Finbarr O'Reilly/The New York Times
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Raphael Minder, The New York Times – Life/Style

20 de maio de 2021 | 05h00

LA GOMERA, Espanha – Sentado no alto de um penhasco, nas Ilhas Canárias, Antonio Márquez Navarro fez um convite: “Venha para cá, vamos matar o porco” – sem falar uma palavra. Ele apenas o assobiou. Na distância, três turistas que faziam uma caminhada pararam de chofre ao som penetrante e ao seu eco que reverberava pelas paredes da ravina que os separava.

Antonio, 71, contou que na sua juventude, quando eram os pastores locais e não os turistas que trilhavam as veredas íngremes e ásperas da sua ilha, as informações eram recebidas muito longe dali e respondidas por um assobio alto e claro. Mas a sua mensagem não foi entendida por estes caminhantes. E logo eles retomaram o caminho rumo a La Gomera, uma das Ilhas Canárias, um arquipélago vulcânico no Atlântico que pertence à Espanha.

Márquez é um zeloso guardião da linguagem assobiada de La Gomera, que ele chama de “a poesia da minha ilha”. E, acrescenta, “como poesia, o assobio não precisa ser útil para ser especial e belo”.

O assobio da população nativa de La Gomera é mencionado nos relatos dos exploradores do século 15 que prepararam o caminho para a conquista espanhola da ilha. Ao longo dos séculos, a prática foi adaptada para a comunicação com o espanhol castelhano.

A linguagem, oficialmente conhecida como Silbo Gomero substitui os sons assobiados que variam de tom e comprimento substituindo as cartas escritas no alfabeto espanhol, por isso um som pode ter múltiplos significados, causando equívocos.

Os sons produzidos para algumas palavras espanholas são os mesmos - como “si” ou “ti” – como os de palavras mais longas que soam de maneira semelhante no espanhol falado, como “gallina” ou “ballena” (galinha ou baleia).

“Como parte de uma sentença, esta referência animal é clara, mas não quando assobiada isoladamente,” disse Estefania Mendoza, professora da linguagem.

Em 2009, a linguagem da ilha, conhecida oficialmente como Silbo Gomero, foi acrescentada pela UNESCO ao Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade; a ONU a descreve como “a única linguagem assobiada do mundo, plenamente desenvolvida e praticada por uma grande comunidade” em referência aos 22 mil habitantes de La Gomera.

Mas como o assobio deixou de ser essencial, a sobrevivência do Silbo depende principalmente de uma lei de 1999, que o tornou uma parte obrigatória do currículo escolar de La Gomera.

Recentemente, em uma escola da cidade portuária de Santiago, uma sala de aula com crianças de seis anos, não teve muita dificuldade para identificar os sons assobiados correspondentes às diferentes cores, ou aos dias da semana.

As coisas se complicaram quando as palavras foram incorporadas em sentenças completas como: “Qual é o nome da criança de sapatos azuis?” Algumas crianças afirmaram que tinham ouvido o som assobiado de “amarelo”.

Se interpretar um assobio nem sempre é fácil, produzir os sons corretos pode ser ainda mais difícil. A maioria das pessoas que assobiam insere um dedo dobrado na boca, mas algumas usam a ponta de um ou mais dedos, enquanto umas poucas usam um dedo de cada mão.

“A única regra é encontrar o dedo que torna mais fácil assobiar, e às vezes, infelizmente nada funciona”, disse Francisco Correa, coordenador  do programa de assobios da escola de La Gomera. “Há inclusive algumas pessoas mais velhas que compreendem  perfeitamente o Silbo desde a infância, mas nunca conseguiram produzir um som claro com a sua boca.

Dois assobiadores devem esforçar-se para se entenderem, particularmente durante os seus primeiros contatos -  como estrangeiros que falam a mesma língua com diferentes sotaques. Mas “depois de assobiar juntos por algum tempo, a sua comunicação se torna tão fácil quanto se falassem espanhol”, disse Correa.

Com uma geografia distinta, é fácil perceber por que o assobio passou a ser usado nas Canárias; na maioria das ilhas, profundas ravinas correm de enormes picos e platôs até o oceano, e é necessário muito tempo e esforço para percorrer mesmo uma breve distância por terra. O assobio foi desenvolvido como uma boa maneira alternativa de transmitir uma mensagem com o seu som que viaja muito mais longe do que o grito – até uns três quilômetros através de alguns cânions e em condições favoráveis do vento.

Moradores mais antigos de La Gomera lembram que o Silbo era usado como uma linguagem de aviso, particularmente quando era avistada uma patrulha da polícia em busca de contrabando. Em um recente filme de ficção, A Ilha dos Silvos, o Silbo é usado por gangsteres como sua linguagem em código secreta.

Algumas outras ilhas do arquipélago têm suas próprias linguagens de assobio, mas o seu uso está desaparecendo. No entanto, El Hierro começou recentemente a ensinar a própria versão. “O Silbo não foi inventado em La Gomera, mas é nesta ilha que foi melhor preservado”, explicou David Díaz Reyes, um etnomusicólogo.

Hoje em dia, La Gomera depende consideravelmente do turismo, o que criou uma oportunidade para alguns jovens assobiadores, como Lucia Darias Herrera, 16 anos, que tem um show semanal de assobio em um hotel da ilha. Ela também sabe adaptar o seu silbo a outras linguagens faladas pelo público, em uma ilha particularmente popular entre os alemães.

Entretanto, o coronavírus não só cancelou os shows, como também obrigou as escolas a limitarem o ensino do assobio. Em uma época de uso compulsório da máscara, um professor não pode ajudar uma estudante a reposicionar um dedo no interior da boca para assobiar melhor.

No entanto, alguns adolescentes gostam de se saudarem por meio dos assobios quando se encontram na cidade e aproveitam a chance de conversar sem muitos adultos por perto entendendo. Alguns deles têm pais que foram para a escola antes que o ensino do Silbo se tornasse obrigatório, ou que se estabeleceram na ilha já na idade adulta.

Por mais apegada que ela esteja ao seu celular, Erin Gerhards, 15, parecia ansiosa por melhorar o seu assobio e contribuir para salvaguardar as tradições de sua ilha.

“É uma maneira de homenagear as pessoas que viveram aqui no passado”, ela disse. “E para lembrar onde foi que tudo surgiu, e que nós  não começamos com a tecnologia, mas simplesmente dos primórdios”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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