Zoya Shu/Associated Press
Zoya Shu/Associated Press

Líder da Ucrânia testa o alcance de Putin

Ex-comediante tenta unir país fraturado

Andrew E. Kramer, The New York Times

08 de agosto de 2019 | 06h00

KIEV, Ucrânia - Um político espirituoso que entende o poder da televisão, conta com amplo apoio doméstico e, talvez menos importante, às vezes tira a camisa em público. E não estamos falando do presidente Vladimir V. Putin, que lidera a Rússia há quase 20 anos.

Este é Volodymyr Zelensky, o ex-comediante que se tornou presidente da Ucrânia em maio e deu prosseguimento à sua incomum ascensão ao poder com uma demonstração igualmente inesperada de habilidade diplomática.

Assessores de Zelensky insistem que seu foco é a reforma doméstica, e ele não teria interesse em se tornar o antagonista de Putin em uma região onde o líder russo é muito criticado, mas enfrenta poucos rivais.

Mas a rivalidade já é aparente. As relações da Ucrânia com a Rússia, que tomou parte do seu território em 2014 e segue apoiando um levante separatista mais amplo, é o ponto central de muitos dos problemas de segurança da Europa. Zelensky abordou a questão com uma mistura de assertividade calculada e generosidade estratégica, fazendo um aceno à população que fala russo, que jamais seria conquistada por seu antecessor nacionalista.

“Um dos motivos para esse conflito é o fato de os dois países terem escolhido rumos diferentes para o seu desenvolvimento", disse Bogdan Yaremenko, parlamentar recém eleito e membro do partido de Zelensky.

“Agora, o país é representado por esse ator, que é visto muito positivamente pelo público", disse ele. “Assim, a atitude positiva em relação a Zelensky pode ser transferida à Ucrânia, e à forma ucraniana de governo.”

O governo de Zelensky declarou um cessar-fogo que vem sendo respeitado, afastou soldados da linha de frente perto de um posto de controle para facilitar o acesso de civis, e investiu nas cidades fronteiriças da Ucrânia.

“É necessário conquistar antes de mais nada as mentes das pessoas", disse o general Ruslan Khomchak, chefe do estado-maior das Forças Armadas da Ucrânia.

“É impossível resolver o conflito na região do Donbass", acrescentou ele, referindo-se ao instável leste do país, “por meios puramente militares. O momento para isso já ficou para trás".

Putin respondeu à eleição de Zelensky com a oferta de passaportes russos a moradores de fala russa das áreas separatistas da Ucrânia, uma jogada que traz mau agouro, pois uma intervenção militar futura poderia ser justificada como operação de proteção a cidadãos russos.

Zelensky respondeu com um apelo à oposição russa. “Sabemos perfeitamente das vantagens do passaporte russo", disse ele. “Como o direito de ser detido em um protesto pacífico” e “a garantia de eleições cujo resultado é conhecido antecipadamente".

Ele ofereceu passaportes ucranianos ao “povo russo, que tanto sofre” sob um governo repressivo.

Zelensky, 41 anos, está na presidência há menos de três meses, e não faltam as oportunidades para equívocos. Seu gabinete é uma mistura de tecnocratas e conhecidos do universo da comédia cuja falta de habilidade no governo está se tornando evidente.

Ainda assim, os membros da sua equipe de política externa querem avançar o campo da batalha de ideias para além da Ucrânia e entrando na Rússia, aproveitando a longa experiência de Zelensky com o público russo em programas de comédia de baixo nível e filmes. Seu trabalho cômico é amplamente conhecido na Rússia.

O presidente formou um grupo para criar um canal de TV ucraniano em russo que seria transmitido para as áreas separatistas e teria apelo online dentro da Rússia. O nome de Zelensky já foi o segundo mais mencionado na mídia russa em julho, perdendo apenas para Putin, de acordo com a agência russa de notícias Interfax.

Em se tratando de questões substanciais, Zelensky tem se mantido fiel às políticas que a Ucrânia defendeu em relação à Rússia durante anos. A novidade está no poder brando da Ucrânia, disse Ivan Yakovina, colunista de política externa da revista ucraniana Novoye Vremya.

Ele disse que Putin, 66, via-se diante de uma situação não muito diferente da rainha má da história da Branca de Neve.

“A rainha se olha no espelho e pergunta, ‘Quem é a mais bela de todas?’” disse Yakovina. “E o espelho responde, ‘Na verdade, é uma jovem princesa que mora longe’.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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