Victor J. Blue/The New York Times
Victor J. Blue/The New York Times

A Broadway está às escuras, a ilha da Estátua da Liberdade está vazia. Os turistas retornarão?

Empresários tentam pensar em planos para reviver uma indústria que arrecada US$ 45 bilhões anualmente e é responsável por 300 mil empregos

Patrick McGeehan, The New York Times - Life/Style

27 de agosto de 2020 | 05h00

NOVA YORK - Os teatros da Broadway e os museus continuam fechados. Os Estados Unidos proibiram a entrada de visitantes da China, Brasil e de grande parte da Europa. O governador Andrew Cuomo ordenou uma quarentena para os que chegam à cidade vindos de 31 Estados americanos.

Meses após Nova York se fechar para combater o coronavírus, o seu crucial setor de turismo continua paralisado mesmo com a cidade se esforçando para dar novo impulso à economia moribunda.

O enorme desafio enfrentado pela cidade ficou bem visível quando a Estátua da Liberdade foi reaberta. Em vez de transportarem as costumeiras multidões de visitantes de todo o mundo, os primeiros barcos que chegaram à ilha traziam mais jornalistas do que clientes pagantes.

Times Square, normalmente congestionada de turistas, estava praticamente vazia. “Isto não está ocorrendo”, disse Swathi Roja, que vive em Washington. “Talvez não tenha chegado à real cidade de Nova York”.

O abrupto lockdown em março foi instaurado pouco antes da investida anual de turistas quando as temperaturas começam a subir. As autoridades esperavam mais de 67 milhões de visitantes em 2020, um quinto deles vindo de fora do país.

Agora os responsáveis pelo turismo da cidade estão se perguntando como reviverão um setor que proporciona cerca de US$ 45 bilhões ao ano decorrentes de gastos feitos pelos visitantes e que sustenta 300 mil empregos.

Nunca, desde os lúgubres dias na década de 1970, quando a onda de crimes era desenfreada, o metrô era uma confusão e vitrinas de lojas vedadas eram abundantes - promover Nova York para visitantes de fora foi tão desafiador, disse Jonathan Tisch, diretor executivo do Loews Hotel e antigo chairman da NYC & Co., agencia de marketing de turismo da cidade.

“Existem todos os tipos de desafios que vão tornar nossa tarefa de reconstruir o turismo e a economia da cidade ainda mais difícil”, disse Tisch, que trabalhou na linha de frente dos hotéis da sua família desde que era estudante universitário, nos anos 1970.

Segundo ele, o processo de reconstruir a cidade como um local seguro e alegre para visitar vai levar tempo e será necessária ajuda dos governos do Estado e da cidade. Hotéis e restaurante, confiando no apoio prometido pelas autoridades eleitas, vêm buscando isenções fiscais e deduções dos aluguéis.

“Conseguiremos sobreviver”, acrescentou ele.

Tisch é um entre as dezenas de líderes de empresas dependentes do turismo que têm delineado planos para uma recuperação do setor da sua mais longa e drástica recessão de que se tem memória. A situação é diferente da breve paralisação da cidade após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 porque os americanos na época estavam imbuídos de uma ânsia patriótica para ajudar a cidade a se recuperar, afirmou.

Duas noites após os ataques, no dia 13 de setembro, as peças e shows retornaram a todos os teatros da Broadway.

Mas desta vez, como os espaços internos confinados facilitam a propagação do vírus, os teatros devem continuar às escuras até o próximo ano. Sem os shows que são o coração pulsante da cidade centenas de hotéis e restaurantes em Manhattan vêm lutando para sobreviver a 2020.

“A percepção é de que, se a Broadway se mantém fechada, a cidade também fecha”, disse Tisch.

Na segunda semana de julho a taxa de ocupação dos hotéis da cidade foi de apenas 37%, de acordo com a empresa de pesquisa STR, uma forte queda em comparação com os 90% registrados em verões recentes.

“Achamos que é cedo para incentivar as viagens e convidar as pessoas a retornarem”, disse Fred Dixon, diretor executivo da NYC & Co. Segundo ele, nos últimos meses não se fala em turismo e ele não tem ideia de quantos visitantes chegarão neste ano.

Assim, em vez de promover a cidade nas capitais internacionais e outros lugares mais distantes como normalmente faz, a agência estreitou o foco e se fixou em Nova York e áreas adjacentes.

Em julho, a cidade lançou uma campanha chamada "All in NYC", criada pela empresa de marketing Aruliden com o fim de despertar o interesse dos moradores locais em explorar a cidade e visitar seus pontos turísticos.

No momento, a cidade vai depender talvez de pessoas como Shin Roldan, 31 anos, e seu marido Keith. O casal que vive em Morristown, Nova Jersey, realizou sua viagem de lua de mel depois de um “casamento na pandemia” no seu quintal, disse ela.

Apesar das várias limitações, eles estavam desfrutando da sua estadia no hotel no centro de Manhattan, tomaram o metrô para a Roosevelt Island no East River e planejavam subir até o deck de observação no alto do Empire State Building.

“Podemos tirar muitas fotos de nós dois apenas, sem ninguém ao lado. Este sempre foi um problema aqui em Nova York”, disse Keith Roldan.

A quarta fase de reabertura da cidade foi uma bênção para Brad Hill, cuja empresa opera as concessões na ilha da Estátua da Liberdade (Liberty Island) e vizinhança, permitindo a ele trazer de volta mais de 100 funcionárias que foram afastadas em meados de março. Mas com tão poucos turistas, abrir novamente talvez seja uma tentativa fracassada, disse.

Alguns dias antes o governador Cuomo mudou seus planos, excluindo os museus da lista de lugares que podiam ser reabertos, caso da Ellis Island, cuja principal atração são suas mostras e arquivos sobre a imigração que os visitantes podem examinar quando buscam registros de parentes.

Hill disse ter gasto US$ 60 mil preparando as áreas de alimentação e lojas de presentes nas duas ilhas de modo a receber os clientes respeitando o distanciamento social.

Hill disse ver flashbacks de recuperação dos fechamentos ocorridos no passado após o 11 de setembro e o furacão Sandy em 2012. “O único problema é que desta vez não há nenhum turista”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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