Tara Todras-Whitehill / The New York Times
Tara Todras-Whitehill / The New York Times

Turquia silencia os próprios críticos, mas deixa que exilados se manifestem

Para o governo do presidente Erdogan, receber bem os exilados é uma continuação do seu apoio oferecido durante os levantes da Primavera Árabe

Ben Hubbard, The New York Times

18 de abril de 2019 | 06h00

ISTAMBUL - O produtor faz a contagem regressiva enquanto a música ganha volume, e um novo episódio do programa de atualidades Syria Today entra no ar ao vivo na TV, transmitindo uma programação favorável à oposição para os sírios que a guerra civil espalhou pelo mundo. Cenas semelhantes de dissidência são vistas diariamente em Istambul, onde incensados oradores do Egito, do Iêmen e de outras partes do mundo árabe enfrentam os governos opressores do Oriente Médio a partir da relativa segurança da capital da mídia turca.

Depois que os levantes da Primavera Árabe foram sufocados pela restauração dos ditadores ou degringolaram em brutais guerras civis, Istambul emergiu como um santuário para muitos dos políticos, ativistas, rebeldes e jornalistas árabes que tentaram levar a história para um rumo diferente nos países em que nasceram - e foram derrotados.

Em Istambul, eles constroem novas vidas, dão sequência na luta e evitam a prisão (ou pior) em seus países de origem. Trata-se de membros da Irmandade Muçulmana, do Egito; combatentes rebeldes da Síria e da Líbia; ativistas políticos do Iraque e do Iêmen; dissidentes da Arábia Saudita e da Jordânia; até ex-membros do parlamento do Kuwait.

Eles vieram para cá por causa de uma razão principal. “Não havia nenhum outro lugar", afirmou Azzam Tamimi, fundador da emissora Al Hiwar TV, há muito usada como plataforma por dissidentes árabes. Ainda que a sede do canal seja em Londres, a decisão de abrir um estúdio em Istambul facilitou a participação de convidados em programas de entrevistas. “Estão todos aqui", garantiu.

Para o governo do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, receber bem os exilados árabes é uma continuação do seu apoio oferecido durante os levantes. Ao permitir que dissidentes de destaque se manifestem a partir de Istambul, Erdogan reforça sua influência no mundo árabe, por mais que isso irrite os líderes dos países vizinhos. “Às vezes, há países que nos procuram dizendo que hospedamos ‘pessoas que são contra nós, que estão fazendo transmissões contra o Egito’, por exemplo", disse Yasin Aktay, membro sênior do Partido Justiça e Desenvolvimento, de Erdogan. “Dizemos a eles que há muito a criticar porque há violações dos direitos humanos em andamento".

Mas, com frequência, exilados árabes têm mais liberdade de expressão do que seus colegas turcos. Depois de uma tentativa fracassada de golpe contra Erdogan, em 2016, milhares de acadêmicos, advogados, jornalistas e políticos da oposição foram detidos, e a Anistia Internacional informou que pelo menos 180 veículos de notícias foram fechados. “Tenho uma missão a cumprir em Istambul, e os turcos não se envolvem no nosso trabalho político ou jornalístico", pontuou Ayman Nour, ex-advogado que se candidatou a presidente do Egito há mais de uma década. Ele passou algum tempo detido no país e fugiu em 2013 depois que o presidente Abdel Fattah el-Sisi tomou o poder por meio de um golpe militar.

“Nenhum de nós desiste da ideia de um dia voltar para casa", acrescentou ele. “Não somos imigrantes, e sim exilados”. No ano passado, o status de santuário da cidade foi manchado pelo assassinato do dissidente saudita Jamal Khashoggi nas mãos de agentes sauditas no consulado do reino em Istambul. Mas Nour indicou que a indignação diante do assassinato pode ter conferido aos exilados uma proteção extra, já que outros países árabes pensariam duas vezes antes de incorrer no tipo de reação negativa global voltada recentemente contra os sauditas.

Ainda assim, pediu-se aos dissidentes da Arábia Saudita que mantivessem a discrição para não prejudicar os laços entre turcos e sauditas, informou um exilado do país. A chegada de 3,6 milhões de refugiados fugindo da guerra na Síria sublinhou o perfil árabe de Istambul. Pode-se ouvir o idioma nas ruas da cidade, que hoje conta com um maior número de restaurantes, padarias, casas noturnas e mesquitas árabes. Alguns dos exilados estão construindo vidas novas em Istambul.

Alguns anos atrás, Majdi Nema era porta-voz do Exército do Islã, poderoso grupo insurgente que combateu soldados do governo sírio. Mas Nema, de 31 anos, desistiu depois que o líder do grupo foi morto num ataque aéreo em 2015, e mudou-se para Istambul. Ele estuda turco e pensa em seguir para o doutorado, já que não tem muita esperança em um retorno à Síria, dado o andamento da guerra. “Se a revolução ainda não estava perdida, logo estará", disse Nema. “Assim, é preciso que haja outra coisa”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

Tudo o que sabemos sobre:
TurquiaOriente MédioExilado

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.