Korean Central News Agency, via The New York Times
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Trump desdenha acordo com o Irã e dificulta negociações com a Coreia do Norte

Analistas avaliam que os norte-coreanos podem desistir de negociar caso os EUA abandonem o acordo nuclear do Irã

David E. Sanger, The New York Times

18 Março 2018 | 10h00

WASHINGTON - O programa nuclear do Irã e o da Coreia do Norte, drasticamente diferentes, mas comumente entendidos como uma coisa só, agora estão sendo avaliados em seu conjunto, porque a determinação do presidente Donald J. Trump a acabar com o histórico acordo de 2015, que limita a capacidade de Teerã, colide com seu esforço por alcançar um acordo mais complexo com Pyongyang.

Durante anos, enquanto os iranianos viam os norte-coreanos empenhados em montar um arsenal e em fazer acordos com o Ocidente para em seguida rompê-los, compreenderam o que o mundo estava disposto a fazer para detê-los. Mais recentemente, os norte-coreanos analisaram o que Teerã recebeu em troca por concordar com um hiato de 15 anos em suas ambições nucleares e avaliaram se os benefícios prometidos valeriam a pena se desistissem de sua capacidade nuclear.

O Norte estará observando atentamente em maio, quando Trump enfrentar o prazo final para decidir se abandonará o acordo com o Irã. No mesmo mês, se tudo correr como Trump pretende, ele iniciará uma negociação com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un - e pela primeira vez um presidente americano falará com o líder daquele país - determinado a fazer o que seu predecessor não conseguiu: persuadir os norte-coreanos a se desnuclearizarem.

“As ironias são inúmeras”, afirmou Robert S. Litvak, diretor de estudos sobre segurança internacional no Woodrow Wilson Center for International Scholars. “O homem que escreveu ‘The Art of the Deal’ expôs sua convicção de que o acordo com o Irã foi o pior da história. E agora ele precisa demonstrar que sabe fazer algo muito melhor, com uma situação muito mais complexa”.

No dia 11 de março, dois dias antes de ser nomeado substituto de Rex Tillerson ao cargo de secretário de Estado, o diretor da CIA, Mike Pompeo, admitiu à televisão que Trump, considerando o menosprezo que ele tem pelo acordo com o Irã concluído pelo governo Obama, terá de conseguir um acordo melhor com Kim. “Acho que a questão toda é esta”, afirmou, acrescentando que acredita que Trump negociará de uma posição de maior força.

Isso é discutível. Até o momento, quem ditou o ritmo deste esforço diplomático foi Kim. E se Trump sair do acordo com o Irã, Kim talvez se pergunte por que motivo deveria negociar se um presidente posterior poderá simplesmente se retirar de qualquer acordo.

Segundo a normativa, Trump precisa decidir até 12 de maio se sairá do acordo com o Irã. Funcionários americanos afirmaram que Trump poderá voltar atrás se os aliados concordarem em endurecer unilateralmente sobre o desenvolvimento de mísseis do Irã - o que ainda não está coberto pelo acordo nuclear - e começar um processo para tornar permanentes os limites da capacidade do Irã de produzir material nuclear. Britânicos e franceses relutam em aceitar. Funcionários alemães hesitam, alegando que o acordo exigiria novas negociações.

Entretanto, se Trump continuar com o acordo, enfrentará um desafio diferente. Pyongyang, ao contrário de Teerã, possui de fato armas nucleares. A Coreia do Norte produz plutônio e urânio. O Irã desistiu de cerca de 97% de seu estoque de urânio pouco enriquecido que o mundo temia que pudesse ser utilizado para a produção de uma bomba.

Mesmo com um rigoroso regime de inspeções, será difícil garantir que o programa da Coreia do Norte estará realmente morto. Diante de tais suspeitas, o Irã concordou em permitir que os inspetores percorressem o país. Antes que eles fossem escorraçados da Coreia do Norte, tiveram de limitar-se a um único local. Quando o acordo de 1994, concluído durante o governo Clinton, proibiu que o país seguisse um caminho para chegar à bomba, ele aprendeu outro.

As duas principais queixas de Trump a respeito do acordo do Irã são que não é permanente e que não é suficientemente amplo - ele não trata dos envios de armas do Irã ao Hezbollah, de seu apoio ao presidente da Síria, Bashar Assad, ou de seus abusos aos direitos humanos. Combinar um acordo com a Coreia do Norte com estas reivindicações tornaria muito mais difícil a sua conclusão.

Segundo Litvak, “ninguém disse ainda qual será o âmbito de um acordo, mas se considerarmos a crítica ao acordo com o Irã, supostamente teria de solucionar muito mais do que apenas nossos problemas nucleares”. Isso incluiria parar com as armas químicas do Norte, com as exportações nucleares e de mísseis. Além disso, teriam de eliminar as armas convencionais de artilharia ao longo da zona desmilitarizada. Os norte-coreanos deverão exigir que os Estados Unidos retirem suas tropas da Coreia do Sul, e talvez que concordem com um acordo de paz e com o fim das sanções econômicas.

“Se o presidente conseguir que os norte-coreanos apenas parem o que estão fazendo e obtiver um cronograma para ações futuras, este será um enorme passo para a redução do programa dos norte-coreanos”, disse Christopher Hill, que negociou o último importante acordo dos Estados Unidos com a Coreia do Norte, no governo de George W. Bush. “Mas ainda não chegaria perto do que o Irã concordou em fazer”.

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