Gudskul/Jin Panji
Gudskul/Jin Panji

Um festival alemão com tempero da Indonésia

O coletivo indonésio ruangrupa foi nomeado como curador da Documenta, importante mostra de arte que acontece na Alemanha a cada cinco anos

Alex Marshall, The New York Times

10 de março de 2019 | 06h00

Um coletivo de artes da Indonésia foi nomeado, no mês passado, para assumir a direção artística da 15ª edição da Documenta, exposição de arte que se realiza a cada cinco anos na cidade industrial de Kassel, na Alemanha.

O grupo, chamado "ruangrupa" - com "r" minúsculo mesmo, nome que pode ser traduzido livremente como "um espaço para a arte" - será o primeiro constituído por curadores asiáticos para este evento, uma das mostras de arte mais conceituadas do mundo. Os dez integrantes principais do ruangrupa são também os primeiros artistas, e não curadores em tempo integral, escolhidos para organizar a mostra, que vai de junho a setembro de 2022.

O coletivo é conhecido por trabalhar com grupos comunitários e pretende levar esta abordagem para a exposição, segundo Farid Rakun e Ade Darmawan, dois de seus integrantes. Eles vão focar "nas feridas que restam até hoje, principalmente aquelas cujas raízes estão no colonialismo, no capitalismo ou nas estruturas patriarcais", acrescentaram. Os artistas também querem mostrar obras ou apresentar eventos "que ofereçam às pessoas uma visão diferente do mundo".

Fundada em 1955, a Documenta se define como um "museu de 100 dias". Ela frequentemente apresenta questões sociais, proporcionando a expoentes do mundo das artes e a artistas menos conhecidos uma plataforma global. A última vez em que um coletivo organizou uma mostra, na quarta edição de 1969, o evento foi criticado. Desde então, tem sido dirigido  por uma ou duas pessoas.

A Documenta 14, de 2017, foi organizada pelo curador polonês Adam Szymczyk e foi vista por mais de 1 milhão de pessoas. Foi a primeira mostra dividida entre duas cidades, Kassel e Atenas.

A recepção por parte dos críticos de arte não foi unânime. Holland Cotter, do New York Times, definiu-a como uma mostra dispersa, desigual, implacavelmente nada espetacular.  Mas, acrescentou: "No final, é tão boa quanto o tempo e a atenção que você está disposto a dedicar a ela".

A mostra gastou US$ 8 milhões acima do orçamento, e a prefeitura de Kassel e o Estado alemão de Hesse, onde a cidade se localiza, tiveram de intervir para impedir que a companhia que apresenta a mostra fosse à falência.

Fundado em 2000 em Jacarta, na Indonésia, o ruangrupa dirige um espaço de arte na cidade e também é curador de mostras no mundo todo. Em 2016, foi o responsável pela montagem da exposição de arte Sonsbeek de Arnhem, na Holanda, e deu aos representantes locais sugestões quanto ao conteúdo da mostra. Uma das instalações foi uma estrutura de madeira do artista Alphons der Avest, em que alguns padeiros locais fizeram tudo o que se pode imaginar, de pão turco a pizza. Para alimentar o forno, eles usaram os materiais da construção, de modo que a estrutura acabou consumindo a si mesma.

"A Documenta oferece propositalmente espaço para uma visão não europeia", afirmou Angela Dorn, ministra responsável pelas artes em Hesse."O ruangrupa usa a arte em seu próprio país para abordar questões e problemas públicos. Estou ansiosa para ver como eles incorporarão este conceito na Documenta".

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