Jonathan E. Kolby/Honduras Amphibian Rescue & Conservation Center
Jonathan E. Kolby/Honduras Amphibian Rescue & Conservation Center

Um fungo que mata rãs é pior do que se pode imaginar

'É um verdadeiro abalo sísmico', afirma a bióloga Wendy Palen

Carl Zimmer, The New York Times

19 de abril de 2019 | 06h00

Em março, 41 cientistas publicaram a primeira análise mundial de um ataque de fungos que há dezenas de anos está acabando com as rãs. A devastação é um problema muito pior do que se imaginava. No artigo publicado na revista “Science”, os pesquisadores concluíram que as populações de mais de 500 espécies de anfíbios declinaram de maneira significativa por causa da epidemia - incluindo pelo menos 90 espécies que agora são consideradas extintas.

“É um verdadeiro abalo sísmico”, afirmou Wendy Palen, uma bióloga da Simon Fraser University na Colúmbia Britânica, coautora de um comentário que acompanha o estudo. “Agora ele justifica a definição de patógeno mais letal conhecido no mundo científico”. Os cientistas notaram pela primeira vez, nos anos 1970, que algumas populações de rãs estavam diminuindo rapidamente; nos anos 1980, algumas espécies já pareciam extintas.

As perdas eram um fenômeno espantoso, porque as rãs viviam em seus habitats originais. No final dos anos 1990, alguns pesquisadores descobriram que as rãs da Austrália e do Panamá estavam infectadas por um fungo letal, que batizaram Batrachochytrium dendrobatidis - Bd.

Estudos do DNA sugerem que ele se originou na Península da Coreia. Na Ásia, os anfíbios parecem imunes ao Bd, mas quando eles chegaram a outras partes do mundo - provavelmente via comércio de anfíbios de estimação - o fundo atacou centenas de espécies vulneráveis. Ele invade as células da pele e se multiplica. A pele de uma rá infectada começa a descascar. Antes de morrer, a rã pode pular para uma nova lagoa, espalhando ainda mais o fungo.

“Sabíamos que as rãs estavam morrendo no mundo inteiro, mas ninguém pesquisou desde o começo e avaliou realmente o impacto disto”, observou Benjamin Scheele, um ecologista da Australian National University e principal autor do novo estudo. Em 2015, a sua equipe coligiu dados  de mais de mil trabalhos publicados sobre o Bd e viajou pelo mundo a fim de encontrar-se com especialistas. Também analisou dados de museus, onde os cientistas encontraram DNA do Bd em espécimes preservadas.

A equipe de Scheele identificou 501 espécies em declínio. E concluiu que a catástrofe das rãs chegou ao pico nos anos 1980, dez anos antes da descoberta do Bd. Hoje, 39% das espécies afetadas continua declinando. Doze por cento mostra sinais de recuperação, possivelmente porque a seleção natural favorece animais resistentes. O elemento surpresa pode ter causado o sucesso da devastação do Bd. “Não era esperado e nem previsto, por isso a comunidade de pesquisa levou muito tempo para recuperar o atraso”, afirmou Scheele.

Em 2013, os pesquisadores descobriram que um fungo relacionado chamado Batrachochytrium salamandrivorans, Bsal, estava atacando salamandras de fogo na Bélgica. Graças à criação de barreiras ao comércio atualmente adotadas, o Bsal ainda não ameaçou outras espécies no mundo.

Mas ainda existem inúmeros motivos para temer novos surtos. O Bd ainda não chegou à Nova Guiné, onde existe uma grande variedade de espécies anfíbias que não se encontram em outros lugares da Terra. Se uma rá infectada chegar lá, o fungo encontrará  um número imenso de hospedeiras vulneráveis para atacar.

A perda das rãs pode alterar ecossistemas inteiros. Sem girinos para se fartarem de algas, a proliferação poderá asfixiar as torrentes. Sem rãs para comerem insetos, algumas espécies que carregam a doença se tornarão mais comuns. Aves e outros predadores que comem rãs precisam encontrar alternativas.

Os cientistas não confiam sequer nas espécies que não foram atacadas pelo Bd. Outra cepa de Bd ou um fungo completamente diferente poderá se revelar ainda mais mortal. “É uma roleta russa, os patógenos estão em movimento no mundo inteiro", disse Scheele. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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