Nacho Hernandez/The New York Times
Nacho Hernandez/The New York Times

Gols no céu: velha tradição mantém os torcedores da Real Sociedad vivos

Em uma era de estádios fechados, um torcedor da Real Sociedad anuncia o placar com fogos de artifício, preservando uma tradição que une o time de futebol à sua cidade

Rory Smith, The New York Times - Life/Style

03 de abril de 2021 | 05h00

Assim que a bola cruza a linha, Juan Iturralde se levanta. Ele volta para seu camarote e corre em direção à porta. Então, faz uma rápida parada para pegar dois rojões de vara em uma sacola de plástico colocada com cuidado, deliberadamente, em seu caminho. Estar bem posicionado é estratégico: basicamente, a função de Iturralde é dar notícias, e cada segundo conta.

Ele desce dois lances de escada – tão rápido quanto seus joelhos permitem –, segurando os fogos de artifício pela vara. Sai pelo portão 18 da Reale Arena, casa do time espanhol Real Sociedad, e vai correndo para a rua. Verifica se a barra está limpa, encaixa o primeiro dos dois rojões no lançador e publica sua manchete no céu noturno de San Sebastián.

Suas notícias, desta vez, são boas. Enquanto o primeiro foguete zumbe sobre sua cabeça, Iturralde dispara outro – mais uma chuva de faíscas caindo a seus pés, outra nuvem de fumaça se contorcendo ao redor de seu braço. Todos na cidade sabem decifrar o código. Uma explosão significa que o Real Sociedad sofreu um gol. Duas significam que o time da casa marcou.

Há mais de meio século, as coisas são assim em San Sebastián. A não ser por uma pequena lacuna na década de 1990 e no início dos anos 2000, os fogos de artifício acompanham todos os jogos na casa do Real Sociedad desde 1960, tendo entrado definitivamente para o tecido sonoro da cidade, fazendo parte da trilha sonora de milhares de fins de semana, interrompendo inúmeras conversas, trazendo notícias alegres e sombrias para sucessivas gerações de torcedores.

"É uma grande responsabilidade", disse Iturralde, que é o fogueteiro oficial desde 2006. Ele leva sua função muito a sério. Já faz um ano que os torcedores não podem entrar na Reale Arena; as arquibancadas estão silenciosas na era da pandemia do coronavírus. Mas ele está presente em todos os jogos em casa, armado com a fuzilaria fornecida pelo clube e pronto para sair correndo e espalhar a notícia pela cidade assim que um gol for marcado.

Ele mantém um ouvido atento à transmissão do jogo pelo rádio, para o caso de um gol ser anulado por qualquer motivo enquanto está correndo para fora. (A introdução do árbitro assistente de vídeo, ou VAR, nas partidas da liga espanhola complicou muito a vida dele, e quase causou ao menos um acidente.) Iturralde sabe que ser o primeiro é importante. Estar certo, no entanto, também é.

Nas raras ocasiões em que não pode comparecer, confia o cargo ao substituto: seu irmão, Fernando. "É um verdadeiro privilégio. Eu me lembro de ouvir os rojões quando era criança. Dá para ouvi-los por toda a cidade. É algo que significa muito para os torcedores, uma doce tradição. Estou muito orgulhoso de fazer isso", afirmou Juan Iturralde.

Iturralde, porém, não é o primeiro fogueteiro. Na verdade, ele faz parte de uma tradição e de um sistema idealizado por seu antecessor, Patxi Alkorta. "Ele era um excêntrico. Não sei de onde tirou a ideia dos fogos de artifício. Ele sempre disse que lhe vinha à cabeça em uma alucinação – ele lutou contra o alcoolismo por muito tempo –, de modo que talvez tenha sido assim com os rojões", contou Ander Izagirre, jornalista, escritor e sobrinho-neto de Alkorta. Seja qual for a fonte de sua inspiração, em 1960 Alkorta lançou os primeiros rojões em frente ao Atotxa, o antigo estádio do Real Sociedad (que já foi demolido).

"Segundo contam, essa foi uma maneira de permitir que os pescadores que trabalhavam no Golfo da Biscaia soubessem como o time estava. Mas sempre pensei que isso fosse só uma desculpa. A ideia era permitir que todos na cidade que gostavam de futebol – e mesmo os que não gostavam – soubessem como o time estava se saindo", disse Izagirre.

Quando a Real Sociedad se mudou para sua nova casa em Anoeta, em 1993, os fogos de artifício ficaram para trás – em teoria porque a Reale Arena, como o estádio agora é conhecido, ficava mais longe do mar –, mas a tradição voltou em 2005, a pedido de Iñigo Olaizola, conselheiro e primo de Alkorta.

Quem conseguiu o emprego foi Iturralde, de 56 anos, que é engenheiro de elevadores e torcedor de longa data do Real Sociedad e dos fogos de artifício. "O locutor do clube é de Hernani, minha cidade. Ele me ligou e perguntou se eu gostaria de fazer isso."

A essa altura, é claro, os rojões já não eram uma fonte de notícias tão importante: com rádio, TV e internet, as pessoas em San Sebastián não precisavam mais olhar o céu para saber se o time havia marcado ou sofrido um gol. Izagirre achava bom ouvir os rojões, quando não conseguia assistir a um jogo, embora talvez fossem um pouco duvidosos. "Se você estiver na cozinha e ouvir um estrondo, nunca vai saber ao certo se ouviu o segundo", observou ele.

Contudo, a tradição não perdurou apenas por ser algo exclusivo de San Sebastián – "os torcedores veem isso como algo que nos pertence", disse Iñaki Mendoza, historiador do clube da Real Sociedad –, mas por causa da genialidade simples da ideia de Alkorta: aquele momento perfeito de suspense entre os estrondos, o silêncio cheio de esperança e pavor. "Quando as pessoas estão andando pela cidade em dia de jogo e ouvem o primeiro foguete, esperam em suspense pelo segundo. E, quando ouvem, voltam a caminhar com um sorriso, porque a Real marcou", comentou Mendoza. Izagirre descreveu isso como "um lindo momento, em que todos estão esperando".

Porém, no ano passado, os fogos de artifício passaram a simbolizar outra coisa. Iturralde teve de mudar sua maneira de trabalhar por causa da pandemia. Não pode mais acompanhar os jogos à beira do campo do Anoeta, como a Reale Arena é conhecida na cidade, nem sair em disparada por um túnel para chegar rapidamente à rua; em vez disso, agora ele fica em um camarote executivo no canto do estádio e precisa descer as escadas para sair de lá.

Mas seu papel se tornou ainda mais importante. Quando as partidas de futebol foram retomadas depois de uma pausa causada pelo coronavírus, 11 outras cidades do País Basco no entorno de San Sebastián também começaram a soltar fogos de artifício cada vez que seu time marcava em casa. As circunstâncias – os torcedores continuam proibidos de entrar na maioria dos estádios – mudaram o significado da tradição. "Em tempos de pandemia, é uma forma de se sentir mais próximo da equipe", resumiu Mendoza.

A Reale Arena, como quase todos os outros estádios da Europa, está vazia desde março do ano passado. Os torcedores que estariam lá para comemorar cada gol com alegria ou suportá-lo com resignação, cujo rugido Iturralde ouviria enquanto corria para a saída, agora se veem presos em um exílio forçado e infeliz. Ainda não se sabe ao certo quando eles poderão voltar.

Nessas circunstâncias, no silêncio do estádio e da cidade, Iturralde e seus fogos de artifício demonstram o verdadeiro poder da tradição. "É estranho. Você pode ir a pé até o estádio, mas é um mundo ao qual não temos acesso. Existe uma barreira entre aqui e ali, mas os rojões ultrapassam essa barreira. São uma forma de trazer a Real para casa", disse Izagirre.

Iturralde não espera para ver os rojões explodir. Assim que o segundo zumbe pelo céu, encerrando aqueles segundos torturantes de suspense, Iturralde corre para o estádio e sobe as escadas, de volta à sua posição.

Seus fogos de artifício unem, há muito tempo, os torcedores, a cidade e o time. Mas a pandemia os transformou em algo mais do que uma tradição, dando a eles um significado novo e vital. "Os rojões são uma mensagem de outro universo", concluiu Izagirre.

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