Carla Klehm via The New York Times
Carla Klehm via The New York Times

Túmulos com mais de 5 mil anos revelam rituais de povos africanos

Centenas de corpos foram encontrados em pedras cuidadosamente esculpidas por alguns dos primeiros pastores da África Ocidental

Karen Weintraub, The New York Times

15 Setembro 2018 | 11h00

Há cerca de 5.300 anos, um grupo de antigos pastores de ovelhas na África Oriental deu início a uma prática extraordinária para cuidar de seus mortos.

Foi uma época de grande tumulto na pátria deles. Mudanças climáticas globais tinham enfraquecido o sistema africano de monsões, levando a uma queda significativa na precipitação. A atividade pastoril se espalhou para o sul a partir do Saara. O atual Lago Turkana, no norte do Quênia, encolheu até a metade de seu tamanho nos séculos subsequentes.

Esses pastores escavaram cerca de 90 metros quadrados de areia da praia até chegarem à rocha matriz, abrindo túmulos ali. Era aonde levavam seus mortos: no local foram encontrados os corpos de homens, mulheres e crianças, muitos acompanhados de objetos pessoais e ornamentos.

Quando os espaços cavados por eles ficaram cheios, os pastores empilharam corpos sobre os túmulos, cuidadosamente depositando pedras grandes sobre a cabeça e o tórax de cada corpo. Fizeram isso por cerca de 700 anos, enterrando pelo menos 580 pessoas, e talvez até mil no total, de acordo com um estudo publicado em agosto na Proceedings of the National Academy of Sciences.

Então, por razões que os cientistas não compreendem, mais ou menos quando o Lago Turkana parou de encolher, eles decidiram parar de enterrar seus mortos segundo esse costume. O túmulo ainda não estava cheio, mas os pastores o cobriram com pedrinhas e, para deixar marcado o local, conseguiram arrastar uma dúzia de gigantescos pilares de basalto, levados até ali de uma distância de um quilômetro ou mais.

"Depois que a paisagem se estabilizou, talvez essas âncoras sociais tenham perdido parte da importância", disse Elisabeth Hildebrand, principal autora do estudo e professora de antropologia da Universidade Stony Brook, em New York.

Agora chamado de Sítio Norte dos Pilares Lothagam, o lugar nunca mais foi usado como túmulo, e permaneceu virtualmente intocado até que uma equipe de pesquisadores comandada pela Elisabeth Hildebrand começou a examiná-lo. Há cinco outros locais ao redor do lago marcados por pilares semelhantes.

"Do começo ao fim, ao longo de um período que durou pelo menos alguns séculos, as pessoas demonstraram um alto grau de intenção e planejamento na cuidadosa implementação dessa ideia, segundo a qual todos deveriam ser enterrados juntos nesse lugar específico", explicou Elisabeth.

De acordo com a pesquisadora Susan McIntosh, professora de antropologia da Universidade Rice, no Texas, essa ideia contradiz a noção amplamente aceita segundo a qual foi somente após a urbanização que as pessoas se tornaram organizadas o bastante para construir estruturas complexas, como cemitérios. Susan tambpem aponta que as escavações em sítios como Lothagam Norte, Gobekli Tepe na Turquia e Poverty Point, na Louisiana, mostram que antigas populações nômades também eram capazes de obras monumentais.

O túmulo encontrado, por sua vez, também indicava a ausência de uma hierarquia.

"Este era realmente um lugar que contemplava todas as idades e estágios da vida", disse a pesquisadora Elisabeth Hildebrand.

Ela afirmou que continua impressionada com o fato de esse povo antigo do Lago Turkana ter reagido ao desgaste de tantas mudanças simultâneas recorrendo à colaboração, e não ao conflito.

"São pessoas que reagiram a condições muito difíceis, que devem ter representado grandes desafios estratégicos e emocionais, enfrentando-as com excepcional criatividade e espírito comunitário", explicou. “É algo importante [para o momento atual] porque, com todas essas mudanças ao nosso redor, precisamos manter nosso sentido de comunidade e descobrir como vamos enfrentar isso coletivamente".

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