Christian Rizzi/Agence France-Presse- Getty Images
Christian Rizzi/Agence France-Presse- Getty Images

Tráfico de drogas brasileiro se espalha para o Paraguai  

Tirando vantagem de uma fronteira porosa e de um sistema frágil

Ernesto Londoño, The New York Times

19 Dezembro 2018 | 06h00

ASSUNÇÃO, PARAGUAI - Nem mesmo o chefe do departamento antidrogas do Paraguai acreditava no que estava acontecendo. Em outubro, autoridades do país disseram ter frustrado um plano que usaria um carro com 85 quilos de explosivos para libertar um traficante preso. Dias depois, em um vídeo, homens armados ameaçaram matar o procurador-geral do país. Em seguida, vieram duas mortes arrepiantes: um advogado que representava chefes do tráfico de drogas foi assassinado e uma jovem foi esfaqueada até a morte enquanto visitava um traficante de drogas na prisão.

“Esses incidentes parecem cenas que você só vê nos filmes”, disse Arnaldo Guizzio, chefe da agência antinarcóticos do Paraguai. Esses crimes têm uma coisa em comum: o caos brasileiro. Depois de gerar um nível recorde de violência no Brasil, a guerra às drogas está se espalhando para o Paraguai.

Tantas armas americanas estavam sendo enviadas para o Paraguai que as autoridades dos Estados Unidos tomaram a rara decisão de suspender as exportações de armas comerciais para o país este ano. Os fornecedores de armas norte-americanos enviaram cerca de 35 milhões de armas e munições para o Paraguai em 2017 - mais de três vezes a quantidade enviada no ano anterior, de acordo com dados do governo dos Estados Unidos. Muitas dessas armas foram então canalizadas para regiões do Brasil sob o controle de traficantes de drogas.

O Paraguai compartilha com o Brasil uma fronteira de 1.365 quilômetros escassamente policiados e há muito tempo é um centro de contrabando e lavagem de dinheiro. O país é um grande produtor de maconha, tem um forte mercado de armas e serve de rota para a cocaína embarcada na Bolívia. Mas, agora, as facções brasileiras estão explorando as permissivas leis de armas paraguaias, a corrupção policial e o sistema de justiça frágil para estabelecer uma base mais permanente. Essas organizações criminosas “não tratam mais o Paraguai como um país estrangeiro, mas sim como parte do seu domínio criminoso”, disse Guizzio.

O ministro do Interior do Paraguai, Juan Ernesto Villamayor, que supervisiona as forças policiais do país, disse que o presidente Mario Abdo Benítez, cujo mandato começou em agosto, assumiu um governo inundado de corrupção. Ele disse: “Colocar o sistema em ordem implica eliminar o esquema de vários atores poderosos”. Nada foi mais revelador dos desafios de segurança do Paraguai do que os eventos desencadeados pela detenção de Marcelo Pinheiro Veiga, traficante brasileiro.

Veiga, conhecido como Marcelo Piloto, era fugitivo da justiça brasileira desde 2007, quando fugiu da prisão depois de cumprir 10 anos de uma sentença de 26. Ele se tornou o principal alvo dos policiais brasileiros e americanos quando fugiu para o Paraguai em 2012 e expandiu o contrabando de armas e drogas para as cidades brasileiras controladas pela fação Comando Vermelho.

Nas últimas semanas de 2017, agentes da Agência Antidrogas dos Estados Unidos descobriram que Veiga estava operando em uma casa em Encarnación, pequena cidade no sul do Paraguai. Eles passaram as coordenadas da casa para a polícia paraguaia. Em 13 de dezembro do ano passado, agentes antinarcóticos paraguaios invadiram a casa de Veiga e o prenderam sem maiores incidentes.

As autoridades brasileiras e americanas logo ficaram impacientes com o pedido de extradição de Veiga. No início do mês passado, Veiga deu uma entrevista coletiva. Negou qualquer participação no plano de atacar o complexo onde ele estava preso. Em seguida, listou os crimes que disse ter cometido no Paraguai, uma confissão que parecia ter o objetivo de evitar a extradição para o Brasil. Ele acusou um alto comandante da polícia de constar de sua folha de pagamento, admitiu que traficava armas e que matara pessoas no Paraguai.

Em outra entrevista, dias depois, Veiga disse que o Paraguai queria a extradição porque processá-lo no país exporia a rede de conluio entre políticos, forças de segurança e traficantes de drogas. Disse também que estava resignado a passar muito tempo atrás das grades, mas que suas condições de detenção no Paraguai seriam superiores às que ele enfrentaria no Brasil.

Após a entrevista, Lidia Meza Burgos, 18 anos, entrou como visitante e foi levada para a cela de Veiga. Autoridades paraguaias disseram que ela era prostituta. Uma vez dentro da cela, disseram as autoridades, Veiga a esfaqueou 16 vezes, em uma tentativa de forçar o governo paraguaio a processá-lo por assassinato e adiar a extradição.

O governo fez o oposto: dois dias depois, Veiga foi levado ao Brasil para cumprir o restante de sua sentença de 26 anos e, provavelmente, enfrentar uma longa lista de novas acusações. Ao explicar a decisão, o presidente Abdo Benítez disse: “Ninguém vai usar nosso país como terra da impunidade”.

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