Michael Brosilow
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Trump faz peça 'um inimigo do povo', de 1882, ser popular novamente

Após eleição do presidente americano, diretor artístico do Goodman Theater de Chicago decidiu realizar o espetáculo

Rachel Shteir, The New York Times

15 Março 2018 | 10h00

A peça de Henry Ibsen, “Um inimigo do povo”, de 1882, de repente é tão oportuna quanto uma mensagem de tuíte.

O drama político - sobre um cientista que tenta salvar a sua cidade da poluição da água, mas acaba se tornando um bode expiatório - está sendo revivida em várias produções novas em todos os Estados Unidos.

Robert Falls, o diretor artístico do Goodman Theater de Chicago, decidiu encenar a peça depois das eleições. “Eu precisava fazer alguma coisa a respeito da nossa horrorosa vida atual, repentina/ corrente/futura sob o governo Trump e a maioria republicana”, ele disse em um e-mail.

Mal ele sabia que o presidente Donald J. Trump usaria a expressão “inimigo do povo” para ridicularizar a mídia em um tuíte, um mês depois da posse.

A produção do Goodman, que encenou a peça pela última vez em 1980, começou a pré-estreia este mês. Em Minneapolis, o Guthrie Theater, que não a produzia desde 1976, a encenará em abril. No fim do ano, haverá uma adaptação na Broadway por Branden Jacobs-Jenkins, dirigida por Thomas Ostermeier, do Schaubühne Theater de Berlim.

Segundo o Ibsen-Stage, um mapa digital das peças da Universidade de Oslo, o número das produções norte-americanas de “Um inimigo do povo” subiu para oito em 2018, em comparação a cinco em 2015.

Por que tantas produções agora? O que começou como uma resposta à presidência de Trump parece falar aos nossos tempos com um enredo em que se entrelaçam um anti-herói comprometido eticamente, o radicalismo político, a corrupção, o ativismo ambiental e uma falta de responsabilização pela destruição de uma cidade.

“Um inimigo do povo” apresenta um protagonista delator controvertido e punitivo, o dr. Thomas Stockmann, que tenta alertar a cidade a respeito da poluição da água do spa que garante a solvência da cidade. Mas sua campanha ambientalista fracassa. No quarto ato, Stockmann, revoltado pela resistência às suas ideias, torna-se um fanático e é demonizado como inimigo do povo.

No Guthrie Theater, o elenco britânico que está encenando “Um inimigo” se dá conta de que a peça carrega um peso global. O dramaturgo Brad Birch, encarregado da adaptação na Noruega, trabalhou sob o impulso das fortes tensões política na Grã-Bretanha, na questão do Brexit. “Nós queríamos contestar que ser liberal significa ser igualitário, mas também implica ser muito justo”, ele disse.

Na verdade, a peça parece favorecer versões sem fim para adequar-se a determinados  momentos políticos.

Em sua adaptação na época do anticomunismo, em 1950, Arthur Miller abrandou a linguagem mais forte de Stockmann no discurso na Câmara Municipal da cidade no Ato IV, em que apresenta a ideia de que algumas pessoas são biologicamente superiores a outras. “O inimigo mais perigoso da verdade e da liberdade é a maioria!” grita Stockmann.

A adaptação de Falls, baseada em uma tradução do século 19 de Eleanor Marx, uma filha de Karl Marx, focaliza pontos do roteiro de Ibsen em que o médico defende a educação como uma forma de modificar as mentalidades. “Ele acredita que as pessoas poderiam se transformar, melhorar”, disse Falls.

Mas o discurso de Stockmann no Ato IV também pode ser visto como um lembrete assustador de que ambas as extremidades do espectro político podem ser culpadas por alguns dos nossos maiores pesadelos políticos.

Neena Amdt, a dramaturga que trabalhou na produção de Goodman, disse que algumas das falas mais notórias de Stockmann poderiam ser comparadas ao "'cesto de deploráveis' comentários de Hillary Clinton ou outros comentários que as pessoas - talvez os próprios membros da plateia - fizeram implicando que os que discordam são seres inferiores”.

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