Kentaro Ikushima/Jornal Mainichi via Associated Press
Kentaro Ikushima/Jornal Mainichi via Associated Press

Tufão expõe pontos fracos das pistas de pouso no Japão

Alta do nível do mar ameaça aeroportos que estão localizados em baixas altitudes

Hiroko Tabuchi, The New York Times

21 Setembro 2018 | 15h00

Quando um poderoso tufão cortou o Japão no início do mês, os viajantes no aeroporto internacional de Kansai viram pela janela um vazio assustador: nada além do mar onde deveria haver uma pista de decolagem.

Também viram o que pode ser considerada uma amostra de um perigos futuros para os aeroportos de baixa altitude em todo o mundo, cada vez mais vulneráveis à alta do nível do mar e a tempestades mais extremas provocadas pela mudança climática. Um quarto dos 100 aeroportos mais movimentados do mundo fica a uma altitude inferior a 10 metros acima do nível do mar, de acordo com dados do Conselho Internacional de Aeroportos e da OpenFlights.

Doze desses aeroportos - incluindo os centros de transportes aéreos de Xangai, Roma, San Francisco e Nova York - ficam a menos de cinco metros acima do nível do mar.

“Ficamos presos", disse Takayuki Kobata, empreendedor da internet que esperava embarcar num voo para Honolulu saindo de Kansai, um imenso aeroporto construído sobre uma ilha artificial perto de Osaka. “Só nos restava esperar a tempestade passar.”

Ele passou quase 36 horas tentando encontrar uma forma de sair da ilha inundada, tarefa que se tornou ainda mais complicada depois que um navio foi arrancado do atracadouro e arremessado contra a ponte que liga o aeroporto a Osaka, afetando muito a passagem.

A ameaça da alta das águas é como um acerto de contas para uma indústria que está entre as que mais contribuem para a mudança climática. As viagens aéreas respondem por cerca de 3% das emissões de gás-estufa em todo o mundo, mas é uma das fontes de emissões que crescem mais rapidamente. Mantidas as tendências atuais, as emissões resultantes das viagens aéreas internacionais vão triplicar já em 2050, de acordo com previsão da Organização da Aviação Civil.

Enquanto a indústria da aviação tenta lidar com sua pegada de carbono, ela começou também a sentir os efeitos do aquecimento global. O calor extremo pode impedir as decolagens porque o ar mais quente e rarefeito dificulta a sustentação. Um clima em transformação também pode levar a mais turbulências.

Áreas de baixa altitude perto da água sempre foram vistas como locais ideais para a construção de pistas de pouso e terminais, pois há menos obstáculos para a decolagem e aterrissagem. Mas a costa oferece pouca proteção natural contra enchentes e ventos fortes.

No geral, o clima extremo e a alta do nível do mar representam uma ameaça urgente para muitos dos aeroportos mais movimentados do mundo, muitos dos quais não foram projetados levando o aquecimento global em consideração.

Em 2012, o Furacão Sandy inundou todos os três aeroportos que atendem Nova York, afetando os transportes aéreos durante dias. O Tufão Goni fechou as pistas do aeroporto internacional Hongqiao, nos arredores de Xangai, em 2015. As piores enchentes em quase 100 anos em Kerala, na Índia, deixaram mais de 400 mortos no mês passado e obrigaram o aeroporto de Cochin, importante centro regional de transportes aéreos, a fechar por duas semanas.

Kansai fica numa ilha a uma distância de cinco quilômetros da costa, construída ao longo de uma década usando duas montanhas de cascalho e areia. O aeroporto, inaugurado em 1994, foi construído na Baía de Osaka em parte para minimizar o problema do barulho, mas também para evitar os protestos envolvendo o direito às terras como os que costumam afetar aeroportos mais antigos no Japão, como o de Narita, que atende à região de Tóquio.

Os sinais de problemas vieram já no início. Os engenheiros esperavam que a ilha afundasse, em média, menos de um terço de metro por ano ao longo de 50 anos contados a partir do início da construção, conforme o leito do mar se assentava sob o peso da estrutura. Mas a ilha afundou mais de nove metros nos primeiros sete anos, e continuou afundando até perder 13 metros de elevação.

Nesse ritmo, pelo menos uma das duas pistas do aeroporto será completamente coberta pelas ondas já em 2058, de acordo com previsões pessimistas feitas em um estudo de 2015 de autoria do professor de engenharia civil Gholamreza Mesri, da Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, e do engenheiro geotécnico J.R. Funk. E, com a alta do nível do mar, acrescentou o professor Mesri, o aeroporto pode ficar submerso ainda antes.

“Não será mais um aeroporto, e sim uma lagoa", disse ele. Para ficar acima das ondas, o aeroporto de Kansai está bombeando água do leito oceânico logo abaixo para acelerar o assentamento. O terminal principal repousa sobre palafitas gigantes que podem ser aumentadas para manter os alicerces nivelados. O aeroporto também usa bombas gigantes para drenar as pistas de pouso após as chuvas pesadas, e acrescentou uma série de muralhas oceânicas no perímetro da ilha.

Os engenheiros tinham alegado que as muralhas seriam altas o bastante para resistir a tempestades tão fortes quanto um poderoso tufão de 1961 que provocou uma maré ciclônica de quase 3 metros. Mas o Tufão Jebi, que deixou 11 mortos ao cortar o oeste do Japão este mês, produziu uma maré ciclônica de aproximadamente três metros, um recorde para a Baía de Osaka. As ondas superaram as muralhas oceânicas do aeroporto e sobrecarregaram as bombas.

Em coletiva de imprensa realizada no dia 6 de setembro, o presidente da empresa responsável pela operação do aeroporto pediu desculpas. “Nós nos preparamos para um tufão, mas o tufão foi muito mais poderoso do que supusemos", disse ele. “Fomos demasiadamente otimistas.”

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