Robert Wright para The New York Times
Robert Wright para The New York Times

Um desejo instintivo de alterar a própria consciência

Enquanto ingerir bebida alcoólica se torna cada vez mais raro durante o expediente, drogas psicodélicas ganham força

Rob Todd, The New York Times

17 de junho de 2018 | 10h00

Por meio de bebidas ou de drogas, os seres humanos sempre procuraram alterar sua consciência, ainda que incorrendo em graves riscos - mas talvez com uma grande recompensa.

Este desejo também pode remontar a muito antes do aparecimento do ser humano. Segundo “A Short History of Drunkenness”, que Tony Perrottet escreveu para “The New York Times”, a origem da nossa espécie ‘tem tudo a ver com o nosso amor pela bebida'.

O livro de Mark Forsyth afirma que os primatas suficientemente corajosos para despencarem das árvores queriam embebedar-se de frutas fermentadas. Portanto, a evolução começou - e levou apenas mais 10 milhões de anos para os humanos começarem a cultivar a cevada “porque queriam se embebedar”.

Estas afirmações, juntamente com outras de Forsyth assemelham-se na hipérbole: o vinho é a razão pela qual o cristianismo se difundiu; a proibição da vodka provocou a Revolução Russa; e o primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington, ganhou votos por oferecer ao povo bebida de graça.

“Todo comportamento possível em relação à ebriedade foi testado ao longo das eras”, escreveu Perrottet. “A única constante, talvez, é que o álcool é uma força destruidora que por sua própria natureza derrota todo esforço para controlá-la, desde as proibições na época dos antigos romanos e os pervertidos rituais báquicos, no primeiro século depois de Cristo, à grande experiência norte-americana, a Proibição”.

A Proibição acabou em 1933, mas as atitudes americanas em relação à bebida continuaram mudando, e, hoje em dia, beber nas horas de expediente é um hábito praticamente extinto.

“Algumas décadas depois do ápice do notório almoço ‘dos três martinis’”, escreveu no “The Times” o editor e romancista Adam Sternbergh, “o ato de pedir sequer um mísero martini com o almoço em um dia de trabalho é considerado o equivalente a pegar todo o equipamento para uso de heroína e espalhá-lo sobre a mesa entre um prato e outro”.

Sternbergh afirma ainda que a culpada pelo desaparecimento da bebida do meio-dia não é a moral, mas algo mais suspeito: a produtividade.

“Como a euforia em geral, a produtividade é algo que buscamos habitualmente”, ele escreveu, “e, no entanto, ao contrário da euforia em geral, dá uma sensação terrível”.

Uma pesquisa sobre o hábito de beber durante o dia realizado pela cervejaria italiana Birra Moretti mostrou que os trabalhadores americanos não só não bebem tanto quanto os seus colegas italianos, como eles raramente têm tempo para comer.

“Isto poderia explicar por que chegamos ao improvável momento em que apelar para micro doses de LSD, a fim de aumentar a produtividade no local de trabalho é, em alguns ambientes, mais aceito do ponto de vista profissional do que tomar um copo de vinho”, escreveu Sternbergh.

Na realidade, as drogas psicodélicas estão voltando, inclusive nos escritórios do Vale do Silício.

“A micro dose é a moda do momento”, escreveu John Williams em “The Times”. “A micro dose refere-se às pequenas quantidades de LSD que as pessoas tomam a fim de produzir efeitos ‘subperceptivos’ que podem melhorar o humor, a produtividade e a criatividade”.

Existe o conceito de que estas drogas ilegais não levam à dependência e são mais moderadas para o organismo do que muitas outras coisas legais que colocamos nele.

“As psicodélicas são para as drogas o que as Pirâmides são para a arquitetura - majestosas, antigas e um tanto assustadoras”, escreveu Tom Bisset em uma resenha de “How to Change Your Mind”, de Michael Pollan. “Levando em conta tudo isto, o LSD é provavelmente menos nocivo para o corpo humano do que a Dieta do Dr. Pepper”.

O LSD tratou com sucesso o alcoolismo, a depressão e pacientes de câncer até que a pesquisa neste campo parou nos anos 70, afirmou Pollan em “The Times”. Ultimamente, está ocorrendo um renascimento dos estudos sobre os seus possíveis benefícios.

Pollan é tão convincente em seu livro sobre as drogas psicodélicas, escreveu Bissell, que consegue o impossível: “Ele faz com que destruir a própria mente pareça a coisa mais saudável que uma pessoa pode fazer”.

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