Gabriela Bhaskar/The New York Times.
Gabriela Bhaskar/The New York Times.

Como a busca por tratamentos para a covid-19 não avançou enquanto que as vacinas aceleraram

O desenvolvimento de vacinas superou as expectativas. Mas nos próximos meses muitas pessoas ainda devem adoecer e os médicos têm poucas drogas à disposição para tratá-las

Carl Zimmer, The New York Times - Life/Style

17 de fevereiro de 2021 | 05h00

Quase um ano de enfrentamento da pandemia do coronavírus, com milhares de pacientes morrendo a cada dia nos Estados Unidos e com muitos meses à frente antes de uma vacinação generalizada, os médicos possuem poucas drogas eficazes para combater o vírus.

Algumas, como o remdesivir, anticorpos monoclonais e outros corticoides, melhoraram o tratamento de pacientes de covid, com os médicos hoje em melhor posição do que quando o vírus acelerou no ano passado nos Estados Unidos. Mas essas drogas não são um santo remédio e não servem para todos, e os esforços para reformular medicamentos existentes para outro uso terapêutico, ou descobrir novos, não têm tido muito sucesso.

O governo injetou US$ 18,5 bilhões em vacinas, uma estratégia que resultou em pelo menos cinco produtos eficazes em velocidade recorde. Mas o investimento em medicamentos foi bem menor, apenas US$ 2 bilhões, e grande parte desse dinheiro foi para os poucos tratamentos candidatos, como os anticorpos moclonais. E os estudos para descobrir novas drogas têm sido mal organizados.

O resultado foi que muitas drogas promissoras que conseguiriam impedir uma piora da doença já no início dos sintomas, os chamados antivirais, foram negligenciadas. Os ensaios clínicos pararam, ou porque os pesquisadores não tinham financiamento suficiente ou não havia número de pacientes necessário.

Existem agora muitas evidências de que a hidroxicloroquina e a cloroquina não funcionam contra a covid. Mas ainda há 179 ensaios clínicos com 169.370 pacientes que estão recebendo o medicamento, segundo o Covid Registry of Off-Label & New Agentes, na Universidade da Pensilvânia. E o governo federal canalizou dezenas de milhões de dólares para um programa de acesso ao plasma convalescente, em que quase 100 mil pacientes de covid receberam a droga antes de haver evidências consistentes de que funcionava. Em janeiro, esse experimento revelou que, pelo menos para os pacientes hospitalizados, o tratamento não tem efeito.

Diante da falta de uma coordenação centralizada, muitos ensaios clínicos com antivirais contra a covid ficaram condenados desde o início – muito pequenos e mal projetados para oferecerem dados úteis, segundo Janet Woodcock, comissária da FDA – Food ad Drug Administration. Se o governo, pelo contrário, tivesse criado uma rede organizada de hospitais para realizar amplos ensaios clínicos e um compartilhamento rápido dos dados, os pesquisadores teriam mais respostas hoje.

Novos antivírais poderiam ajudar, mas somente agora o Instituto Nacional de Saúde criou uma importante iniciativa para desenvolvê-los, o que significa que não estarão em uso em tempo para combater a atual pandemia.

“Esta iniciativa provavelmente não oferecerá nenhum tratamento em 2021”, afirmou Francis Collins, diretor do Instituto Nacional de Saúde. “Se houver uma covid-24 ou covid-30, no futuro, queremos estar preparados”.

Mesmo com o número de casos e mortes disparando em todo o país, a taxa de sobrevivência dos infectados melhorou significativamente. Um estudo recente concluiu que, em junho, o número de mortes de pacientes hospitalizados caiu de 17% no início da pandemia para 9%, uma tendência repetida em outros estudos. Segundo os pesquisadores a melhora se deve em parte à dexametasona, corticóide que contribui para a sobrevivência de pacientes graves, neutralizando o sistema imune em vez de bloquear o vírus. Os pacientes também vêm buscando assistência médica precocemente. E as máscaras e o distanciamento social podem reduzir a exposição ao vírus.

Quando o novo coronavírus surgiu como uma ameaça global no início de 2020 os médicos tentaram uma variedade de drogas existentes. Mas a única maneira de saber se realmente funcionavam era por meio de grandes ensaios clínicos em que algumas pessoas recebiam placebos e outras o medicamento em questão.

Mas contar com centenas de milhares de pessoas para esses ensaios era um tremendo desafio logístico. No início de 2020, o Instituto Nacional de Saúde reduziu seu foco para algumas drogas promissoras. O que levou a uma rápida autorização do remdesivir e os anticorpos monoclonais. O remdesivir, que impede o vírus de se replicar dentro das células, consegue reduzir modestamente o tempo que o paciente precisa para se recuperar, mas não tem nenhum efeito sobre a mortalidade. Os anticorpos monoclonais, que impedem o vírus de entrar nas células, pode ser muito potente, mas apenas quando administrados antes das pessoas adoecerem a ponto de serem hospitalizadas.

Centenas de hospitais e universidades começaram seus próprios ensaios clínicos de drogas já existentes, consideradas seguras e amplamente produzidas – que também poderiam funcionar contra o coronavírus. Mas a maioria desses ensaios eram pequenos e desorganizados.

Em muitos casos, os pesquisadores não contaram com apoio federal ou de companhias farmacêuticas. Em abril, a cidade de Nova York enfrentava um forte aumento de casos de covid. Charles Mobbs, neurocientista da Icahn School of Medicine, em Mount Sinai, ouviu falar de um trabalho interessante na França sugerindo a eficácia de uma droga antipsicótica.

Médicos de hospitais psiquiátricos na França observaram que relativamente poucos pacientes foram afetados pela covid-19 em comparação com os funcionários que cuidavam deles. Os pesquisadores acharam que as drogas que eram administradas aos pacientes poderiam protegê-los. Uma delas, a Clorpromazina antipsicótica, em experimentos feitos em laboratório, parecia impedir o coronavírus de se multiplicar.

Os médicos tentaram iniciar um ensaio clínico com a droga, mas a pandemia acalmou por um tempo na França. Mobbs então passou semanas fazendo acertos para realizar um ensaio com os pacientes hospitalizados no Mount Sinai, mas se deparou com a falta de pacientes.

Se médicos como ele tivessem acesso à rede nacional de hospitais, eles conseguiriam encontrar um número suficiente de pacientes para realizar rapidamente esses ensaios clínicos. Tais redes, no entanto, não estão abertas aos esforços para desenvolver novos medicamentos.

Muitos cientistas suspeitam que o melhor tempo para combater o coronavírus é no início da infecção, quando o vírus se multiplica rapidamente. Mas é particularmente difícil recrutar voluntários que não estão hospitalizados. Os pesquisadores têm de rastrear as pessoas corretamente depois que foram testadas com o vírus e encontrar um meio de fornecer as drogas objeto do ensaio para elas.

Na Universidade de Kentucky, teve início um ensaio em maio para testar um medicamento chamado Camostat, que é normalmente receitado para tratar inflamação do pâncreas. Os cientistas achavam que ele também poderia ser eficaz como antiviral porque destrói a proteína da qual o vírus depende para infectar as células humanas. Como o medicamento é apresentado em forma de pílula, e não injeção, seria especialmente útil para pessoas como aquelas voluntárias para o ensaio, muitas delas vivem em áreas rurais remotas.

Mas os pesquisados passaram oito meses tentando recrutar um número suficiente de participantes. E tiveram problemas para encontrar pacientes recém diagnosticados com covid, especialmente com o imprevisível ciclo de aumento e redução de casos.

“Esta tem sido a razão dos atrasos no caso de todos os ensaios clínicos no mundo inteiro”, afirmou James Porterfield, clínico da Escola de Medicina da Universidade de Kentucky.

Enquanto médicos como ele lutam para levar adiante os estudos, algumas drogas se tornaram sensações, elogiadas como um santo remédio, não obstante a falta de evidências.

A primeira panaceia foi a hidroxicloroquina, droga desenvolvida para a malária. Em vez de começarem ensaios amplos e bem elaborados da droga, em muitos hospitais os médicos começaram uma série de pequenos experimentos.

“Não havia nem coordenação e nem uma liderança centralizada”, disse Ilan Schwartz, especialista em doenças infecciosas na universidade de Alberta.

No entanto, a FDA autorizou o uso do remédio como tratamento para pessoas hospitalizadas com covid. Quando grandes ensaios clínicos finalmente começaram a mostrar os resultados, verificou-se que a droga não traz nenhum benefício e pode até ser prejudicial. A agência retirou a autorização em junho.

“A lição inequívoca e persuasiva dessa história da hidroxicloroquina para a comunidade médica e o público é que ciência e política não se misturam”, disse Michael Saag, da universidade de Alabama, em artigo no JAMA.

Outra droga que vem se tornando popular antes de evidências fortes de que funciona é a ivermectina. O senador Ron Johnson, de Wisconsin, que elogiou a hidroxicloroquina em abril, realizou uma audiência em dezembro onde Pierre Kory falou sobre a ivermectina. Kory, especialista do pulmão e cuidados intensivos, do Aurora St. Luke’s Medical Center em Milwaukee, qualificou a droga como “efetivamente milagrosa contra a covid-19”. Mas não existe nenhum resultado publicado de um ensaio em larga escala que apoie suas afirmações. Apenas ensaios clínicos pequenos.

E mesmo que o governo federal institua uma rede centralizada de ensaios clínicos, como vem tentando agora, os cientistas ainda irão se deparar com obstáculos inevitáveis. Leva tempo para realizar experimentos cuidadosos para descobrir novos medicamentos e depois confirmar que vale a pena continuar a investigação.

E não está claro como os remédios candidatos serão escolhidos. Mas se os ensaios começarem dentro de alguns meses, é possível que forneçam dados úteis até o fim do ano.

Empresas farmacêuticas já começam a financiar alguns experimentos com drogas existentes para outros fins terapêuticos. Segundo um estudo publicado na revista Science, um medicamento para câncer, no mercado há 24 anos, chamado Plitidepsina, se mostrou mais de 27 vezes mais potente do que o remdesivir em experimentos feitos em laboratório. Em outubro, uma companhia espanhola chamada PharmaMar reportou resultados promissores a partir de um pequeno ensaio de segurança do Plitidepsina. Agora a empresa pretende realizar um teste final na Espanha para ver se a droga funciona comparada com um placebo.

A Merck vem realizando um amplo ensaio clínico, já em estágio final, com uma pílula chamada Molnupiravir, desenvolvida originalmente pela Ridgeback Biotherapeutics para gripe, que mostrou curar furões da covid-19. Os primeiros resultados do ensaio devem ser publicados em março. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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