Minzayar Oo / The New York Times
Minzayar Oo / The New York Times

‘Fui vendida’: mulheres são traficadas na China

Chineses recorreram por mais de 30 anos a abortos e outros métodos para garantir que seu único filho fosse menino. Com a desproporção de gênero, importam mulheres de países vizinhos

Hannah Beech, The New York Times

24 de agosto de 2019 | 06h00

MONGYAI, MYANMAR - Ela não sabia onde estava. Não falava o idioma local. Tinha apenas 16 anos. O homem disse que era seu marido. A garota Nyo, de um vilarejo nas montanhas Shan, em Myanmar, não sabia ao certo como a gravidez funcionava. Mas as coisas foram acontecendo. A bebê é, sem dúvida, chinesa. “Como o pai", acrescentou Nyo. “Os mesmos lábios”, relacionou a mãe com tom de raiva. 

Motivados pelo gênero, famílias chinesas recorreram por mais de 30 anos a abortos e outros métodos para garantir que seu único filho fosse menino. Mas, agora, esses meninos são homens, e há mais chineses do que chinesas. Para sanar o problema, homens começaram a importar mulheres, contra sua vontade, de países vizinhos. “O tráfico de noivas é comum aqui em Shan", disse Zaw Min Tun, da força-tarefa de combate ao tráfico de seres humanos no norte do estado.

Nyo e sua colega de turma, Phyu, foram atraídas por uma vizinha, Daw San Kyi, que prometeu a elas empregos de garçonete na fronteira com a China, graças às relações com um aldeão mais rico. “Confiamos neles", lembrou Phyu, agora com 17 anos. Em uma madrugada de julho de 2018, uma van veio buscar as meninas. A estrada montanhosa deixou Phyu enjoada. Daw ofereceu a ela comprimidos para o mal estar.

A partir de então, as lembranças de Phyu são confusas. Ela afirma que alguém injetou algo em seu braço. Nyo, também com 17 anos agora, recusou os comprimidos. Suas lembranças são mais claras, mas não menos confusas. Foram feitas paradas em pousadas ao longo da fronteira, e falou-se em uma pesada chuva que tinha fechado o restaurante onde as duas deveriam trabalhar. Foram transportadas de barco e novamente de carro.

Depois de mais de 10 dias em trânsito, a ideia de trabalhar em um restaurante parecia distante, disse Nyo. Ela e Phyu tentaram fugir duas vezes, mas não sabiam para onde ir. Homens que falavam chinês vieram vê-las. Alguns apontavam para uma, e outros, para a outra. “Tive a impressão de ser vendida, mas não consegui fugir", lamentou.  Um dos traficantes disse a Phyu que ela tinha sorte: poderia escolher entre os homens. Ela chorou, mas o traficante mandou que parasse, pois tinha de ficar bonita para o futuro marido. “Eu disse que não queria me casar", disse Phyu. “Queria voltar para casa". 

As jovens foram separadas e cada uma se uniu a um suposto marido. Phyu pensou estar em Pequim. O homem que a tinha comprado era Yuan Feng, de 21 anos. Ele a trancou em uma sala com uma televisão. À noite, injetava algo no braço dela e a obrigava a fazer sexo. Phyu descobriu a senha do celular do marido e, à noite, quando ele estava bêbado, ela telefonou para a mãe usando um aplicativo de rede social. “Ela me contou, ‘mãe, fui vendida’”, relembrou a mãe da menina, Daw Aye Oo. 

Nyo não sabia exatamente para onde tinha sido levada dentro da China, mas estava determinada a descobrir. No início, o marido dela, Gao Ji, também a trancou em uma sala sem acesso à internet. Nyo disse que ele a espancava. Mas, com o passar dos dias, ele começou a confiar na jovem, concedendo o acesso às redes sociais, incluindo o WeChat, a rede social chinesa. Com o celular, Nyo filmou secretamente o que pôde para tentar determinar sua localização. Marcou cada vídeo e foto com dados de localização.

Descobriu que estava em Xiangcheng, na província de Henan, uma das mais populosas da China, com cerca de 100 milhões de habitantes, o dobro da população de Myanmar. No levantamento censitário nacional de 2005, Henan apresentava um dos maiores desequilíbrios de gênero da China. No fim, Phyu descobriu que também estava em Xiangcheng. 

Por meio de uma mulher que ajudou a resgatar meninas vendidas como escravas sexuais na China, um policial em Shan começou a se corresponder com Nyo na conta de Gao no WeChat, fingindo ser seu irmão. Dois meses após a chegada das jovens a Xiangcheng, a polícia chinesa bateu à porta de seus maridos. Yuan e Gao foram detidos por pelo menos 30 dias, de acordo com a lei, disse Niu Tianhui, porta-voz do departamento de polícia de Xiangcheng. Tianhui não soube dizer se os dois passaram mais tempo detidos. “As famílias dos maridos estão furiosas com o caso porque gastaram muito dinheiro e perderam as mulheres", comentou o agente.

Semanas se passariam antes do retorno das jovens a Mongyai. “Quando vi placas em birmanês, fiquei tão feliz", comemorou Phyu a respeito do momento em que voltaram a Myanmar. Com o avanço de sua gestação, Nyo decidiu que a criança seria oferecida para adoção. Então, a bebê nasceu. “Eu queria me livrar dela, mas bastou olhar para ela e fiquei apaixonada. Mesmo tendo os lábios daquele animal chinês". / SAW NANG E LUZ DING CONTRIBUÍRAM COM A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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