James Gregg/Arizona Daily Star, Via Associated Press
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Donald G. McNeil Jr., The New York Times

26 de outubro de 2018 | 06h00

Um injetor automático para tratar picadas de cobra? A ideia ainda é um sonho, mas um químico da Califórnia e um especialista em venenos da Costa Rica dizem estar progredindo numa nova iniciativa que pretende produzir nanopartículas capazes de neutralizar o veneno de cobra.

Num estudo publicado recentemente na PLOS Neglected Tropical Diseases, suas partículas protegeram camundongos dos danos nos tecidos causados pelo veneno da naja.

Em países ricos, as cobras são uma ameaça para um pequeno número de azarados, entre eles os adeptos das trilhas, soldados e colecionadores de répteis. Mas, nos trópicos da África, Ásia e América Latina, elas são uma das principais causas de mortalidade e deficiência: mais de 2 milhões de pessoas são picadas todos os anos. Cerca de 100 mil delas morrem, e outras 400 mil ficam com sequelas graves, incluindo amputações e danos nos nervos capazes de inutilizar um membro.

As pesquisas envolvendo picadas de cobra são pouco numerosas, e envolvem controvérsia. Antigas máximas dos primeiros socorros não são mais levadas a sério, como aplicar sucção na área da picada para extrair o veneno. Falou-se em choques elétricos usados para decompor venenos. Mas não há explicação universalmente aceita para o seu funcionamento.

Os antídotos existem há décadas, mas são caros, potencialmente perigosos e raramente usados em países pobres. Os remédios contêm anticorpos coletados dos corpos de ovelhas ou cavalos que recebem injeções de veneno em doses baixas e diluídas, podendo então se recuperar. O processo é pouco prático, e os anticorpos devem ser mantidos em refrigeração.

Os antídotos também podem desencadear um choque anafilático ou hemorragia potencialmente letal. Devem ser aplicados de maneira intravenosa, e muitas vítimas de picadas morrem antes de chegar a hospitais. Além disso, cada antídoto é específico para uma espécie de cobra. Os hospitais precisam manter muitos tipos de antídotos à disposição, e a vítima tem que descrever com precisão a cobra que a picou.

“Eles são muito problemáticos, mas são a única alternativa de que dispomos", disse Kenneth J. Shea, químico da Universidade da Califórnia, em Irvine.

O laboratório do Dr. Shea está criando nanopartículas de hidrogel revestidas de polímeros - elementos constitutivos do plástico - pequenos o bastante para se ligar a proteínas. Ele isolou algumas nanopartículas que se ligam às moléculas de veneno produzidas por najas, corais e mambas.

José María Gutiérrez, especialista em peçonhas da Universidade da Costa Rica, injetou veneno de naja em dúzias de camundongos. ele descobriu que as nanopartículas do Dr. Shea reduzem significativamente  o dano aos tecidos dos camundongos, aparentemente sem desencadear perigosas reações alérgicas.

O Dr. Shea disse que mais pesquisas são necessárias, mas o objetivo é criar um coquetel de partículas que poderia ser usado num injetor automático no estilo Epi-Pen. Não seria um substituto completo para os antídotos. Mas, como as nanopartículas são relativamente fáceis de fabricar e não exigem refrigeração, elas poderiam ser levadas a campo e injetadas no local de uma picada, reduzindo o dano aos tecidos e impedindo que o veneno se espalhe. Com isso, a vítima teria mais tempo para conseguir tratamento melhor.

O Dr. Shea espera atrair grupos que financiam pesquisas globais na área da saúde, como a Fundação Bill & Melinda Gates.

O caminho até a aprovação pelas agências de vigilância sanitária pode ser longo. O uso de nanopartículas na medicina é relativamente novo, e “não há muitos voluntários” para testes clínicos envolvendo picadas de cobra, disse o Dr. Shea.

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