Fotografias de David Maurice Smith para The New York Times
Fotografias de David Maurice Smith para The New York Times

Tradição e excelência fomentam o rúgbi na Nova Zelândia

Estudantes de ascendência maori são preparados desde muito cedo para fazer parte da elite do esporte no país

David Maurice Smith, The New York Times

30 Setembro 2018 | 11h00

No esporte, poucas equipes exerceram um domínio tão completo quanto a seleção de rúgbi da Nova Zelândia, conhecida como All Blacks. Desde o início de um ranking mundial do rúgbi, em 2003, a Nova Zelândia ocupou a primeira posição por mais tempo que todos os demais países somados.

Este domínio não dá sinais de enfraquecer, embora a Nova Zelândia tenha uma população inferior a 5 milhões de habitantes, uma fração do tamanho de alguns dos rivais no esporte. Para compreender como a Nova Zelândia se mantém tão à frente, é necessário analisar as origens comunitárias do jogo, com gerações de garotos sonhando em vestir a camisa preta.

Gisborne, na costa leste da Ilha Norte da Nova Zelândia, é palco de sonhos como esse. A cidade abriga a Escola para Rapazes Gisborne High, instituição pública do ensino médio e dona de um belo currículo no rúgbi. Os Gisborne Boys venceram quatro vezes o Campeonato Nacional First XV, principal torneio do ensino médio do país, produzindo vários atletas da seleção All Blacks.

A maioria dos estudantes da escola é de ascendência maori. Para seus administradores, fomentar o elo com a identidade cultural é fundamental para o desenvolvimento de rapazes fortes e jogadores de rúgbi habilidosos.

“A maioria das equipes esportivas luta para criar uma cultura coletiva, enquanto a nossa equipe é moldada em torno de uma cultura viva já existente", disse Ryan Tapsell, diretor de estudos maori da Gisborne Boys’ e técnico da defesa da equipe sênior First XV. “Nossos jogadores pensam nos ancestrais que os antecederam, aqueles que criaram os alicerces do nosso trabalho.”

A equipe segue diretrizes, conhecidas como kawa, que são adaptadas a partir de regras tradicionais da cultura maori: se quebradas, elas têm um impacto negativo na base da equipe.

O rúgbi é uma matéria do currículo escolar. Os alunos assistem vídeos de partidas, analisam diferentes estratégias e jogadas, aprendem os princípios do condicionamento físico e treinamento, levantam pesos e praticam ioga. A sala 11 foi dedicada ao ex-ala da Nova Zelândia, Jonah Lomu, que usava o número 11 e é idolatrado como um dos melhores jogadores dos All Blacks.

Mark Jefferson, técnico principal dos First XV, afirma sem rodeios que “a equipe First XV é o coração da nossa escola".

Jefferson é ex-aluno da Gisborne Boys. Foi capitão da equipe de 1994, ainda considerada a melhor equipe juvenil da história da Nova Zelândia. O time venceu todos os campeonatos nacionais e internacionais dos quais participou.

Há vários jogadores da formação atual do Gisborne First XV que estão no radar dos olheiros da seleção juvenil. Os escolhidos são levados a um campo de treinamento regional administrado por uma das cinco franquias da Super Rugby, grupo da liga profissional de rúgbi do país, que também mantém times na Argentina, Austrália, Japão e África do Sul.

Trata-se de um sistema perfeito de observação de talentos para treiná-los com um único objetivo: formar futuros integrantes dos All Blacks para representar a Nova Zelândia.

“O sistema inteiro na Nova Zelândia, das categorias profissionais passando até pelas amadoras, é estruturado de modo a formar atletas para os All Blacks", disse Tom Cairns, diretor de rúgbi da escola.

Esse sistema opera com uma restrição incomum. Para ser um All Black, um jogador precisa ser contratado por um time da Nova Zelândia, ainda que os jogadores possam receber ofertas mais lucrativas para defender equipes de campeonatos de outros países, como França e Inglaterra. Os melhores jogadores são obrigados a fazer sacrifícios financeiros na esperança de vestirem a camisa dos All Blacks.

Com a próxima copa do mundo marcada para 2019, o domínio da Nova Zelândia deve continuar. 

“Na Nova Zelândia, estamos na vanguarda", disse Cairns. “Quando tomamos decisões em relação ao rúgbi, o restante do mundo nos segue.”

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