Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

Trinta anos restaurando pernas, braços e dignidades no Afeganistão

Em um país destroçado pela guerra, fisioterapeuta oferece às pessoas a esperança de voltar a andar

Mujib Mashal, The New York Times

06 de fevereiro de 2019 | 06h00

CABUL, AFEGANISTÃO - Alberto Cairo, um jovem advogado italiano que se tornou fisioterapeuta, chegou a Cabul em 1990, enquanto os guerrilheiros apoiados pelos americanos sitiavam a capital, cujo governo tinha o apoio dos comunistas. Ali permaneceu, consertando membros e dando esperança no meio de uma guerra que nunca cessou inteiramente, e que continua matando e aleijando um número recorde de pessoas. 

No dia 23 de janeiro, o programa de reabilitação física do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que Cairo chefiou ao longo de vários governos, comemorou o 30º aniversário. Nesse meio tempo, o programa cuidou de cerca de 180 mil pacientes e construiu aproximadamente 200 mil membros artificiais. Mas para Cairo, hoje com 66 anos, o seu trabalho não é apenas criar pernas protéticas e oferecer cadeiras de rodas.

"Quando você perde uma perna, não perde apenas uma perna - perde a autoconfiança", disse. "Tudo isto precisa ser restaurado, é uma questão de dignidade." Cairo, que cresceu em Turim antes de se estabelecer em Milão, cursou a faculdade de Direito. Entretanto, atraído pelo trabalho de ajuda, decidiu estudar fisioterapia, e Cabul foi um dos primeiros postos ao qual foi destinado pelo CICV.

O que o fez continuar ali foi a recompensa diária por devolver a dignidade a pessoas que caíram no ostracismo por sua deficiência física. Quando Cairo chegou ao Afeganistão, o programa era destinado exclusivamente às vítimas da guerra. Em um país onde de 3% a 5% da população sofre de alguma invalidez, Cairo se deu conta rapidamente de que não era justo.

O programa se expandiu em meados dos anos 1990, a fim de incluir todos os portadores de problemas que prejudicavam a mobilidade. Ele disse que a expansão exigiu um enorme trabalho. Tratar um amputado de guerra pode ser até menos complexo, mas cuidar de pacientes, frequentemente crianças, com paralisia cerebral ou moléstias congênitas exige outro tipo de especialização.

Em 2018, o número de novos pacientes assinalou mais um recorde: mais de 12 mil pessoas procuraram ajuda. Quase todos os integrantes da equipe dos sete centros de reabilitação que Cairo chefia em todo o país são antigos pacientes com deficiências. "Aqui, o tratamento de pessoas com deficiências físicas é ministrado e gerido por eles", afirmou.

Mohammed Saber, 28, tinha 3 anos quando perdeu as pernas por causa da explosão de uma mina em sua aldeia, perto de Cabul. Ele lembra vagamente de Cairo colocando suas primeiras próteses quando tinha cerca de 5 anos. Só recebeu um segundo par de próteses na adolescência, no Afeganistão, depois de viver cerca de dez anos como refugiado no Paquistão.

Saber hoje faz parte da seleção nacional afegã de basquete de cadeirantes, e trabalha no centro de reabilitação, onde estudou dois anos para cuidar de vítimas da pólio. Ele perguntou a Cairo se lembrava de sua primeira consulta quando criança para colocar o seu primeiro par de pernas. Cairo, que tratou milhares de amputados em trinta anos, se limitou a dizer: "talvez, você era muito criança."

Às vezes, alguns perguntam se 30 anos são muito tempo. "Eu respondo que espero continuar aqui por mais 30", conta. A recompensa por ajudar pessoas com deficiência, que antes se arrastavam pelo chão e hoje podem andar e trabalhar, é algo que nunca se esgota, acrescentou. "É algo cumulativo. Se comparar o que eu dou e o que recebo - eu recebo muito mais."

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