Tom Brenner/ The New York Times
Tom Brenner/ The New York Times

Trump cria embate com aliados europeus

Com suas decisões a respeito do Irã, do clima e do comércio, Trump tem se afastado cada vez mais de seus aliados mais poderosos

Steven Erlanger, The New York Times

16 Maio 2018 | 15h00

BRUXELAS - A esta altura, já se tornou um padrão conhecido e humilhante: lideranças europeias bajulam, argumentam e imploram, tentando convencer o presidente Donald J. Trump a mudar de ideia em relação a algum assunto vital para a aliança transatlântica. Em vez disso, Trump parece determinado a promover exatamente o tipo de ruptura com seus aliados que China, Irã e Rússia gostariam de explorar.

É o caso dos esforços para manter o acordo nuclear de 2015 com o Irã. Tanto o presidente francês Emmanuel Macron quando a chanceler alemã, Angela Merkel, foram a Washington pedir a Trump que não rompesse o acordo. Seu fracasso foi semelhante ao ocorrido com o acordo climático de Paris, e também com o que está ocorrendo com as sanções americanas impostas à importação de aço e alumínio, e com a decisão de Trump de transferir a Embaixada dos Estados Unidos em Israel para Jerusalém.

E, a cada ruptura, fica mais claro que as relações transatlânticas estão em apuros, e as opções não são boas para os aliados europeus.

Ainda que humilhados, esses aliados não parecem dispostos a confrontar Trump, preferindo acreditar que ele e seus assessores podem ser influenciados com o tempo. Mas há sinais de que a paciência está se esgotando, conforme Trump, em nome da lógica dos “Estados Unidos em primeiro lugar", cria um vácuo na liderança transatlântica.

“Os aliados estão certamente cansados disso, mas não parece haver alternativa para eles", disse Jeremy Shapiro, ex-funcionário do departamento de estado dos EUA e atualmente funcionário do conselho europeu de relações exteriores. “Os europeus seguem pelo rumo das tentativas de agradar o presidente, não por admiração sincera, e sim na esperança de convencê-lo a mudar de ideia”. Ao menos por enquanto. 

Depois de emitirem um comunicado lamentando a resposta de Trump e prometendo trabalhar com o Irã para preservar o acordo, os ministros das relações exteriores de Grã-Bretanha, França e Alemanha se reuniram no dia 15 de maio com representantes do governo iraniano.

Mas, segundo Shapiro, a verdadeira pergunta para os europeus “não é se eles respeitarão o acordo, e sim se resistirão às tentativas americanas de fazê-lo ruir, adotando medidas para proteger ativamente suas empresas e bancos envolvidos com o Irã”. Essa seria uma “posição extremamente combativa", disse ele, “e não está claro se suas empresas realmente desejam isso".

Assessora sênior da União Europeia, Nathalie Tocci explicou que o acordo como Irã era uma causa perdida, porque “Trump e a Europa têm objetivos fundamentalmente diferentes". Ela disse que Trump deseja “mudar o governo no Irã, nada mais, nada menos".

Em se tratando do clima e do comércio, do direito internacional e da importância de instituições multilaterais como as Nações Unidas e a Organização Mundial do Comércio, o cisma com o governo Trump é real, disse Nathalie. “Será que não podemos defender nossos próprios interesses?”, indagou ela, acrescentando se “não seria mais sábio simplesmente romper temporariamente com o governo Trump”.

Ivo H. Daalder, ex-embaixador americano na Otan, enxerga essa ruptura como inevitável. “Em algum momento, depois de ter pressionado os europeus em questões como a Otan, o acordo de Paris, a embaixada em Jerusalém, o comércio e agora o acordo com o Irã, os europeus vão concluir que é melhor seguirem o próprio rumo", disse ele. “E esse momento está se aproximando rapidamente".

Mas os governos europeus não dão sinais de estarem prontos para levar a cabo a separação. Em vez disso, a União Europeia tem se mostrado mais preocupada com outros perigos, como o populismo, a imigração e a islamofobia, bem como os desafio aos seus valores democráticos por parte de países-membros como Hungria e Polônia.

“Ninguém pensa que é o fim da aliança transatlântica", comentou Pierre Vimont, ex-embaixador francês em Washington. “Mas como podemos nos entender com uma liderança americana que não quer desempenhar o papel de líder?”.

De acordo com Vimont, a dificuldade para a Europa estaria em salvar a parceria com Washington e ao mesmo tempo evitar “a lenta deriva em direção a um confronto entre o Irã, seus vizinhos e Washington". Ele disse que, com a Europa pressionada pelos EUA a tomar o partido do Irã no acordo nuclear e a tomar o partido na China no acordo comercial, “será muito complicado".

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