Evan McGlinn para The New York Times
Evan McGlinn para The New York Times

Um desafio para tudo que a Nasa sabe sobre asteroides 

Dois anos depois de questionar o trabalho da agência espacial norte-americana, Nathan Myhrvold está de volta, e talvez esteja certo

Kenneth Chang, The New York Times

26 de junho de 2018 | 10h15

Milhares de asteroides passam o tempo todo perto da Terra. Embora as probabilidades de um choque direto com o planeta em breve, sejam escassas, mesmo um asteroide pequeno, com o tamanho de uma casa, poderia explodir liberando tanta energia quanto uma bomba atômica.

Por isso os cientistas da NASA, a agência espacial americana, estão encarregados de vasculhar os céus para localizar estas perigosas rochas que viajam pelo espaço. Se uma delas entrasse em rota de colisão com o nosso planeta, informações sobre o seu tamanho e a sua constituição seriam essenciais para desviá-lo, ou para calcular a destruição que poderia nos atingir.

Nos últimos anos, Nathan P. Myhrvold, um ex-diretor da área de tecnologia da Microsoft com um doutorado em física pela Universidade Princeton, tem incomodado os cientistas especializadas em asteroides afirmando que eles sabem menos do que imaginam a respeito destes objetos. Segundo ele, os dados da NASA nos quais eles se baseiam estão errados.

Desde 2011, um projeto da NASA conhecido como Neowise catalogou os tamanhos e a refletividade de 158 mil asteroides, e afirma que as estimativas de seus diâmetros eram aproximadamente 10% do tamanho real. Dr. Myhrvold disse que as incertezas eram muito maiores, porque os pesquisadores da NASA usavam dados de um satélite cuja tarefa é observar objetos distantes, e não asteroides próximos. “A ciência é terrível”, afirmou.

Agora, os seus argumentos foram publicados pela revista “Icarus”, uma das mais respeitadas publicações sobre ciência planetária. “Tenho pessoas que concordam que eu tinha razão” disse Myhrvold.

A disputa gira em torno dos dados coletados pelo Wide-field Infrared Survey Explorer, o telescópio espacial receptor de ondas infravermelhas da NASA, WISE na sigla em inglês, que vasculhavam os céus desde 2009, tirando fotos de centenas de milhões de galáxias e estrelas distantes.

Quando o dr. Myuhrvold apresentou a sua pesquisa, em 2016, a NASA disse que ela não havia passado pela revisão por pares.

Agora, a NASA afirma em um documento: “A equipe da Neowise defende os seus dados e descobertas científicas que foram publicadas em vários artigos de revistas revisados por pares. A NASA confia na validade dos processos e análises realizadas pela equipe da Neowise”.

Em um e-mail, Edward L. Wright, da Universidade da Califórnia, Los Angeles, cientista que foi o principal investigador da WISE, contestou certos aspectos do trabalho do dr. Myhrvold. Segundo ele, uma seção sobre a análise do erro foi “um desperdício de papel”.

As conclusões do dr. Myhrvold representam um desafio a uma missão para a descoberta de asteroides proposta pela NASA, chamada Neocam, Near Earth Object Camera, que provavelmente custou centenas de milhões de dólares.

Pelo menos um cientista da NASA achou merecedora a iniciativa do dr. Myhrvold. David Morrison, falando das questões levantadas nos artigos, disse: “Em sua maior parte, acho que Myhrvold está correto”.

“Acho que é válido alguém, um outsider inteligente, analisar dados importantes”, afirmou o dr. Morrison, que não está envolvido com a pesquisa do dr. Myhrvold, a Neowise. “Isto ajuda a ciência. Não pode ser uma coisa ruim”.

No início deste ano, a revista “Icarus” publicou o primeiro artigo do dr. Myhrvold sobre como a luz solar refletida afeta as medições de asteroides nos comprimentos de ondas mais curtas do infravermelho feitas pelo WISE. A publicação postou um segundo artigo em maio com as críticas do dr. Myhrvold  sobre os dados dos asteroides da NASA.

Outros astrônomos concordaram que os cientistas do Neowise não foram claros a respeito dos números que estavam informando.

“Eles fizeram algumas coisas ridículas”, disse Alan W. Harris, um especialista da NASA aposentado que foi o revisor do segundo artigo de Myhrvold.

Myhrvold afirmou que a NASA deveria pausar o Neocam, porque poderá sofrer as mesmas limitações do Neowise. E acrescentou que um observatório localizado no solo, o Grande Telescópio de Levantamento Sinóptico, que já está em construção, realizará grande parte das missões da Neocam.

Myhrvold acredita que há descobertas nos dados da Neocam, escondidos no que foi jogado fora durante as análises. “Talvez exista toda uma nova classe de asteroides lá fora”, afirmou. “Esta é a única coisa que teremos por muito tempo. Devemos trabalhar de maneira correta”.

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