Mary Turner / The New York Times
Mary Turner / The New York Times

Um crime que, segundo um dos ladrões, respeita os direitos humanos

Fred Foreman, hoje com 87 anos, carrega na memória o roubo de cerca de U$$ 9 milhões de uma das principais empresas de segurança de Londres

Dan Bilefsky, The New York Times

12 de julho de 2019 | 06h00

LONDRES - Foi em uma Sexta-feira Santa que cinco ladrões decidiram invadir uma empresa de segurança no leste de Londres. Quando um dos guardas, vendado e amarrado a uma cadeira, hesitou em revelar a combinação do cofre, a gangue colocou fluido de isqueiro sob as narinas dele, ameaçando acender um fósforo, lembrou recentemente um dos ladrões, Freddie Foreman. Os criminosos fugiram com £ 6 milhões, o equivalente a cerca de US$ 9 milhões na época do roubo, em 1983.

Ao relatar o episódio, Foreman, que descreve a si mesmo como “poderoso Chefão do crime britânico", agora com 87 anos, disse que a invasão da Security Express foi praticada respeitando os direitos humanos. “Oferecemos chá aos guardas, e tenho orgulho de dizer que ninguém foi parar no hospital", disse Foreman, cujo jeitão de avô é difícil de conciliar com a encarnação anterior, quando era capanga da gangue dos Krays, famosos bandidos gêmeos que atacavam em Londres entre os anos 1950 e 1960.

A jornada de Foreman foi marcada por diferentes momentos de necessidade, opulência, ameaça e aposta no instinto de sobrevivência. Era um dos cinco filhos de um taxista e uma dona de casa. A violência e a pobreza da infância em Londres durante a guerra ajudaram na sua formação. “Não tive escola", relembrou Foreman. “Se tivesse estudado, minha vida poderia ter sido diferente”.

A carreira de Foreman no crime começou nos anos 1940, aos 16, quando vivia em Battersea, no sul de Londres, que era na época um bairro violento. Ele disse ter sido aprendiz de uma gangue de ladras, que guardavam na roupa de baixo peças de roupa, joias e peles roubadas. “Elas gostavam de mim, eram moças simpáticas, e eu me tornei seu protetor", acrescentou. “Quando eu tinha 18 anos, minha mãe encontrou o revólver no armário do quarto", continuou. “Mamãe sabia o tipo de garoto que eu era, e me dizia: ‘Fred Foreman, você vai acabar na forca desse jeito’”.

Ele disse que tentou deixar o crime para trás, mas sentiu falta do “dinheiro fácil".  Seu verdadeiro ingresso no submundo do crime de Londres ocorreu nos anos 1960, quando foi recrutado pelos irmãos Kray, sob cuja tutela ele recebeu outro de seus apelidos: coveiro. Ele demonstrou arrependimento ao narrar seu envolvimento com os Krays.

Mas, em pouco tempo, Foreman passou a controlar um pedaço do sul de Londres, operando também pubs, casas de apostas e uma casa noturna.  Ele sublinhou que a violência foi um risco infeliz e às vezes necessário no trabalho, mas nunca uma finalidade em si. Sua principal motivação para o crime era o fato de ter uma mulher, Maureen, e três filhos para sustentar. “Não há desonra pior do que não conseguir sustentar a própria família", destacou. “Não sou um monstro”.

 

Foreman jamais foi condenado pelo roubo à Security Express, mas foi sentenciado a nove anos por receptação de propriedade roubada. Ao todo, passou 16 anos encarcerado por diferentes crimes. Agora, Foreman leva uma vida pacata, jantando rosbife com os demais vizinhos mais velhos do prédio. “Quase todos se foram", lamentou, apontando para uma foto de antigos comparsas da gangue dos Kray. “Sou o último que restou. Não sei o que fiz para escapar”./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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