Nadia Shira Cohen para The New York Times
Nadia Shira Cohen para The New York Times

Um lugar onde as renas são motivo de conflito entre povo e governo

Povo indígena da Noruega teme que sua cultura morra e vai apelar à ONU

Nadia Shira Cohen, The New York Times

22 Dezembro 2018 | 06h00

KAUTOKEINO, NORUEGA - O pastoreio de renas não é um trabalho para muitos Sami, povo indígena composto por menos de 140 mil membros que habitam o norte da Suécia, Noruega, Finlândia e Rússia. Trata-se de um modo de vida. Jovsset Ante Sara, 26 anos, conhece seu trecho da tundra como se fosse o bairro de uma cidade, terras adquiridas ao longo de gerações graças ao meticuloso trabalho de seus ancestrais. Ele sabe identificar as próprias renas graças ao formato único de suas orelhas. O pastor e sua família precisam que elas fiquem vivas e preservem seus direitos à terra, bem como suas tradições.

É por isso que Sara diz ter se recusado a respeitar as leis norueguesas que limitam o tamanho dos rebanhos de renas. O governo diz que a medida foi adotada para preservar os pastos. O rebanho de Sara foi limitado em 75 animais. Assim, a cada ano, se o rebanho crescer, ele precisa mantê-lo dentro dos parâmetros. Ao menos, é o que diz a lei. Ele se recusou a abater suas 350 ou 400 renas, e processou o governo. “Acionei a justiça porque não podia assistir passivamente à morte da minha cultura", disse ele.

O pastor perdeu processo na Suprema Corte e acumulou despesas jurídicas de 60 mil dólares, e agora paira sobre sua cabeça a ameaça de perder suas terras. O governo deu a ele até o fim do ano para se adequar à lei. O caso é apenas uma das muitas batalhas travadas pelos Sami da Noruega ao longo de uma comprida história para preservar do governo sua cultura e modo de vida.

Os Sami foram colonizados por missionários cristãos, obrigados a abandonar seus costumes xamânicos e assimilar-se. Sombrios relatos de crianças Sami enviadas a internatos e estudadas por antropólogos de maneira desumanizante são uma mancha duradoura na historia dos países nórdicos.

Hoje, os Sami da Noruega chegam a cerca de 55 mil, com 10% deles envolvidos no pastoreio de renas. A população de renas na Noruega é calculada na casa das 220.000. Os pastores ganham dinheiro vendendo a carne e as peles das renas. “Quando matamos uma rena, usamos cada parte do animal", disse Sara. A pele é transformada em luvas e sapatos confortáveis com a ponta inclinada. A carne é vendida em toda a Noruega, e também exportada. Os chifres são pulverizados e transformados num afrodisíaco vendido na China.

O governo tenta apagar os erros do passado e, com isso, os Sami têm sua própria universidade, escolas que ensinam o idioma Sami, e seu próprio parlamento, ainda que apenas simbólico. Elle Márjá Eira, 34 anos, é cantora, cineasta, pastora de renas e mãe de dois. Elle faz parte de uma geração mais nova que se opôs à discriminação e aos projetos industriais, vistos pelos Sami como uma ameaça ao seu modo de vida.

O pai dela, Per Henrik Eira, 56 anos, e outros processaram recentemente um projeto de geração de energia do governo comandado pela Statnett, empresa elétrica de propriedade do governo, que eles dizem representar uma ameaça para as terras que usam como pasto no verão. A Statnett afirma que o projeto não ameaça a cultura Sami. “Ao nos empurrar para áreas cada vez menores, eles estão nos levando a conflitos entre nós", disse Elle. Ela e outros Sami apresentam preocupações semelhantes com as leis que limitam o tamanho dos rebanhos. Sara está levando seu caso ao Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra. “É minha única alternativa", disse ele.

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