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Paige McClanahan, The New York Times - Life/Style

24 de maio de 2021 | 05h00

Então você se vacinou e, ansiosa, – finalmente planeja umas verdadeiras férias depois de um ano difícil, mas não quer contribuir para os problemas sobre os quais poderá ter lido: aglomerações, mudança climática, condições de trabalho injustas na indústria do turismo. O que faz um viajante plenamente consciente de tudo isto?

Para os que querem viajar de maneira responsável, a questão se resume ao seguinte: você precisa fazer o dever de casa.

Procurar um hotel ou uma operadora de turismo que tenha obtido o rótulo de sustentabilidade pode parecer uma boa decisão para começar, mas a realidade não é tão simples. Há cerca de 180 rótulos de certificação na indústria do turismo, cada um deles afirmando certificar as credenciais verdes de um hotel, restaurante, operadora de turismo ou mesmo destino. E embora alguns destes rótulos sejam bem aplicados, outros podem ser melhor descritos como greenwashing – que é quando uma companhia se apresenta como guardiã do meio ambiente, mas suas ações não correspondem à sua promoção.

“A gama é enorme – desde rigoroso, imparcial e excelente a francamente pobre”, disse Randy Durband, CEO do Global Sustainable Tourism Council, uma ONG que estabelece e administra os padrões globais de viagens sustentáveis. “Nós acreditamos firmemente no valor da certificação de terceiros, quando bem feita”, acrescentou. “Mas a maneira como o termo ‘certificação’ é usado no turismo é um pouco confusa”.

No entanto, embora os rótulos possam ser muito conhecidos, muitas empresas estão acordando agora para a importância de melhorarem seu desempenho ambiental e social, afirmou Andrea Nichols, CEO da Green Tourism, um organismo de certificação de Edimburgo, Escócia, com mais de 2.500 membros. A pandemia trouxe o conceito de turismo sustentável cinco ou dez anos à frente, acrescentou. Antes disso, muitas empresas consideravam a sustentabilidade um “complemento”.

“O que estamos vendo agora, pelo interesse que estamos despertando, é que este se tornou um elemento obrigatório”, afirmou.

Há alguns sinais promissores e que os clientes, também, estão acordando para as consequências de suas férias. Mais de dois terços das pessoas que foram ouvidas em uma recente pesquisa global para a American Express Travel disseram que "estão tentando se mostrar mais conscientes da importância das marcas de viagens responsáveis em relação à sustentabilidade". Outra pesquisa, para a Booking.com, constatou que 69% dos mais de 20 mil respondentes “esperam que a indústria de turismo ofereça mais opções de viagens sustentáveis”.

Mas o que significa “viagem sustentável”?

Considerando a diversidade de destinos e contextos que um viajante pode encontrar, não há uma resposta universal ao significado. A eficiência de um hotel em matéria de água é muito mais importante na costa mediterrânea da Espanha, região caracterizada pela seca, do que na Escócia ocidental, encharcada de chuva, por exemplo.

Mas os especialistas afirmam que o conceito diz respeito a muito mais do que apenas o reuso de toalhas em seu quarto de hotel ou do que a compra da compensação de carbono para o seu voo, embora estes sejam bons lugares para começar.

A sustentabilidade diz respeito também aos salários e às condições de trabalho das pessoas que servem a mesa no seu navio de cruzeiro ou os que carregam a sua bagagem por uma trilha; diz respeito à pressão adicional que você pode estar colocando em um lugar que é patrimônio da humanidade, um sítio arqueológico, uma cidade ou uma área natural; diz respeito à possibilidade de o seu hotel comprar produtos de uma fazenda nas proximidades ou de um fornecedor do outro lado do mundo, ou de o dinheiro que você gasta ir para a comunidade que você está visitando ou para uma conta distante de uma multinacional.

“O que você deve fazer é casar a responsabilidade social corporativa com um turista bem informado que entende o que está pedindo, e exige isso”, disse Feya Higgins-Desbiolle, professora assistente de turismo na Universidade da Austrália do Sul. Ela fez uma lista de algumas perguntas que os viajantes deveriam fazer a si mesmos antes de pensar em uma viagem: Como posso viajar em um período fora de pico? Como posso ir para lugares que não estão superlotados? Como posso garantir que o dinheiro que eu gasto se destinará à economia local?

Como fazer a lição de casa

Fazer perguntas –enquanto estamos viajando e, o que é mais importante, antes de fazer uma reserva –  é uma das coisas eficientes que os viajantes podem fazer, disse Gregory Miller, diretor executivo  do Centro para Viagens Responsáveis de Washington. Ele recomenda que as pessoas comecem consultando cuidadosamente os sites das operadoras de turismo, hotéis e destinos que estão considerando. Se não encontrarem nada sobre sustentabilidade, “isso deve ser um sinal de alerta”, afirmou.

Além disso, ele sugere que os viajantes verifiquem a lista de dicas de viagens responsáveis, que incluem recomendações como contratar guias locais, pedir permissão antes de tirar fotos das pessoas, não sair das trilhas designadas em áreas naturais e pensar duas vezes antes de distribuir dinheiro às crianças. Enquanto estão viajando, disse Miller, as pessoas não deveriam ter medo de fazer perguntas difíceis sobre o seu serviço aos fornecedores, ou pedir para tirar lixo ou acabar com abusos sempre que os virem – diretamente a um gerente ou em um comentário on-line.

“A certificação pode ser uma ferramenta, mas não fique limitado a isso”, prosseguiu. “É sobre escolhas, e os viajantes têm escolha”.

Susanne Etti, especialista em impacto ambiental da Travel Intrepid, uma operadora de tours global da Austrália, tinha outras sugestões para os viajantes. Eles poderiam começar verificando a lista de mais de 230 organizações de viagens que fazem parte da iniciativa Tourism Declares, cujos membros prometeram publicar um plano de ação sobre o clima e cortar as emissões de carbono.

Reconsiderar o que significa viajar

Muitos viajantes precisam mudar de mentalidade, afirmou Dominique Callimanopulos, diretora da Elevate Destinations, uma operadora de viagens internacionais sediada em Massachusetts, que ganhou diversos prêmios por seu compromisso com a sustentabilidade. As pessoas deveriam aprender a ver as próprias viagens como uma oportunidade de intercâmbio com uma comunidade anfitriã e não como uma simples transação comercial. Segundo Callimanopulos, até a sua clientela inclinada à sustentabilidade raramente faz o dever de casa: ela recebeu mais perguntas sobre a disponibilidade de secadores de cabelo do que sobre as práticas sociais ou ambientais.

“As pessoas podem mudar o seu modo de pensar apenas no que se refere a como a sua experiência pessoal será diante do impacto destas experiências no local, no destino e na comunidade,” concluiu. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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