Com transtornos alimentares, a aparência pode enganar

Com transtornos alimentares, a aparência pode enganar

Comportamentos alimentares distorcidos ocorrem em jovens, independentemente de seu peso, sexo, raça, etnia ou orientação sexual

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style

21 de setembro de 2020 | 05h00

Como sabemos, as aparências podem enganar. Em um exemplo bastante comum, adolescentes e jovens adultos com hábitos alimentares desregulados ou até distúrbios passam despercebidos pelos pais e até pelos médicos porque sua aparência não condiz com o que se espera de alguém com problemas alimentares.

Um exemplo disso é a ideia segundo a qual pessoas com anorexia são necessariamente magras, com aparência de subnutrição, quando na verdade podem ter peso normal ou até sobrepeso, de acordo com pesquisas recentes da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Os pesquisadores, comandados por Jason M. Nagata, especialista em medicina da adolescência do Hospital Pediátrico Benioff, ligado à universidade, identificaram em um levantamento nacional que distúrbios alimentares distorcidos ocorrem entre os jovens independentemente do seu peso, gênero, raça, etnia ou orientação sexual.

E não se trata apenas de perder peso. O levantamento revelou que, dos jovens adultos de idade entre 18 e 24 anos, 22% dos rapazes e 5% das garotas estavam lutando para ganhar peso ou ganhar músculos com base em hábitos alimentares aparentemente saudáveis, mas considerados arriscados pelos pesquisadores. Essas práticas incluem o consumo excessivo de proteínas e a eliminação de gorduras e carboidratos.

O uso de suplementos dietéticos pouco testados e esteroides anabolizantes também se revelou comum entre os pesquisados. É provável que a pandemia da covid-19 tenha exacerbado o problema para muitos adolescentes cuja rotina diária foi perturbada, vendo-se presos em casa com cozinhas e despensas cheias, disse Nagata em entrevista. “Temos mais pacientes e encaminhamentos por causa de distúrbios alimentares e suas complicações", disse ele.

Sem o devido diagnóstico e intervenção, os jovens com distorções no comportamento alimentar podem prejudicar seu crescimento e saúde no longo prazo, ou até desenvolver problemas de abuso de substâncias. Os resultados indicam que o comportamento anormal ligado à comida e aos exercícios costuma ser ignorado, incompreendido, ou até visto como uma fase da adolescência que vai passar. Isso é especialmente verdadeiro entre os rapazes adolescentes.

Um terço dos rapazes do ensino médio envolvidos na pesquisa disseram tentar ganhar peso e massa muscular, e muitos estavam recorrendo a métodos arriscados para alcançar seus objetivos, disse Nagata. Entre as garotas envolvidas no estudo, 60% disseram tentar perder peso.

Algumas recorriam a dietas desequilibradas que podem prejudicar seu crescimento e saúde no longo prazo; outras induziam vômitos ou abusavam de laxantes, diuréticos, remédios para emagrecer e comportamentos prejudiciais como jejuar ou praticar exercícios em excesso. No geral, irregularidades na alimentação são mais de duas vezes mais comuns entre as mulheres do que entre os homens. Esse comportamento também foi observado com mais frequência entre pessoas que se identificavam como asiáticas/samoanas, gays, lésbicas ou bissexuais.

Ainda que o diagnóstico de um distúrbio alimentar como anorexia ou bulimia seja duas vezes mais comuns entre jovens adultos com peso regular ou abaixo do normal, o fato de tais distúrbios também existirem entre adultos mais pesados costuma ser ignorado, disse Nagata.

“Quase metade daqueles com anorexia nervosa tem peso regular ou acima do normal", disse ele. “Jovens com anorexia atípica têm as mesmas distorções de imagem corporal e estresse psicológico agudo do que aqueles com anorexia comum. São considerados de alto risco médico e têm a mesma alta probabilidade de hospitalização por complicações causadas pelos distúrbios no seu comportamento alimentar.”

Kirsten Bibbins-Domingo, colega de Nagata e coautora do estudo, que faz residência na universidade, disse em entrevista, “Os médicos que atendem jovens adultos devem pensar em padrões de alimentação que são prejudiciais, e não procurá-los somente entre mulheres muito magras. Com frequência, jovens com comportamento alimentar anormal acabam passando pelas brechas porque os médicos os consideram saudáveis. Entretanto, padrões anormais de alimentação não são incomuns na adolescência e início da vida adulta, que é quando são consolidados comportamentos ligados a problemas de saúde posteriores e tardios".

O problema dos distúrbios alimentares entre adolescentes e jovens adultos é frequentemente incentivado ou agravado pela participação em determinados esportes competitivos e outras atividades que exageram a importância do peso ou de uma determinada forma física.

Entre esses estão a ginástica, luta greco-romana, dança, patinação artística, halterofilismo e fisiculturismo. As redes sociais, muito voltadas para as aparências, também fomentaram o problema, disse Nagata. Até brinquedos como as bonecas Barbie e os heróis e soldados também contribuíram. “Um estudo dos bonecos de heróis voltados para meninos indicou que estes se tornaram mais musculosos, com aparência cada vez mais extrema ao longo de 30 anos", disse ele.

Bibbins-Domingo quer que os médicos sejam mais proativos ao indagar aos adolescentes e jovens adultos a respeito dos hábitos de dieta e prática de exercícios. “Eles precisam conversar com esses jovens a respeito do que eles estão comendo, quando estão comendo e como, para poder orientá-los quanto a padrões saudáveis de alimentação.

“Sem entrar no julgamento do tamanho corporal, eles podem abrir a porta para uma conversa a respeito dos hábitos alimentares e a prática de exercícios", sugeriu Bibbins-Domingo. “O médico pode perguntar, ‘O que você comeu ontem, e onde, e o que pensa das escolhas que fez?’ ou ‘Quer falar de problemas de peso?’”. A pandemia pode ter uma consequência positiva, disse Nagata. “Com mais famílias fazendo as refeições juntas, é mais fácil para os pais observar o que os filhos comem.” Fazer refeições em família é um dos alicerces básicos do tratamento para distúrbios alimentares, disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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