ‘Oh, estou de pijama. Não lavei o cabelo, o que é que estou fazendo’, mas, na realidade, tudo diz respeito à qualidade da sua produção”.

Um argumento fundamental contra o uso de aparelhos na cama é que reduzem ainda mais as fronteiras entre o trabalho e o lar, e interrompem o seu ciclo do sono. Mas até Arianna Huffington, a executiva de mídia que se tornou evangélica, passou a trabalhar na cama desde o início da pandemia.

“Acho que pode funcionar perfeitamente, mas é crucial estabelecer certos limites”, ela disse. Arianna sugere que mantenhamos o nosso lugar reservado para a noite desimpedido de confusão, e que é fundamental interromper claramente e de maneira definida as horas de trabalho para sair da cama e guardar os aparelhos eletrônicos em outro cômodo.

“Recomendo encarecidamente uma transição real” afirmou. “Eu tomo um banho quente para lavar as marcas do dia; mude de roupa, use uma camiseta diferente para dormir. Adoro lingerie bonita. Ela me faz pensar: ‘Agora vamos dormir’”.

Os que defendem a cultura da mesa de trabalho argumentam que não é possível que alguém seja produtivo na cama. “Não conheço ninguém que trabalhe realmente de barriga para baixo, mas conheço toneladas de pessoas que trabalham na cama (meu marido, por exemplo). Acho que são um bando de preguiçosos, fingidos”, disse a escritora Susan Orlean à revista The New Republic em 2013. “Ou talvez sejam mais felizes e mais inteligentes do que o resto da humanidade”.

Mas o que muitos trabalhadores obrigados a ficar em casa estão percebendo durante a pandemia é algo que pessoas cronicamente doentes e inválidas sabem há anos, e trabalhar na cama não significa que a pessoa seja preguiçosa ou deprimida. Na realidade, é perfeitamente possível realizar um trabalho na cama, desde que o seu empregador seja flexível a respeito do trabalho remoto.

“Temos dados que mostram que fazer os próprios horários é bom para a felicidade, desde que você seja capaz de trabalhar em qualquer lugar, e se você escolhe trabalhar na cama, este é um exemplo de adequação do tempo”, observou Ashley Whillans, professora assistente da Harvard Business School. “Escolher onde e como trabalhar pode melhorar a satisfação dos funcionários”.

Tessa Miller, 32, autora do livro What Doesn’t Kill You [O Que não Te Mata, em tradução livre], sobre suas lutas com uma doença crônica, trabalha na cama desde que os médicos diagnosticaram que ela sofria da doença de Crohn, aos 23 anos. “Acho que a pandemia está mostrando todas estas coisas que as pessoas com doenças crônicas e inválidas fazem há muito tempo e agora todo mundo está fazendo tão bem. Trabalhar na cama é uma delas”, afirmou. “Conheço muitas pessoas extremamente produtivas, inteligentes, talentosas que precisam trabalhar na cama por necessidade”.

Os que têm uma doença crônica ou deficiências dizem que esperam que, assim como a pandemia tornou as empresas mais abertas ao trabalho remoto, o estigma do trabalho na cama também desapareça. “Espero que uma das coisas que resultem de tudo isto seja revelar que você pode fazer um trabalho bom na sua cama, ou na banheira, o no sofá da sala de estar com um almofada térmica, e espero que crie oportunidades para as pessoas que têm uma doença crônica ou são inválidas em campos em que talvez antes não se sentissem bem-vindas”, disse Tessa. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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