Maxime Fossat para The New York Times
Maxime Fossat para The New York Times

Um hotel pode salvar uma cidade?

A ideia de tentar preservar um vilarejo com apenas 12 habitantes, cuja média de idade é de 75 anos, encontra rejeição entre os próprios moradores

Raphael Minder, The New York Times

12 Setembro 2018 | 15h15

CORIPPO, SUÍÇA - Com pontualidade suíça, a aldeia de Corippo desperta para a vida às 8h15 todas as manhãs, quando as pessoas se reúnem na praça da igreja para esperar o pão do dia. Quem os entrega é Eros Mella, um padeiro que chega dirigindo seu carro pelas curvas estreitas do Vale de Verzasca, na região de língua italiana do sul da Suíça.

Nos meses de verão, a clientela que compra seus pãezinhos e pães de forma é a população local e alguns turistas que passam as férias no lugar. Mas nos meses de inverno, a situação é diferente. "Venho até aqui de carro para atender a apenas dois ou três clientes", disse. A aldeia só tem 12 moradores fixos - a menor população suíça, e provavelmente também a mais idosa, com uma média etária de 75 anos.

O declínio demográfico é tema de um debate sobre a possibilidade de deter a queda da população rural na Europa e encontrar oportunidades econômicas alternativas à agricultura a fim de manter a população mais jovem nas aldeias.

As autoridades regionais acreditam ter encontrado a solução para ajudar a preservar Corippo: em julho, elas permitiram que uma fundação local financiada por verbas públicas transformasse algumas das 30 casas abandonadas da aldeia em um hotel. O projeto utiliza um modelo adotado na vizinha Itália, conhecido como "albergo diffuso", o hotel espalhado.

Segundo Fabio Giacomazzi, arquiteto e líder da fundação Corippo, este tipo de estabelecimentos foi  usado pela primeira vez na região de Friuli, no nordeste da Itália, para reerguer algumas aldeias destruídas por um terremoto em 1976. 

Inicialmente, o hotel terá cerca de 25 leitos. Seu espaço público girará em torno de uma área de recepção no restaurante sazonal da aldeia. Depois de 2019, serão acrescentados mais leitos, bem como uma sala para seminários que poderá ser alugada por executivos.

A fundação sem fins lucrativos de Corippo afirma que garantiu 2,2 milhões de francos suíços (aproximadamente R$ 9,4 milhões), do total dos 3,2 milhões de francos suíços (cerca de 13,7 milhões) necessários para iniciar o hotel no próximo ano. A maior parte deste dinheiro é constituída por verbas públicas e empréstimos bancários. Um pernoite em quarto duplo custará de 100 a 150 francos suíços (entre R$ 430 e R$640).

Mas o hotel recebeu uma resposta morna dos moradores, alguns dos quais criticam o foco no turismo em detrimento de suas necessidades, como resolver o problema de um sistema deficiente de fornecimento da água.

Há também preocupações com a possibilidade de os hóspedes do hotel contrabalançarem a demografia de Corippo. Apenas um de seus residentes ainda trabalha - ele é funcionário de uma empresa florestal que fica a vários quilômetros de distância. Os outros são aposentados.

"Se estamos falando de turismo sustentável, devemos começar perguntando exatamente quem estará no vilarejo daqui a de dez anos para receber os turistas", comentou Alfredo Scilacci, que mora em Genebra, mas herdou a casa da família em Corippo.

Presidente da fundação encarregada da realização do projeto, Alan Matasci prevê que o hotel atrairá visitantes sem o risco do turismo em massa.

"Não podemos prever ou controlar exatamente como o turismo se desenvolve", disse. "Mas podemos afirmar que, sem este hotel, provavelmente ninguém morará em Corippo daqui a 15 anos".

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