Karsten Moran/The New York Times
Karsten Moran/The New York Times

Um mergulho no 'rock' pelos museus de Nova York

Com foco em relações afetivas, quatro espaços na cidade apresentam exposições centradas no rock

Mark Richardson, The New York Times

24 de abril de 2019 | 06h00

Uma voz masculina recita versos de um poema enquanto imagens fantásticas de paisagens urbanas são projetadas em uma tela, num cômodo escuro.“Quando não consegui dormir/Aprendi a escrever", ouvimos o homem dizer.“Aprendi a escrever/coisas que poderiam ser lidas/em noites como essa/por alguém como eu”. A obra pode ser vista em Leonard Cohen: A Crack in Everything, exposição que celebra o cantor e compositor, morto em 2016, no Museu Judaico de Nova York.

Os versos de Cohen tirados de The Only Poem falam de um elo quase místico entre aqueles que criam a arte e aqueles que a consomem. Essa identificação emocional é a força que anima quatro exposições atualmente em cartaz em Nova York cujo foco é a música.

No Metropolitan Museum of Art, Play It Loud: Instruments of Rock & Roll, apresentada em colaboração com o Rock & Roll Hall of Fame, oferece um vislumbre da história por meio do rock dos anos 1960 e 1970. Uma sala é dedicada à seção rítmica (um baixo duplo de James Jamerson, que tocou em dúzias de sucessos da Motown, bem como baterias de bandas como Beatles e Metallica) e outra sala mostra os “deuses da guitarra", com instrumentos de Eric Clapton, Jerry Garcia e outros.

A apresentação de Too Fast to Live, Too Young to Die: Punk Graphics, 1976-1986, no Museum of Arts and Design, é modesta, condizente com as origens humildes das imagens expostas. Cartazes promovendo novos álbuns, turnês e apresentações são misturados à arte dos discos, revistas, broches e outros artigos. A maioria das peças não está emoldurada, e quase todas mostram sinais de uso. As extremidades desgastadas e dobras marcadas nas obras fazem a história ganhar vida.

Uma sala é dedicada à influência dos quadrinhos, como observado em cartazes de grupos como Angry Samoans e Damned, enquanto belos e imensos cartazes de turnês da Stiff Records, desenhados por Barney Bubbles, lembram as impressões de Warhol. Por meio desses objetos, um subconjunto de fãs da música se definiu como uma tribo.

No Museum of Sex, há uma exposição explorando o punk por outro ângulo. Punk Lust: Raw Provocation 1971-1985 é o ensaio de uma história secreta desse estilo musical, com base na apresentação do desejo. Manequins são vestidos com correntes e roupas fetichistas, algo que, somado ao revestimento de aço e rebites do chão, cria uma atmosfera digna das casas noturnas imundas do centro da Nova York do início dos anos 1980.

A exposição começa com imagens de Velvet Underground: a edição de 1963 desse título, exploração daquilo que na época era chamado de comportamento sexual anormal e deu nome à banda, é um dos primeiro objetos mostrados. Em meio a fotografias, arte dos álbuns e material de divulgação de artistas como Iggy Pop, New York Dolls, Patti Smith e Sex Pistols, a exposição mostra como o punk ofereceu um espaço para a expressão sexual fora da cultura mainstream. Imagens de conteúdo sexual explícito são uma ferramenta chocante que afasta o universo hétero e oferece conforto aos que permanecem do lado de dentro.

O lado erótico do catálogo de Cohen é um dos muitos focos de A Crack in Everything. Os curadores da exposição, John Zeppetelli do Musée d’Art Contemporain de Montréal, e Victor Shiffman, convocaram artistas de diferentes plataformas para que desenvolvessem obras inspiradas em Cohen.

Passing Through, de George Fok, intercala apresentações de diferentes momentos da carreira de Cohen com vídeos que rodeiam o espectador. A instalação de Candice Breitz, I’m Your Man (A Portrait of Leonard Cohen) reúne retratos em vídeo de 19 homens com idade superior a 65 anos cantarolando canções de Cohen. Ao caminhar pela sala, sentimos como se os homens estivessem presentes.

As muitas camadas de A Crack in Everything oferecem muito para os fãs de Cohen, mas dizem ainda mais a respeito da nossa relação com a música, de como a trazemos para nossas vidas e a usamos como forma de alívio e como agente transformador. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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