Stephen Crowley/The New York Times
Stephen Crowley/The New York Times

Por dentro do esforço da Ucrânia para cultivar uma amizade com Trump

Ex-presidente ucraniano, Petro Poroshenko elogiou Donald Trump, assinou acordos com empresas dos EUA e se reuniu com Rudolph Giuliani

Mark Mazzetti, Eric Lipton e Andrew E. Kramer, The New York Times

09 de novembro de 2019 | 06h00

WASHINGTON - Muito antes da chamada telefônica com o presidente da Ucrânia que desencadeou seu processo de impeachment, o presidente Donald Trump estava trocando favores políticos com um outro líder ucraniano. Petro Poroshenko, presidente até maio, lançou uma campanha para conquistar Trump que incluiu acordos comerciais e o congelamento de investigações criminais potencialmente prejudiciais para o americano. Desde o início, os assessores de Poroshenko buscaram maneiras de bajular o novo presidente dos Estados Unidos.

Uma análise mostra como a Casa Branca via essa relação transnacional, considerando que ela poderia ajudar Trump politicamente. Ávido por obter apoio enquanto os separatistas pró-Rússia intensificavam a luta contra seus militares, Poroshenko ajudou a plantar as sementes para o pedido que Trump fez em julho a seu sucessor, Volodymyr Zelensky - que ocasionou a investigação do processo de impeachment com base na suspeita de que Trump teria manipulado a política externa americana em relação à Ucrânia para obter ganhos pessoais.

Perto do fim de 2017, enquanto o governo em Kiev ainda tentava conseguir a aprovação final do governo Trump para a compra de lançadores de foguetes antitanque Javelin, o procurador-geral de Poroshenko, Yuriy Lutsenko, começou a congelar as investigações feitas na Ucrânia relevantes para a apuração do procurador especial Robert Mueller a respeito do envolvimento da Rússia nas eleições americanas de 2016.

Agora, os investigadores que atuam no pedido de impeachment estão examinando dois anos de interações entre Trump e Poroshenko, de acordo com um congressista do Partido Democrata. E a equipe de Zelensky está pesquisando as comunicações extraoficiais entre autoridades ucranianas e americanas - dos dois partidos políticos - desde 2017, de acordo com um ucraniano com conhecimento a respeito da iniciativa.

Em 4 de fevereiro de 2017, apenas duas semanas após o início do mandato de Trump, os dois líderes conversaram. O Super Bowl, grande final do campeonato de futebol americano, seria no dia seguinte e, portanto, os assessores de Poroshenko o orientaram a fazer elogios a Tom Brady, o novo quarterback do New England Patriots, admirado por Trump. Depois, ele pediu a um enviado especial que organizasse conversas para negociar um acordo com a Rússia.

Posteriormente, os assessores de Poroshenko decidiram pela compra de dezenas de milhões de dólares em carvão americano. Algumas das maiores minas da Ucrânia haviam acabado em território controlado pelos separatistas, o que cortou o abastecimento local de carvão. “Foi um acordo que agradou Trump”, afirmou Kostiantyn Yelisieiev, conselheiro-chefe de política externa de Poroshenko. “Ele tinha prometido trabalhar pelos mineiros de carvão da Pennsylvania. Era uma situação de vantagem para ambas as partes.”

E a Ucrânia também levava em conta outro elemento em sua busca por relações mais calorosas com o governo Trump: acolher Rudolph Giuliani, agora advogado pessoal do presidente, que já mantinha laços profissionais com a Ucrânia. Giuliani encontrou Poroshenko duas vezes em 2017.

Chegou a Kiev semanas depois que Paul Manafort o ex-chefe de campanha de Trump, foi indiciado por acusações relacionadas ao trabalho dele na Ucrânia. Os assessores de Trump estavam preocupados com a possibilidade de a continuação das investigações na Ucrânia fornecer mais combustível para a apuração de Mueller.

Em junho de 2017, Lutsenko assumiu o controle da investigação criminal que envolve Manafort. Ele paralisou as apurações ucranianas relacionadas à investigação de Mueller em abril de 2018. Naquele mesmo mês, o primeiro dos 210 lançadores de foguetes Javelin foi enviado à Ucrânia. Os equipamentos estão guardados em um armazém - prontos para serem usados no caso de um ataque da Rússia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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