James Hill para The New York Times
James Hill para The New York Times
Andrew Higgins, The New York Times

20 de junho de 2019 | 06h00

SALIHORSK, BELARUS - Yury Lukashenia, 40 anos, um gerente de uma companhia austríaca da Áustria na Belarus, costuma levar a família em viagens de férias a lugares ensolarados como a Espanha e a Grécia. Mas o que ele procura na realidade é visitar uma mina de sal.

“É claro que, na primeira vez, foi um pouco assustador”, ele disse, narrando sua descida na mina em um elevador pouco confiável, sem luz, que desceu chocalhando os 420 metros até um labirinto de cavernas e túneis mal iluminados escavados nos maiores depósitos de sal e potássio do mundo.

Mas agora, em sua sexta viagem a Salihorsk, a joia da indústria de mineração de sal da antiga União Soviética, Lukashenia, que sofre de alergias, disse que não perderia a sua excursão anual por nada nesse mundo. “Eu me sinto melhor quando chego aqui”, afirmou. “É muito melhor passar duas ou três semanas em uma mina de sal do que sentado em um iate”.

Já tentou convencer a esposa a ir com ele, mas ela sofre de claustrofobia e prefere uma praia. E tampouco os seus amigos estão ansiosos por acompanhá-lo. “Quando conto aos amigos que vou para as minas de sal, eles sempre perguntam: ‘O que você fez de errado?’”

Na União Soviética, a sugestão de uma visita às minas de sal evoca lembranças sinistras de campos de concentração. No entanto, as minas de Belarus se tornaram sinônimo de tratamento de saúde, uma ideia apoiada por Alexander Lukaschenko, o líder autoritário que permaneceu muitos anos no poder. Cerca de quatro mil pessoas visitam todos os anos a Clínica Nacional de Espeleoterapia, um complexo semelhante a um hotel em Salihorsk, cidade mineira distante 130 quilômetros da capital, Minsk.

Inicialmente, a clínica abria apenas alguns meses antes do colapso de 1991 da União Soviética, mas desde então o seu funcionamento se tornou permanente. A metade dos visitantes é composta por bielorrussos, cujas estadias são pagas pelo sistema nacional de saúde, e a outra metade por forasteiros, em geral russos, que pagam cerca de US$ 1000 por uma permanência de duas semanas.

Um serviço regular de ônibus transporta os visitantes, que usam sempre um capacete de proteção, até o interior da mina para uma sessão de seis horas no subsolo ou uma sessão mais longa para os mais resistentes, que dura a noite toda. Na mina, as luzes se apagam às 22 horas e voltam a acender às 5h45, quando as catacumbas de sal começam a tremer com o som das polkas. Os corredores cavernosos têm mesas de pingue-pongue, uma quadra de basquete e uma pista de corrida. Nada de internet nem de televisão.

A mina de sal pertence à maior companhia de sal do país, a Belarus Kali, e uma das mais importantes produtoras mundiais de fertilizantes de potássio. Montanhas de sal e potássio circundam a cidade. O lugar parece um deserto industrial soviético e não um resort para tratamento de saúde. As ruas são estranhamente limpas; os blocos residenciais de concreto são pintados com murais que celebram os trabalhadores das minas.

Pavel Levchenko, um cirurgião de Minsk que dirige a clínica, afirma que o seu estabelecimento não é um spa, mas uma clínica médica. Os integrantes de sua equipe vestem uniformes hospitalares e são médicos, enfermeiros e profissionais de várias especialidades.

Os visitantes são chamados de pacientes. “Não queremos turistas”, afirmou. “As pessoas que vêm aqui precisam ter uma motivação. Precisam estar doentes”. Lukashenia se inscreveu para o tratamento, explicando que sofria de alergias terríveis e tinha tanta dificuldade para respirar que muitas vezes não conseguia dormir. “Aqui, durmo como um bebê”, disse.

Estar totalmente longe da luz solar, de celulares e da internet contribui para aliviar o stress, afirmou, mas o mais importante é o ar picante. A atmosfera é saturado de sal e potássio, mas isenta da contaminação do pólen e de outros prenúncios invisíveis da primavera que acabam com ele. Depois de tentar uma variedade de remédios, inclusive duvidosos, ele decidiu visitar a mina de sal. Inicialmente, reconheceu, estava cético, mas ficou maravilhado ao recuperar rapidamente sua respiração normal.

Não existe consenso científico quanto à eficácia da terapia do sal, mas as autoridades da área de saúde da Belorus estão convencidas de que o seu país se encontra na vanguarda da inovação na medicina. Levchenko admitiu. “Eu mesmo estava bastante cético no começo”.

“Pude constatar que funciona muito bem”. A permanência na mina de sal, afirmou, não cura os visitantes dos seus problemas de saúde, mas “favorece a sua regressão”. Nadezhda Vaailwnko, 58, uma russa que sofre de asma, falou que esteve na mina no ano passado. “Eu me senti muito melhor e decidi voltar”, contou, sentada em um grupo de mulheres.

As amizades que se criam no subterrâneo costumam ser fortes, afirmou Zhanya Sakanchuk, que é da cidade bielorrussa de Pinsk e também tem asma. Ela visita o lugar todos os anos desde 2012, quando assistiu a uma reportagem que mostrava o presidente Lukashenko em visita à instalação.

Estava tão desesperada na época, com a perda do único filho, que  entrou em uma profunda depressão e a sua saúde entrou em colapso. Ela disse que agora se sente muito melhor e continuará voltando definitivamente. “Talvez tudo isto seja apenas o efeito de placebo, mas a mina de sal salvou a minha vida”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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