Sara Stathas/The New York Times
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Um novo livro de receitas feito por indígenas para indígenas

Um grupo de chefs indígenas está lançando um livro de cozinha virtual com temas digitais, webinares e vídeos para recuperar narrativas sobre alimentos nativos

Priya Krishna, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2021 | 05h00

A chiltepin é uma pimenta minúscula e extremamente picante que é a avó genética de quase todas as variedades de pimentas cultivadas nos Estados Unidos. É um emblema vivo de como os ingredientes indígenas formaram a base da cultura alimentar americana. Mas a história da chiltepin – e dos povos indígenas no sudoeste dos EUA que a cultivam – não está bem documentada na mídia alimentar tradicional.

O novo livro de receitas A Gathering Basket (Uma cesta para juntar, em tradução livre), tem como objetivo contar as histórias por trás de alimentos indígenas como a chiltepin. Vários livros de receitas já foram publicados sobre as práticas alimentares indígenas, mas esse – feito pela organização de chefs indígenas I-Collective – se destaca por ter sido escrito por indígenas para sua comunidade.

"Há uma peça faltando no quebra-cabeça quando se trata de culinária indígena", disse M. Karlos Baca, autor principal de A Gathering Basket. "A narrativa mais difundida é que vagávamos pela terra, mal nutridos", quando na realidade os indígenas têm séculos de tradição alimentar rica e inovadora.

A Gathering Basket não é um livro de receitas tradicional. É feito de edições digitais de receitas, ensaios e vídeos, com seu lançamento coincidindo com o início de cada ciclo lunar. Uma discussão virtual está programada para acompanhar cada edição. Além disso, uma publicação impressa está planejada para o fim do próximo ano.

"Conseguir criar essa plataforma multimídia nos possibilita um crescimento constante. É um documento vivo que pode se expandir e crescer, assim como nossos hábitos alimentares e nossas receitas", comentou Baca, de 45 anos, que é diné e nuchu e mora em Mancos, no Colorado. Uma plataforma virtual também pode atingir mais pessoas do que um livro de receitas impresso.

A assinatura vai custar US$ 30 para cinco edições, com bolsas de estudo para financiar o acesso de indígenas que não conseguem pagar. "O controle sobre a própria narrativa é muito importante, e isso é mais difícil de fazer quando outras partes interessadas de fora da comunidade estão envolvidas", acrescentou Baca.

A abordagem "para nós, por nós" foi particularmente importante para Kristina Stanley, de 38 anos, gerente de projeto do livro, que é anishinaabe, membro da Red Cliff Band of Lake Superior, chef confeiteira e empresária em Appleton, no Wisconsin: "Quando falamos especialmente de receitas culturais ou tradicionais específicas, há tantos fatores que são infundidos na produção – desde o que está sendo produzido localmente até as cerimônias associadas a certos alimentos – que certos conhecimentos não se destinam a outras comunidades ou comunidades externas."

A primeira questão gira em torno de uma receita de picolé – mas na verdade se trata dos ingredientes. Em uma série de ensaios, Baca discute a história da chiltepin; como alguns usam o termo em inglês "squawberry" para se referir à planta conhecida como sumagre de três folhas, fazendo uso de um termo depreciativo para os povos indígenas; e por que a mandioca é um produto essencial não apenas para a alimentação, mas para fazer sabão, linha e calçados. Há um vídeo no qual os indígenas se referem ao sumagre de três folhas nos idiomas hopi, diné, ute e apache.

Edições futuras vão destacar a Guerra Walleye, conflito que começou no fim do século XX, quando os povos indígenas tiveram de lutar para manter seus direitos de pesca definidos em um tratado e para a reconquista de algumas variedades de alimentos indígenas, como a abóbora Taos Pueblo.

Quentin Glabus, de 41 anos, chefe de produção de vídeo, e membro da Frog Lake Cree First Nation, disse que esperava que o livro A Gathering Basket inspirasse outros povos indígenas a codificar suas tradições para que as gerações futuras pudessem participar delas. "Muito do conhecimento foi ensinado por meio de contação de histórias e prática. Não foi escrito ou documentado."

O I-Collective pode em breve ter uma plataforma maior para ajudar com essa codificação. Uma meta de longo prazo para a organização é estabelecer um selo editorial para livros de receitas indígenas. A esperança, por meio de tudo isso, é "mudar essa narrativa de que os povos nativos foram destinatários de serviços, para uma em que sejam vistos como detentores de conhecimento empoderados", observou Stanley.

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