Alex Welsh para The New York Times
Alex Welsh para The New York Times

Trapcorridos: gênero musical vira sensação no México (e na Califórnia)

Seja uma lenda sobre façanhas de um revolucionário do mundo real ou uma saga romântica, um corrido sempre possui um arco narrativo

Walter Thompson-Hernández, The New York Times

13 de outubro de 2019 | 06h00

LOS ANGELES - Francisco Rodriguez, 31 anos, começou a escrever músicas quando estava na prisão. Por ter sido criado em Santa Maria, Califórnia, ouvindo “corridos”, gênero musical mexicano que seus pais e avós adoravam, seu gosto gravitava nessa direção. Os corridos nasceram de uma tradição de narrativas orais que remonta ao século 19.

Seja uma lenda sobre as façanhas de um revolucionário do mundo real ou uma saga romântica situada no México rural, um corrido sempre possui um arco narrativo. Muitos deles têm como base eventos reais: O Corrido de Joaquín Murrieta conta a história de um bandido e herói folclórico do tempo da Corrida do Ouro na Califórnia.

Na prisão, Rodriguez se concentrou na vida que conhecia: os perigos do tráfico de armas pela fronteira entre Estados Unidos e México. Ele compunha a respeito de trapaceiros e traficantes das ruas de seu bairro. Com o tempo, ele também experimentou mudanças de sonoridade nos corridos - acelerando o ritmo dos acompanhamentos de violão e acordeão, incluindo batidas de hip-hop adaptadas a partir da música que ele escutava quando crescia no sul da Califórnia, nos anos 1990.

Conhecido agora como Shrek, ele deixou a prisão há dois anos e virou o vocalista principal do Arsenal Efectivo, um dos vários grupos de “trapcorrido”, que têm influência do rap e do hip-hop. Antes de um show recente que teve os ingressos esgotados na arena Forum, em Los Angeles, Rodriguez fez uma reflexão a respeito da evolução de sua música: “Eu abandonei o tráfico de drogas e a vida no crime e fui atrás de música quando saí da prisão, e foi assim que tudo isso se formou”.

“Quando comecei minha banda, usávamos botas de crocodilo, calças de vaqueiros e grandes sombreros mexicanos. Mas agora me visto com visual ostentação, joias ostentação, coloquei uma dentadura de brilhantes, e isso é algo que nunca foi visto na nossa cultura: mexicanos com brilhantes nos dentes cantando corridos.” Jesus Ortiz Paz, principal vocalista do Fuerza Regida, outro grupo de trapcorridos de Los Angeles, afirmou: “Somos das ruas. Não nascemos no México e não estamos cantando a respeito dos ranchos”.

Conforme as redes de narcotráfico se tornavam mais poderosas no México, as músicas de corrido refletiam a violência associada às drogas, criando um subgênero chamado narcocorridos. Chalino Sanchez, natural de Sinaloa, México, cantava detalhadas descrições, em primeira pessoa, de tiroteios com a polícia, assassinatos e sobrevivência que se tornaram populares, especialmente no sudeste de Los Angeles, no fim dos anos 1980 e início dos 1990.

Mas, ao mesmo tempo que os músicos de trapcorridos de hoje cresceram ouvindo corridos, eles passaram a infância nas grandes cidades da Califórnia. Eles ouviam hip-hop e rap. Josh Kun, diretor da Escola Annenberg de Comunicação e Jornalismo da Universidade do Sul da Califórnia, acredita que os corridos, enquanto forma de expressão musical que existe em ambos os lados da fronteira entre Estados Unidos e México, se prestam naturalmente à colaboração com outros gêneros.

Ainda assim, Jimmy Humilde, dono do selo chamado Rancho Humilde, que empresaria o Arsenal Efectivo, acredita que há algo de único nos trapcorridos do sul da Califórnia. “Essa é a voz da cultura chicana jovem, e nós estamos representando a cultura de Los Angeles com essa música”, afirmou ele.

A colaboração musical entre artistas negros e latinos não é incomum. Mas as tensões raciais no sul de Los Angeles, especialmente no início dos anos 1990, eram carregadas entre esses dois grupos demográficos, ambos presos em um sistema de acesso limitado a recursos econômicos e sociais.

Alguns veem o estilo musical do trapcorrido como um remédio, mas não a cura para as tensões raciais. Como um atestado de seu apelo, casas de shows de toda a Califórnia estão esgotando todos os ingressos para as apresentações de trapcorrido. As bandas estão viajando a outros estados e ao México.

“Nos sentimos como a Selena”, afirmou Paz, referindo-se à cantora mexicana-americana que se tornou uma das mais celebradas intérpretes do século 20, antes de sua morte, em 1995. “Somos mexicanos-americanos e estamos cruzando a fronteira rumo ao México, exatamente como ela fez, com os ingressos esgotados, exatamente como ela.” /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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