Meridith Kohut para The New York Times
Meridith Kohut para The New York Times

Tuberculose destrói sistema de saúde falido na Venezuela

A falta de materiais de teste de laboratório e antibióticos está piorando a crise

Kirk Semple, The New York Times

28 Março 2018 | 15h15

CARACAS, VENEZUELA - Sua família pensou que ele tivesse apenas uma gripe muito forte. Mas Victor Martínez continuava piorando. Em meados de janeiro, ele estava em uma enfermaria do hospital, definhando devido à tuberculose. Um mês depois, em seu velório, parentes atordoados tentavam considerar o ressurgimento de uma doença que muitos venezuelanos julgavam ter sido, em grande parte, erradicada.

"Eu realmente não sei o que pensar", disse Nileydys Yesenia Aurelia Martínez, sua sobrinha. "Até a última coisa que você poderia imaginar está acontecendo."

A tuberculose está fazendo um retorno agressivo na Venezuela, sobrecarregando um sistema de saúde falido e mal equipado para seu regresso.

A doença - como a malária, a difteria e o sarampo - ganhou força na Venezuela durante uma profunda crise econômica que afetou quase todos os aspectos da vida e provocou um êxodo de venezuelanos.

A fuga de milhões de venezuelanos para o exterior incluiu muitos médicos talentosos, e os especialistas em tuberculose dizem que o número daqueles que poderiam cuidar da doença tem diminuído consideravelmente.

Embora normalmente associada aos pobres, a tuberculose começou a afetar uma população maior de venezuelanos. A piora da nutrição devido à escassez de alimentos e o aumento do estresse podem estar enfraquecendo o sistema imunológico, dizem os médicos, deixando as pessoas mais suscetíveis a doenças.

E com mais famílias mergulhando na pobreza, as pessoas são obrigadas a viver em casas cada vez mais lotadas, acelerando a transmissão da doença.

"A tuberculose é a sombra da miséria", disse José Félix Oletta, ex-ministro da Saúde da Venezuela. "Se há uma doença que é um marcador de pobreza, é a tuberculose.”

O governo venezuelano não divulgou estatísticas de saúde desde o início do ano passado, parte de um esforço para manter a extensão do declínio do país em segredo.

Mas em dois centros de tuberculose em Caracas, capital do país, a proporção de novos pacientes com teste positivo para a doença aumentou 40% ou mais no último ano.

"A tuberculose está nos atingindo com força", disse Jacobus de Waard, diretor do laboratório de tuberculose do Instituto de Biomedicina de Caracas. "Estamos perdendo a luta."

O programa de prevenção e controle da tuberculose do governo da Venezuela já foi elogiado, com o país ostentando uma das taxas mais baixas de infecção na América Latina.

Mas como o país se desmoronou sob o presidente Nicolás Maduro, que assumiu o poder em 2013, o governo deixou a ameaça da tuberculose escapar de seu controle. Especialistas temem que a nação esteja à beira de uma epidemia de tuberculose.

Uma alta porcentagem de venezuelanos pode já ser portadora de tuberculose latente. E como o sistema de saúde está caindo aos pedaços, a capacidade do governo de responder entrou em colapso.

Algumas partes do país começaram a relatar déficits nos medicamentos para tuberculose e especialistas disseram que o governo recentemente suspendeu a distribuição dos antibióticos usados para tratar a doença, supostamente por preocupação de que eles estivessem desaparecendo no mercado negro. Depois de uma parada de três semanas, disseram os médicos, a distribuição foi retomada lentamente.

A falta de equipamentos e pessoal levou algumas clínicas e hospitais a fecharem parte ou todos os seus programas de testes. Alguns dos que permanecem funcionando documentaram trajetórias preocupantes.

De 2013 a 2015, cerca de 5% dos pacientes adultos avaliados anualmente na clínica de tuberculose do Hospital Dr. José Ignacio Baldó, em Caracas, foram diagnosticados com a doença, de acordo com Zhenia M. Fuentes, coordenadora da clínica. Mas até o final de 2017, essa taxa subiu para cerca de 9% e, depois, aumentou ainda mais em janeiro, para cerca de 14%, disse ela.

Os médicos dizem que as taxas de infecção na Venezuela provavelmente ainda estão bem abaixo dos níveis que afligem os países, principalmente na África subsaariana e na Ásia, que têm as piores epidemias de tuberculose. Ainda assim, dizem os especialistas, há pouco para evitar que as infecções na Venezuela se descontrolem.

Especialistas do país elogiaram a atual diretora do programa nacional de prevenção da tuberculose por seus esforços para continuar, inclusive usando seu próprio dinheiro para pagar as substâncias para fazer as culturas de detecção.

Mas eles disseram que a diretora, Mercedes España, teve seu trabalho dificultado por uma aparente falta de compromisso do governo Maduro para lidar com as várias crises de saúde da nação.

A administração de Maduro não respondeu aos pedidos de entrevistas por e-mail.

“Há uma ruptura de ética aqui”, disse Oletta, acusando o governo de demonstrar mais preocupação com sua posição política do que com a saúde pública.

"O resultado disso é mais injustiça com a saúde, mais sofrimento, mais doenças, mais mortes", disse Oletta./ Isayen Herrera contribuiu com a reportagem.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.