Alana Paterson para The New York Times
Alana Paterson para The New York Times

'Turismo neonatal' vira polêmica no Canadá

Número crescente de gestantes, a maioria chinesa, que opta por dar à luz no país tem despertado críticas no meio político

Dan Bilefsky, The New York Times

11 Janeiro 2019 | 06h00

RICHMOND, COLÚMBIA BRITÂNICA - Melody Bai chegou em Vancouver vinda da China nos estágios finais da gestação com um objetivo: dar à luz um bebê canadense. Ela era aguardada por um elaborado sistema que atende gestantes vindas da China, incluindo uma espaçosa “fábrica de bebês” onde ela passou quatro meses, atendida por uma governanta que falava mandarim.

As atendentes ofereciam massagens gratuitas nos seios para promover a lactação, saídas até o shopping e aulas a respeito do parto para turmas de futuras mães da China. “É um investimento no ensino do meu filho", disse Melody, 28 anos, direto de Xangai, depois de voltar à China com o recém-nascido e o passaporte nas mãos. “Escolhemos o Canadá por causa das vantagens do seu ambiente natural e social.” Melody faz parte de um crescente fenômeno no Canadá conhecido como turismo neonatal, que está despertando uma oposição política e mobilizando justiceiros determinados a detê-lo. Não há nada de ilegal na prática.

Sob o princípio de jus soli - o direito de solo -, basta nascer no Canadá para receber automaticamente a cidadania do país. Mas, com a chegada de um número cada vez maior de gestantes a cada mês, alguns canadenses estão protestando e dizendo que as grávidas estrangeiras estão abusando do sistema, testando os limites da tolerância e depreciando a ideia de cidadania.

Em Richmond, cidade próxima a Vancouver onde aproximadamente 53% dos cerca de 200 mil habitantes são descendentes de chineses, mães que não residem no país correspondem a um quinto dos partos no Hospital de Richmond, a maior proporção de partos de estrangeiros observada no país.

“O turismo neonatal pode estar dentro da lei, mas é antiético e inescrupuloso", disse Joe Peschisolido, parlamentar liberal de Richmond, que apresentou a petição contra a prática em Ottawa, capital do país. Essa prática demonstra como o Canadá, principalmente a Colúmbia Britânica, tornou-se um santuário procurado por chineses que buscam um refúgio para sua riqueza e seus parentes fora de uma China autoritária.

Pelo menos 30 países, incluindo Estados Unidos, México e Brasil, concedem cidadania automática aos nascidos em seu solo. Outros, como Grã-Bretanha e Austrália, adotaram leis mais rigorosas ao exigir que pelo menos um dos pais seja cidadão ou tenha residência permanente no país na época do nascimento do bebê.

O Partido Conservador promoveu uma moção não vinculante pedindo a abolição da concessão incondicional do direito à cidadania. Com seus imensos mercados chineses, os jornais publicados em mandarim e o grande número de cuidadores que falam o idioma, Richmond se tornou o marco zero para turistas neonatais vindos da China.

Há cerca de duas dúzias de fábricas de bebês em funcionamento. Algumas operam abertamente, enquanto outras se disfarçam como agências de turismo ou se apresentam como casas para aluguel de temporada. Algumas ficam em lares particulares. Outras, em apartamentos. Muitas são contratadas por meio de intermediários na China.

Alguns moradores de Richmond dizem que o turismo neonatal está desgastando o tecido social da comunidade. Kerry Starchuk, que liderou a campanha da petição ao lado de Peschisolido, registra as fábricas de bebês em seu bairro e repassa as informações a jornais e autoridades da região. Kerry se queixa do fato de os turistas neonatais roubarem as vagas de mães canadenses nas maternidades, preocupação ecoada por algumas enfermeiras da região, e obtêm acesso aos serviços públicos sem pagar impostos.

Melody disse que, levando em consideração o alto preço que ela teve de pagar para ter seu filho em Vancouver - 60 mil dólares canadenses, incluindo hospedagem e hospitalização -, ela estaria subsidiando o sistema de saúde canadense e injetando dinheiro na economia local. “Meu filho não vai aproveitar nenhum dos benefícios do sistema de saúde canadense, pois vivemos na China", disse ela.

Mas, como o filho dela é canadense, ela e o marido, um piloto, poderão poupar as mensalidades escolares recorrendo a um colégio internacional em Xangai. Posteriormente, o filho também poderá frequentar uma universidade canadense pagando a mensalidade local com desconto. No fim, a família inteira poderá imigrar para o Canadá. Alguns descendentes da primeira e segunda geração de imigrantes se opõem aos turistas neonatais por furar a fila. Wendy Liu, que mora em Richmond há 11 anos, concorda. “Não me parece justo vir até aqui, ter seu filho e voltar com ele na mala". /​ Daisy Xiong contribuiu com a reportagem.

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