Transtornos alimentares entre adolescentes 'explodiram' durante a pandemia
Lisa Damour, The New York Times - Life/Style

10 de maio de 2021 | 05h00

Como psicóloga, estou bem ciente da prevalência de transtornos alimentares entre adolescentes. Ainda mais, estou espantada como piorou a situação na pandemia.

De acordo com a psicóloga Erin Accurso, diretora clínica do programa sobre transtornos alimentares na universidade da Califórnia, em São Francisco, “nossa unidade que mantém pacientes internados viu o número explodir no ano passado”, com duas vezes mais internações de adolescentes do que antes da pandemia. A médica explicou que os serviços ambulatoriais também estão sobrecarregados.

“Os provedores não estão recebendo mais pacientes ou têm uma lista de espera de seis meses. A demanda por tratamento para esses casos está superando nossa capacidade de atendimento”, disse a epidemiologista S. Bryn Austin, professora na T.H. Chan School of Public Health e pesquisadora na Divisão Médica para Adolescentes e Jovens Adultos do Boston Children’s Hospital. “Venho ouvindo isto de colegas de todo o país”. Mesmo as linhas diretas de emergência registraram um salto de 40% no volume de chamadas desde março de 2020. Entre os que telefonaram e deram sua idade, 35% tinham entre 13 e 17 anos de idade, um aumento em relação aos 30% no ano anterior à pandemia.

O que mudou na pandemia?

Há várias explicações possíveis para isso. Quando os adolescentes perdem o ritmo familiar de frequentar a escola e se distanciam do apoio dos amigos, “muitas das coisas que estruturam a vida deles evaporaram numa tacada”, disse Walter Kaye, psiquiatra, fundador e diretor executivo do programa dedicado a transtornos alimentares na Universidade da Califórnia em San Diego. “As pessoas que acabam sofrendo com um transtorno alimentar tendem a ser ansiosas e estressadas – não lidam bem com a incerteza”, afirmou ele.

Além disso, esses transtornos alimentares estão há muito tempo associados à busca do alto desempenho. Adolescentes determinados que normalmente colocam toda a energia nas suas atividades acadêmicas, atléticas ou extracurriculares de repente deparam com muito tempo ocioso. “Alguns desviam sua atenção para a saúde e aparência física como uma maneira de lidar com a ansiedade e se sentirem produtivos”, disse Accurso. “Sua meta de comer ‘saudável’ ou ficar em forma sai do controle e rapidamente isso causa uma importante perda de peso.

Para alguns, que começaram a comer para controlar suas emoções na pandemia, esta é uma parte do problema. As aulas em casa, onde a comida está sempre disponível, pode levar alguns adolescentes a comerem mais do que o habitual para controlarem o tédio e o estresse relacionado à pandemia. “Estar na escola é uma barreira que impede usar a comida como mecanismo para enfrentar alguma coisa; em casa essa barreira não existe”, observou Kelly Bhatnagar, psicóloga e cofundadora do Centro de Bem-Estar Emocional, em Beachwood, Ohio, clínica especializada no tratamento de transtornos alimentares.

Em muitos lares, a pandemia tem intensificado a insegurança alimentar e as inquietações esperadas, o que aumenta o risco dos transtornos alimentares. Pesquisas mostram que, comparados com os adolescentes cujas famílias têm alimento suficiente, aqueles de famílias onde a comida é escassa são mais propensos a jejuar, pular refeições e abusar de laxativos e diuréticos com o objetivo de controlar seu peso.

A influência do Instagram

O que os adolescentes veem nas suas telas também é um fator. Durante a pandemia, eles passam mais tempo do que o habitual nas redes sociais. Embora seja uma fonte da tão necessária conexão e de conforto, ver imagens de colegas e influencers se exibindo na redes leva a uma insatisfação com o corpo e a uma desordem alimentar. Austin observou que os adolescentes tendem a comparar seus próprios corpos com os das fotos que vêem on-line. “Essa comparação cria uma espiral descendente em termos de imagem do corpo e autoestima. E os torna mais propensos a adotar comportamentos para controlar o peso que não são saudáveis”.

Quando os adolescentes começam a se interessar em controlar seu peso eles buscam orientação on-line. E de fato, segundo uma pesquisa feita pela Common Sense Media, entre as buscas de informação por adolescentes entre setembro e novembro de 2020, as centradas em fitness e exercícios ficaram em segundo lugar, perdendo apenas para a procura de conteúdo relacionado à covid-19, e na frente de buscas sobre ansiedade, estresse e depressão.

O que os jovens encontram quando procuram informações sobre fitness é muito problemático. Eles costumam encontrar postagens celebrando corpos esbeltos e esculpidos ou sites que estimulam uma alimentação desordenada. E pior, os algoritmos registram informação das buscas on-line e são “deliberadamente projetados para alimentar conteúdo prejudicial sobre perda de peso para os usuários que têm problemas com a imagem do corpo”, como anúncios de suplementos dietéticos perigosos, disse Austin.

Quando se preocupar

Com tantas forças contribuindo para a insatisfação do adolescente com o seu corpo e para desenvolverem um transtorno alimentar, como os pais sabem quando se preocupar?

Segundo Kaye, os pais devem se preocupar “quando o seu filho de repente perde quatro a nove quilos, se torna reservado quanto a comer, ou se estão vendo a comida desaparecer”, porque se tornar furtivo sobre o que, como e quando comer são ocorrências comuns nos casos de anorexia, bulimia e outros transtornos alimentares.

Os especialistas concordam que os adultos devem ficar atentos a comportamentos que fogem das normas habituais, como a rejeição repentina das refeições familiares, ou a recusa a comer alimentos de categorias inteiras, como carboidratos ou alimentos processados. Outra preocupação também é com o adolescente que desenvolve fixações como a contagem de calorias, prática obsessiva de exercícios ou ocultação de comida, que pode ser um sinal de transtorno alimentar compulsivo. Os pais têm de prestar atenção também se o adolescente expressa muita culpa ou ansiedade no tocante à comida ou à alimentação, ou se sente infeliz ou desconfortáveis com seu corpo.

Para Bhatnagar, a ideia de que transtorno alimentar é “doença das meninas brancas” às vezes impede adolescentes não brancas de procurarem ajuda ou serem examinadas adequadamente por profissionais de saúde, apesar desses transtornos ocorrerem no caso de ambos os sexos e todos os grupos étnicos.

Austin também notou ser comum observar taxas elevadas de transtornos alimentares entre jovens lésbicas, gays e bissexuais, bem como transgêneros. “Os transtornos alimentares não discriminam”, disse Accurso.

Como ajudar

Pesquisas mostram que a identificação e intervenção precoces têm um papel chave no tratamento bem-sucedido desses transtornos alimentares. Assim, os pais que têm dúvidas sobre a relação dos seus filhos com a comida, peso, ou exercícios, não devem hesitar em buscar uma avaliação do pediatra ou médico de família. Informações confiáveis sobre o assunto, ferramentas e apoio também podem ser encontradas on-line. E quando necessários, recursos on-line oferecem orientação e suporte para aqueles que estão em listas de espera para tratamento. “Pode não ser o ideal para muitos, mas essa é a situação que estamos vivendo”, afirmou Kaye.

Os pais também podem adotar medidas para reduzir a probabilidade de seu filho sofrer de um transtorno alimentar. Especialistas encorajam os adultos a criar um modelo de alimentação equilibrado e criar oportunidades agradáveis para eles ficarem fisicamente ativos e ao mesmo tempo se afastarem de comentários negativos sobre o corpo do adolescente ou o seu próprio.

Os pais devem discutir abertamente os perigos da cultura generalizada de dietas que enfatiza a aparência mais do que o bem-estar, cria estigma e vergonha em torno do peso e liga o tamanho do corpo a caráter e valor. Como disse Accurso, “não somos definidos por um número numa balança”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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