Tara Todras-Whitehill para The New York Times
Tara Todras-Whitehill para The New York Times

Estrela do rock ajuda a reviver música turca dos anos 70

Gaye Su Akyol faz letras e sons ambíguos que até os pais turcos amam

Alex Marshall, The New York Times

15 de janeiro de 2020 | 06h20

ISTAMBUL - A estrela do rock turco, Gaye Su Akyol, apresentou-se recentemente em um show nos arredores de Istambul para um público cheio de jovens mulheres. Mas os fãs no evento também incluíam homens de meia idade - um sinal de que a cantora se tornou a maior esperança da música rock turca.

Gaye, 34, conquistou um grande número de fãs revivendo - e reinventando - o rock psicodélico, um som que foi muito popular na Turquia nos anos 70. Ece Diler, 27, uma das mulheres na multidão, disse: “Gaye canta estas antigas canções melancólicas que os nossos pais ouviam, mas as interpreta com o seu estilo pessoal, então ainda é empolgante”.

Nos anos 70, alguns dos maiores astros da música da Turquia fundiram as melodias tradicionais da música folclórica com o rock psicodélico produzindo um som totalmente pessoal, segundo Daniel Spicer, autor de um livro sobre a história da música psicodélica turca.

A década foi uma época turbulenta no país, quando grupos da esquerda e da direita entravam em confronto em Istambul.

“Alguns músicos tomaram posição e se colocaram ao lado do povo”, afirmou Spicer. “Para isto, adotaram o rock’ n’ roll e criaram este híbrido, com a introdução de instrumentos tradicionais e de elementos característicos da música da época”.

Mas suas canções desapareceram das rádios turcas depois do golpe militar de 1980, acrescentou. Na época, a polícia prendeu mais de 500 mil pessoas.

Gaye explicou por que razão o rock psicodélico turco foi tão importante. “Ele tem uma filosofia própria, sua própria matemática”, afirmou. “É algo que não pode ser copiado por outra cultura. É por isso que continua vivo”.

O velho rock psicodélico turco era tocado em sua casa enquanto ela crescia, contou a cantora, mas ela era uma das poucas pessoas da sua faixa etária que gostavam do estilo.

“Depois do golpe, o povo turco se distanciou de sua própria cultura”, ela disse.

A popularidade de Gaye decorre não apenas do fato de ela ter revitalizado estilos antigos, mas também de sua sinceridade, principalmente a respeito das questões das mulheres do seu país.

“Ela tem a coragem de dizer o que sente e o que quer, e isto é algo que não pode ser subestimado na Turquia de hoje”, afirmou Cem Kayiran, o editor musical de uma revista para os jovens de Istambul.

Gaye toma o cuidado de não falar diretamente dos políticos, como o presidente Recep Tayyip Erdogan, que reprime a liberdade de expressão.

No entanto, muitos consideram suas letras ambíguos comentários sobre o governo de Erdogan ou sobre a situação da Turquia. Certa vez a polícia pediu a Gaye que explicasse a canção Nargile, que diz a certa altura: “Você nos vendeu mesmo! Você tem um palácio, mas são apenas quatro paredes vazias”. Ela disse que sua intenção era falar  “do poder que em toda parte destrói as pessoas”.

Nem todos os músicos turcos são tão indiretos. Em setembro, o rapper Saniser lançou Susamam (“Não posso calar”), um disco de 15 minutos que se queixa do sofrimento do povo turco, e teve mais de 39 milhões de visualizações no YouTube.

Gaye disse que gosta da linguagem direta da canção, mas que ela prefere ser mais enigmática. “Gosto do mistério das letras”, ela disse. “Você pode abrir a porta com sua própria chave”.

No show, realizado perto de Istambul, suas letras misteriosas aparentemente não foram nenhum problema para os seus fãs, jovens ou velhos. Houve filas depois do espetáculo para as selfies.

“Eles estão fascinados”, ela disse. Mas não falaram com ela das complexidades do rock turco. “Eles só dizem: ‘Adoro você’ ou ‘Você me dá esperança’ ”. Ela sorriu. “Acho que a ideia é esta mesma”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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