Adriana Zehbrauskas / The New York Times
Adriana Zehbrauskas / The New York Times

Tribo navajo se apropria da música country

Em bares, cassinos e pistas de dança, o gênero musical que muitos associam a brancos da zona rural americana floresce no coração das terras indígenas

Simon Romero, The New York Times

15 de dezembro de 2019 | 06h00

SHIPROCK, NOVO MÉXICO — Eles partiram de pequenos vilarejos no território da nação navajo, dirigindo por horas em estradas acidentadas. Quando o público de sábado à noite finalmente chegou ao Redd's, o estacionamento ficou cheio de caminhonetes.

Vestindo jeans e botas de vaqueiro, eles dançaram sob a fraca luz ao som de bandas que tocavam clássicos do country. Entre as canções, casais trocavam palavras de amor em inglês e diné bizaad, o idioma navajo que sobrevive nessa parte do Oeste Americano. “Não estou embelezando nossa música, mas a considero uma forma de arte", avaliou Travis Mose, de 42 anos, vocalista do grupo de música country navajo Wanderers, que viajou duas horas desde Halchita, Utah. “Essa música nos toca por dentro.”

Em bares de beira de estrada, cassinos e pistas de dança, um gênero musical que muitos associam a brancos da zona rural americana floresce no coração das terras indígenas. Dúzias de bandas disputam espaço para se apresentar no circuito todas as semanas, mostrando como uma das tribos mais antigas dos Estados Unidos está destruindo os antigos estereótipos de “cowboys e índios".

Esse rearranjo de identidades faz parte do maleável alcance da música country pelo mundo, conforme esse gênero faz sucesso em lugares tão diferentes entre si quanto Brasil, Irã e Quênia.

Um fator alimentando a vitalidade do estilo aqui é o próprio tamanho da nação navajo, que se estende por 70 mil quilômetros quadrados nos estados de Arizona, Novo México e Utah. Os diné, como muitos navajo preferem ser chamados, somam mais de 330 mil pessoas.

Tais números garantem uma massa crítica para uma cultura musical que reflete a vida dentro da reserva e nas “cidades fronteiriças” que a cercam. A música country navajo se inspira em uma tradição de lendas do country como Merle Haggard e Buck Owens, que às vezes usam expressões do diné.

Professores, rancheiros, operários da construção e outros profissionais são os integrantes da maioria das bandas. Alguns dos grupos mais conhecidos também compõem suas músicas, como o Stateline, de White Cone, no Arizona, cujos integrantes conseguem fazer da banda sua principal fonte de renda agendando até quatro apresentações por semana.

Música country

Alguns explicam que a música country pode se adaptar naturalmente a um povo acostumado a se valer da tradição de outras culturas, adaptando-as tão completamente ao ponto de se tornarem navajo.

Após a chegada dos espanhóis, no século 16, os diné desenvolveram a pecuária das ovelhas churro, o tipo ibérico trazido pelos conquistadores. Com o cavalo, outro animal trazido pelos espanhóis, os navajo desenvolveram um ethos de rancheiros muito antes da chegada dos cowboys americanos. Laçadores diné, cavaleiros que dispensam sela e apanhadores de novilho à unha disputam nos rodeios em todo o território dos EUA.

“A verdade é que somos os cowboys originais", afirmou Travis Friday, de 40 anos, líder do Stateline. “Agora, trilhamos um rumo entre a tradição americana e nossa própria cultura. Poderíamos dizer que nossa música tenta estabelecer uma ponte entre essas culturas.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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