AP Photo/Gerald Herbert
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Trump quer mais asilos, e alguns psiquiatras concordam

Existem poucos leitos psiquiátricos nos Estados Unidos, mas o debate questiona o que fazer com aqueles que necessitam de cuidados de longa duração

Benedict Carey, The New York Times

20 Março 2018 | 10h00

Depois de numerosos e horríveis tiroteios em massa, o presidente Donald J. Trump pediu a construção de mais sanatórios.

É um argumento apresentado também por alguns especialistas que estudam o sistema de atendimento em saúde mental dos Estados Unidos, embora suas motivações não estejam em nada ligadas à sequência de tiroteios.

“Quando as pessoas são transferidas de prisões para hospitais, vemos casos que teriam se beneficiado de opções de tratamento de prazo mais longo”, disse Dominic Sisti, especialista em ética da medicina da Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia e coautor de um estudo, publicado na revista JAMA em 2015, cujo subtítulo era “Tragam de volta o sanatório".

Mas Jennifer Mathis, do Centro Bazelon, que defende aqueles com deficiências mentais, disse que a ideia é ofensiva. “Foi necessário muito esforço para nos afastarmos da prática de armazenar pessoas", disse ela. “Trancafiar as pessoas por longos períodos não é nenhum tipo de tratamento.”

Os primeiros asilos terapêuticos, criados na Europa no começo do século 19, eram mais parecidos com os spas de ioga contemporâneos do que com clínicas. Coincidiram mais ou menos com a fundação da psiquiatria moderna. Os primeiros hospitais para pacientes mentais tinham a intenção de oferecer também um ambiente protegido. Mas essas instituições, particularmente os hospitais estatais, logo se tornaram depósitos para os indesejáveis da sociedade.

O financiamento nos Estados Unidos esteve em queda na primeira metade do século 20. Em algumas instalações, um único médico era responsável por centenas de internados que, frequentemente, viviam em condições de fome e abuso.

Já em 1960, os médicos tinham à disposição o primeiro medicamento efetivamente capaz de amortecer a psicose (clorpromazina), dando a dezenas de milhares a chance de viver independentemente.

Em 1963, o presidente John F. Kennedy deu início à lei de saúde mental da comunidade, cuja intenção era acabar com os abusos institucionais e criar um sistema de atendimento com base na comunidade. A ideia era que aqueles liberados pelas instituições pudessem voltar para seus bairros, com acesso a um médico, terapeutas, serviços domiciliares e outras formas de ajuda, se necessário.

O dinheiro poupado com o fechamento dos hospitais seria usado para dar suporte a vidas independentes. Mas os governos estaduais não ofereceram o tratamento adequado. O número de sem-teto aumentou durante os anos 1980.

Nas décadas mais recentes, um número cada vez maior de pessoas com deficiências mentais foi parar nas prisões, geralmente por causa de infrações não violentas. Atualmente, os especialistas estimam que haja 100 mil prisioneiros com psicose nos EUA.

O número de leitos psiquiátricos públicos disponíveis nos EUA caiu de 360 por 100 mil habitantes nos anos 1950 para 11 por 100 mil habitantes, de acordo com o Dr. E. Fuller Torrey, fundador do Treatment Advocacy Center, que luta por mais leitos para pessoas com doenças mentais graves. Ele estimou que mais de 90% das pessoas com psicose poderiam ser estabilizadas e dispensadas em questão de semanas de tratamento intensivo.

No seu estudo defendendo a volta dos sanatórios, o Dr. Sisti mencionou o exemplo do Hospital e Centro de Recuperação de Worcester, Massachusetts.

Inaugurado em 2012, esse hospital estadual tem um orçamento anual de US$ 80 milhões, 320 quartos privativos, e oferece uma série de tratamentos, terapias e treinamentos vocacionais. A permanência média para os adolescentes é de 28 dias, e a média para o atendimento continuado (para os casos mais graves) é de 85 dias, de acordo com uma porta-voz do estado.

Os defensores dos asilos modernos insistem que esse tipo de gasto é dinheiro bem investido. Os opositores ainda não estão convencidos. O custo de manter pacientes em instalações estatais modernas de saúde mental é de US$ 150 mil ou mais, comparado ao custo de aproximadamente US$ 30 mil ao ano com o bom atendimento comunitário, incluindo moradia, calculam os especialistas. “Quanto mais gastamos nesses hospitais, menos recursos ficam disponíveis para o atendimento comunitário", disse David J. Rothman, historiador da Universidade Columbia, em Nova York, coautor de um relato a respeito da Escola Willowbrook State, fechada em 1987 após queixas de abusos.

Mas o Dr. Torrey acredita que os hospitais são vitais. “Ninguém parecia se importar com eles na geração anterior, quando tantos se tornaram sem-teto", disse ele. “Agora que estão chegando às prisões, estamos falando de tragédias horríveis e, se houvesse mais leitos disponíveis, imaginamos quantas dessas tragédias poderiam ser evitadas.”

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