Diego Lopez Calvin/Screen Media, via The New York Times
Diego Lopez Calvin/Screen Media, via The New York Times

Trinta anos de uma obsessão quixotesca

Após três décadas e uma série de problemas, o produtor Terry Gilliam finalmente concluiu o filme 'O Homem que Matou Dom Quixote'

Sopan Deb, The New York Times

18 de abril de 2019 | 06h00

Quando Terry Gilliam começou a trabalhar em O Homem que Matou Dom Quixote, um de seus produtores tinha cerca de 11 anos de idade. Era a filha de Gilliam, Amy, que hoje tem 41. O filme é um dos projetos mais infelizes da história de uma paixão: em 30 anos, Gilliam, hoje com 78, enfrentou os mais variados problemas com financiamento (vez por outra suspenso e depois retomado), um elenco inconstante de pessoas engajadas e em seguida desligadas do projeto, e até uma inundação que varreu todo um set de filmagem. 

Um documentário realizado sobre a impossibilidade de levar adiante o filme, Perdido em La Mancha, em 2002, foi concluído antes do próprio filme. Mas, depois de estrear no Festival de Cinema de Cannes do ano passado, O Homem que Matou Dom Quixote é, enfim, uma obra pronta.

Por sua persistência em concluir o filme, Gilliam foi comparado a Quixote, mas ele prefere uma comparação diferente. "O filme é Quixote. Eu sou Sancho Pança, porque sou o sujeito que o empurrou continuamente para frente", afirmou.

O diretor tinha um roteiro que escrevera no final dos anos 1980 com Charles McKeown, um de seus colaboradores de Brazil, O Filme (1985), mas que não agradava particularmente a Gilliam. Então ele contratou o roteirista britânico Tony Grisoni para ajudá-lo em uma nova versão. Os dois haviam adaptado outro livro para o cinema, para o filme Medo e Delírio, de 1998.

Com Johnny Depp e o ator francês Jean Rochefort nos papéis principais, as filmagens começaram em 2000 com uma expedição desastrosa na Espanha. Rochefort teve de sair por problemas de saúde, e a produção precisou ser repetidamente interrompida por causa de trovoadas, inundações repentinas e sobrevoo de aviões de uma base aérea da Otan nas proximidades. Os realizadores desistiram depois de cerca de uma semana.

Em seguida, Gilliam passou quase 20 anos tentando retomá-la. "Em parte foi também porque todos dizem, 'esqueça isso, vá em frente'", contou Gilliam. "Acho que esta é a força motora mais forte. Não gosto que pessoas razoáveis me digam para eu ser razoável".

Michael Palin, colega de Gilliam no clube de comédia Monty Python, Robert Duvall e John Hurt foram alguns dos astros ligados ao projeto naqueles anos, mas todos desistiram. O financiamento parou várias vezes.

O diretor de fotografia Nicola Pecorini, também de Medo e Delírio, disse que desde o começo, quando assinou o contrato, houve uma dezena de tentativas de fazer o filme. Cada vez, contou, ele se sentiu "totalmente cético", mas tinha uma profunda afeição por Gilliam. "Adoro trabalhar com Terry. Ele me enlouquece, mas adoro". Quando perguntei o que o aborrecia trabalhando com Gilliam, Pecorini disse que era a sua obstinação. Provavelmente foi esta a razão pela qual Quixote finalmente estreou.

Dom Quixote é interpretado por Jonathan Pryce, homem delirante, mas cavalheiresco, de La Mancha, que parte para se tornar um herói, como o descreve Miguel de Cervantes em seu romance do século 17. A história de Gilliam se desenrola nos tempos atuais: Toby, interpretado por Adam Driver, é um diretor de publicidade centrado em si mesmo que, anos depois de escolher um fabricante de calçados espanhol para ser o Quixote em um filme de estudantes, regressa à Espanha onde descobre que o homem, interpretado por Pryce, acha que é realmente o Quixote e que Toby é seu leal companheiro, Sancho Pança.

A produção retomada não ficou completamente isenta de empecilhos. O governo português decidiu investigar as denúncias de que um sítio do Patrimônio Mundial da Unesco, o Convento de Cristo do século 12, em Tomar, havia sido danificado durante as filmagens, o que Gilliam nega. Uma produtora anterior o processou por causa dos direitos de propriedade e tentou bloquear a estreia do filme em Cannes. Por fim, um tribunal de Paris determinou que o filme poderia estrear como estava planejado. E, com isso, um empreendimento que levara quase a metade da vida de Gilliam pôde ser concluído.

Gilliam declarou que estava exausto, e, pela primeira vez em 30 anos, não tem nada para fazer. Sempre que acabava um filme, havia alguma coisa esperando. "Havia um pequeno Quixote lá atrás acenando para mim. 'Hei, vamos me fazer de novo!'. Havia sempre alguma coisa que me impulsionava para a frente". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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