Tamir Kalifa para The New York Times
Tamir Kalifa para The New York Times

Tropas americanas aguardam caravana de imigrantes na fronteira com o México

Sem salário extra e apenas duchas rápidas, os soldados têm pouco para fazer na região

Thomas Gibbons-Neff e Helene Cooper, The New York Times

14 de novembro de 2018 | 06h00

BASE CAMP DONNA, TEXAS - O sargento Daniel Micek, da 89ª Brigada da Polícia Militar, rasgou a embalagem parda da sua ração. O almoço era frango e macarrão, uma das rações mais esperadas, porque vinha com balas Skittles. Mas da cama de campanha fora da barraca do pelotão, na última base operacional avançada do Exército, o sargento Micek quase podia ver o teto laranja e branco de uma hamburgueria a 12 quilômetros de distância, mas fora dos limites, segundo as atuais normas do Exército. Os caminhões da base, largos e achatados da cor do deserto, servem para transportar arame farpado, e não comida.

Esta é a vida na mais recente front de guerra para o qual soldados americanos foram despachados. As eleições de meio de mandato passaram, assim como os discursos ameaçadores do presidente Donald J. Trump avisando que a caravana de migrantes da América Central que está se aproximando constitui uma "invasão" estrangeira, e por isso exigiu o envio de 15 mil militares da ativa para os estados da fronteira Texas, Arizona e Califórnia. 

Mas os 5.600 soldados americanos mandados às pressas para esta região coberta de mato ressequido ao longo da fronteira ainda estão às voltas com a movimentação de uma elaborada missão que, aparentemente, foi posta em ação por um comandante-chefe determinado a levar seu eleitorado às urnas, e uma liderança do Departamento da Defesa incapaz de convencê-lo dos perigos dessa decisão.

Em vez de assistir ao jogo de futebol americano com as famílias no fim de semana do Dia dos Veteranos, os soldados do 19º Batalhão de Engenharia, recém-saídos de Fort Knox, Kentucky, instalavam cuidadosamente arame farpado nas margens do Rio Grande, ao lado da Ponte Internacional McAllen-Hidalgo-Reynosa. Nas proximidades, tropas da base conjunta Lewis-McCord, do Estado de Washington, fiscalizavam a instalação de uma enfermaria de campanha.

No dia 22 de novembro, feriado de Ação de Graças, eles provavelmente ainda estarão lá. E a 3.200 quilômetros de distância, no Departamento de Defesa, os funcionários criticarão entre si o envio desses militares como um enorme gasto de tempo e recursos, que só serve para acabar com o moral. 

Os funcionários do orçamento do Departamento de Defesa temem que se o numero de soldados enviados para a fronteira chegar a 15 mil, o preço poderá atingir os $ 200 milhões.

A última vez que tropas da ativa foram enviadas para a fronteira foi na década de 1980, para ajudar nas missões de combate ao narcotráfico. Desde então, os antecessores de Trump confiaram na Guarda Nacional.

O orçamento do exercício fiscal de 2019 do Departamento da Defesa já usou recursos para financiar o combate contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, para a guerra interminável no Afeganistão e para os preparativos em vista de um possível conflito com uma nação estrangeira, como China, Rússia, Coreia do Norte ou Irã.

Não há dinheiro reservado para combater os migrantes a caminho da fronteira americana. As tropas estão encarregadas das mesmas funções logísticas, de suporte e até mesmo administrativas que os soldados da Guarda Nacional, enviados anteriormente este ano, já estão cumprindo.

A questão do moral da tropa também preocupa. As ordens para seu envio duram até o dia 15 de dezembro, o que significa que os soldados estarão na fronteira no Dia de Ação de Graças. Então terão pouco para fazer além de fornecer apoio logístico, a não ser que Trump declare uma lei marcial. Não caberá a eles aplicar a Lei da Imigração nos Estados Unidos - o que iria de encontro a uma legislação que limita o uso dos militares para propósitos internos, a não ser que seja declarada uma exceção especial.

"Quando você dá a um soldado uma missão real, não tem um problema de moral, mesmo que seja no Natal ou no Dia de Ação de Graças", disse o deputado Anthony G. Brown de Maryland, ex-piloto de helicóptero do Exército que serviu na guerra no Iraque. "Mas quando você manda um soldado em uma missão duvidosa, sem valor militar, no Dia de Ação de Graças, não ajudará minimamente o moral".

Prensado entre uma rodovia de quatro pistas e o muro da fronteira entre EUA e México, o Campo de Base Donna lembra os que foram encontrados no Afeganistão e no Iraque no início dos anos 2000. Como acontecia nas bases daquelas primeiras zonas de guerra, a eletricidade na base é escassa. Os soldados instalaram uma pequena tenda para chuveiros. As duchas só podem demorar sete minutos.

Não há refeitório, apenas as refeições nos pacotes pardos. Os oficiais militares patrulham o perímetro à noite, armados com pistolas. Nas tendas dormem 20 soldados e não há eletricidade nem ar-condicionado.

Ao contrário do que acontecia no Iraque e no Afeganistão, porém, as tropas não recebem pagamento extra. Nem adicional de perigo, porque eles não terão contato com os migrantes.

No Campo de Base Donna, alguns soldados cavaram um fosso fora das barracas, para impedir que a água se acumule ao redor de suas camas de campanha. Outros limpavam os banheiros químicos e as pias acionadas por pedais, enquanto havia soldados descarregando suas mochilas e saindo em marcha silenciosamente.

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